




Leitura a dois
Acho que o dia em que realmente me apaixonei por ela foi aquele em que tomei o maior fora da minha vida. Eu achava fascinante, quase erótico. Ela entrava no apartamento exatamente as 18:12. A cada passo, uma peça de roupa caia no chão. E a cada queda, um suspiro saia do meu peito. Não interessa o fato de que já vi esse ritual mais de cem vezes, cada vez é nova, é surreal. Ela, ao deixar cair o soutien, estalava os dedos e se alongava caminhando até a sacada, num ato de sadismo. Sentia o vento, sorriso fresco nos lábios. Mais que o próprio vento que levava seus cabelos para as costas. Voltava para dentro do apartamento, pegava um livro e lia. Nua. Completamente nua. Sua pele brilha, reflete a luz. Quase comestível. Posso sentir o vento percorrendo seus seios, como um gole de água gelada. As pernas longas se cruzam no alto, confortável pra ela, um soco no estomago em mim. Aquilo me arrancava arrepios de onde eu nem imaginava que poderiam sair. Me apodrecia os sonhos sempre. E me acelerava o peito toda vez que a via saindo de carro, na garagem do outro lado da rua.
Eu já havia perfurado sua intimidade tantas vezes que achava normal. Sentia-me seu amante. Aquele espetáculo era apenas e somente para mim. Sentia nos meus ossos que ela sabia que eu a observava. Fazia de propósito. Crueldade, Jesus... Meus dedos longe daquelas costas. Contentar-me com a folha de papel áspero onde meus versos vagabundos habitam. Versos pra ela, obvio. Que ela nunca leria. E eu nunca assistiria.
Naquele dia, nos esbarramos na saída dos prédios, pela primeira vez. Ela saindo a pé e eu voltando da padaria. Medíocre. Mas mesmo com um saquinho de pão ridículo nas mãos, me senti forte. Sou seu marido, seu amante. Me aproximei e perguntei:
-Afinal... Porque você faz questão de ler nua toda noite?
Um sorrisinho de pedreiro contaminava meus lábios. Esperava uma risada tímida, porem feminina, um convite para entrar e uma leitura a dois em voz alta. Minha imaginação maquinou aquele momento por horas, sabia exatamente cada linha daquele espetáculo. Mas para minha surpresa e vergonha, ela diz, como se respondesse uma questão de matemática:
-Porque é confortável...
Virou as costas. E foi embora, virando a esquina. Improviso infeliz... Se eu pudesse me enterrar ali, me enterraria. O vexame pinicava na roupa. Sentia cada osso do meu corpo gelar, o suor percorria a testa, vermelha. Tudo que consegui fazer foi atravessar a rua, entrar pelo portão do meu edifício, subir pelo elevador, entrar em casa e me jogar no sofá. Que nojo, que nojo de mim. Mas no fundo daquela vergonha, algo tentava se desenterrar. Subia pela pele, arrepiando os pelos. Eu não sabia o que era, mas era quente.
Desejo.
Naquele dia... Naquele dia, ela não me saiu mais do pensamento. E eu não saí mais da sacada.

Doce
Brilhava como um doce. Um doce daqueles de grudar nos dentes...
Seu casaco ondulava docemente no vento. As pernas compridas e finas deixavam um ar desengonçado, e o sorriso congelado no rosto era contagiante, erguendo as bochechas rosadas e fazendo fechar os pequenos olhos orientais. Cabelo preto, cortado linearmente, formando uma tigela infantilizada, preta, brilhante e lisa. Perfeitamente inofensivo.
O parque estava ensolarado, o céu azul sólido. Crianças corriam e gritavam de forma estridente, senhores passeavam com os cachorros. E havia casais... Muitos. Jovens, velhos, casados, noivos, apenas namorando. Sempre sorridentes e sempre colados. Como os casais chamavam a atenção do pequeno japonês. Adorava-os. Observava, com seu sorriso congelado no rosto. As mãos nos bolsos, o vento cortando a pele. E era assim que começava seu dia. Com a escolha de um casal premiado.
Ela com olhos azuis, cabelos pretos bem compridos. Ele cheio de espinhas, ruivo, exótico. Eram aqueles dois. E ponto. Começou a caminhada até um prédio antigo, caindo aos pedaços. Entrou pelo portal de vidro lascado e subiu as escadas longas até o mirante abandonado. Foi em direção a um dos cantos, onde se encontrava uma maleta de corino vagabundo. Abriu-a, assoviando. Os olhos aparentando sempre estar fechados. Tirou dela algumas peças brilhantes e montou-as com destreza, enganando no quesito ‘desengonçado’. Appassionata III dedilhando nos seus tímpanos. A musica o fazia balançar os ombros infantilmente. Observou a obra montada, orgulhoso. Apontou o rifle até o parque, onde estivera andando há alguns instantes atrás. Encontrou a massa laranja grudada ao rosto cheio de espinhas. Observou pela ultima vez o sorriso da dama, pois seria o ultimo do dia. E com a delicadeza de uma bailarina, estourou os miolos ruivos, espalhando-os pela grama verde e fresca. O sangue brilhava como um doce. Um doce daqueles de grudar nos dentes... O grito bestial da dama encheu seus ouvidos, arrepiou os pelos do braço. E appassionata entrou na parte rápida, fazendo sua cabeça balançar de forma retardada. Ainda assoviando, desmontou a arma, o sorriso intacto, os olhos quase fechados. Não queria perder o espetáculo. Apressou o processo. Depois de ouvir o estalar das travas da maleta, desceu as escadas num trote rápido. Parou na calçada e observou, de longe, o escândalo da dama, o pranto enlouquecido, a expressão de dor profunda. Lindo... Sua garganta se encheu com algo quente, a sensação de que uma gargalhada fosse sair, vomitada dali. O teatro acontecendo e enchendo sua alma com a mais límpida alegria. Alegria que se repetiria no enterro. Ah... Obra de arte criada pelo homem... Todos de preto, guarda-chuvas abertos sem razão de ser, afinal o sol, irônico, projetava sombras frescas pela grama. A dama em prantos, algum qualquer a abraçando pelos ombros. E o pequeno japonês a alguns passos dali, observando o espetáculo com seu sorriso congelado. A beleza chegava a assusta-lo. Como era maravilhoso observar os soluços brotando do peito. Podia sentir a dor amargando a garganta. A tristeza era a mais bela pintura a ser observada. E ele queria mais.
O mesmo parque, a mesma grama, fresca e gelada. Perfeito tapete para receber fragmentos de carne. O casaco ondulando com a brisa, as pernas deslocando-se sem simetria. O sorriso imóvel. O casal premiado logo seria escolhido. Como a alegria deles chamava atenção do pequeno homem. Estavam ali, sentados sobre uma toalha. Ela, alta, cachos loiros na altura dos ombros. Ele, forte, moreno, olhos grandes. E os dentes brancos a mostra. Eram aqueles dois. E ponto. A escada parecia infinita. A ansiedade de ouvir os gritos agudos lhe comia os dedos. Se bem que... Porque não gritos graves dessa vez? Montou seu brinquedo, os dedos brancos tremendo com excitação. Pela mira, observava a moça. A pele rosada, com certeza macia, comeria a bala, a afagaria com calor. O pescoço era longo, levemente pálido. Era ali. Apertou o olho contra o metal gelado e alguns instantes depois, belos cachos loiros se tingiam de vermelho. Arrepiou longamente ao ver as mãos grandes sacudindo o corpo inerte da pequena. Desceu quase correndo os degraus, chegou a calçada e, novamente, observou seu espetáculo, a cena mais esperada. Quando ela morria era diferente. A amargura se mesclava a ódio. Homem não chora, homem ruge. Interessante. Mas não tanto. O enterro foi maravilhosamente melancólico. A mãe da dama de desmanchava em lagrimas geladas. E ao depositar o caixão fechado, o cavalheiro esmurrava-o, prometendo vingança, como se isso diminuísse o sofrimento de algum dos presentes. O efeito era o contrario, aumentava o prazer doente do oriental, aguardando no canto esquerdo o fim da peça. Mal conseguia dormir, aguardando o amanhecer e o sol, isca perfeita para casais. Sorrisos, escadas, sangue e lagrimas. Praticamente um café da manhã. Sua alma precisava, era seu alimento. Estava com fome.
Aquele dia amanheceu chuvoso. Droga... Casais não gostam de sair na chuva. Mesmo assim, fez seu caminho até o fatídico parque. Ao se aproximar, seu sorriso costurado se aumentou levemente. Um casal... Apenas um... Andando sob a garoa. Lindo. A melancolia da água junto aos prantos de um cavalheiro. Nem esperou para observar melhor a cena, galopou pelas escadas, escorregando às vezes. Chegou na platéia da sua peça. Montou com rapidez o rifle, a ansiedade fazendo a mão estremecer. Meteu o olho pela mira e observou a dama. Japonesa... Cabelos negros, levemente úmidos com a nevoa fina que caia. Um sorriso pequeno lhe preenchia o rosto redondo e rosado. Delicada como uma flor de cerejeira. Esperou. Seu dedo não respondia ao desejo de ver a bela face destroçada na grama. Um grito agudo dessa vez. A mira se deslocou para a esquerda, parou no meio de olhos amendoados, a pele levemente bronzeada, sobrancelhas grossas. O dedo não tremeu, desceu no gatilho como um coice. Explodiu o cavalheiro em cacos de osso. O sorriso aumentou um pouco mais. As mãos suavam de leve. Quando algo fez toda a cor do seu rosto fugir. As bochechas caíram em lábios semiabertos. Não se ouviu gritos. Não se viu lagrimas. Pela mira, seu olho dava diretamente nos olhos da dama. Ela o fitava, através da lente. Expressão nenhuma no rosto, apenas a forma redonda delicada e rosada. Como poderia ter o visto ali em cima? Seu corpo caiu para trás, os olhos finalmente abertos e mesmo assim, pequenos. A respiração acelerada. Sua mente se esvaziou. Seu corpo se desmontou. O cérebro voltou a funcionar num tranco de adrenalina, um desespero prazeroso. Quando apertou o olho na mira, para observar o que acontecia, deparou-se apenas com os restos do crânio partido. Seu coração parou. Movimentou o rifle desordenadamente, procurando a dama. Não a encontrou. O sangue esfriando aos poucos, as mãos gélidas. Um estalo o fez tirar o rosto devagar do visor. Seu corpo não respondia. Apenas a cabeça virou-se para trás. A dama estava ali. De pé, a sua frente. A roupa respingada em sangue. Seus olhos orientais fechados em um sorriso. Congelado... Appassionata III voltou a batucar seus tímpanos. A dama se aproximou devagar. A expressão intacta no rosto, aterrorizante, linda. O medo fedendo por entre a camisa pólo, o suor escorrendo pelo rosto. E um prazer doentio corrompendo-lhe o coração. A dama tombou de leve o rosto, estendeu-lhe a mão. Ele, num espasmo de masoquismo, estendeu a sua. Sentiu seu punho se estraçalhar em centenas de cacos. A dor lascinante lhe fazendo ter ânsias de prazer. O corpo foi levantado devagar pelo punho partido. O sorriso dela, inofensivo. Uma mão, pequena e úmida pousou sobre o seu peito. Sentiu os pés saírem do chão, flutuou delicadamente. A ultima coisa que viu foram olhos fechados, apertados em bochechas sorridentes. Caiu eternamente. 15... 11... Quantos andares tinha o prédio mesmo? Os ombros balançando de forma demente, seguindo o ritmo da musica; Beethoven deveria estar dando risadas. O japonês ria. Ria de forma obscena, doente, feliz. Enfiou-se no asfalto, rachou a calçada. Sentiu cada osso do seu corpo se deslocar, numa dor deliciosamente mortal. Ficou engavetado no IML por um mês. Foi enterrado em cova comum. Ninguém chorou. Ninguém gritou. Os únicos olhos que assistiam o coveiro mal humorado jogar terra sobre um punhado de carne eram orientais, femininos, fechados em um sorriso intocável, num rosto redondo, rosado. Jogou uma flor de cerejeira sob a terra fétida. Assoviou uma canção qualquer. Casais a atraiam também. Mas ela preferia a homens sozinhos. De preferência japoneses. Esperava-os no parque. Sempre apressados; sempre com cabelos da década passada. Quando avistava um exemplar, seguia e o chamava pra ver o parque do alto. Só não avisava que seria em queda livre. O saco de ossos tingiria a calçada com sangue. Sangue que brilhava. Brilhava como um doce de grudar nos dentes...


Não sabia o que era amor. Inocente. Não fazia idéia... Infelicidade era rotina. Tão rotina quanto a dose de café a tarde, ao ler o jornal. Passava os dedos preocupados pelos cabelos ralos. Mas, preocupados com o que? Não tinha filhos para esperar, não tinha esposa para lhe afligir. Preocupava-se com a vida, com o tempo esvaindo-se pelas mãos. A mediocridade dos dias passados lhe fustigava como o sol das duas, fazia encolher os olhos em uma dor desgostosa, assustadora. Incomodava como o zumbir de um inseto.
A televisão pintava as paredes da sala morta, branca. O único ponto de vida ali era um cacto tímido. E ele tinha mais conteúdo que o abandonado, arrancando os cabelos com as unhas aflitas. Nem lagrimas tinha mais. Era feito de café e tinta, dos jornais absorvidos pelos olhos e que maculava as mãos, colorindo-as de preto, num ato de ironia inanimada. O liquido negro reclamava em seu estomago vazio. A pele macilenta parecia se quebrar com um sopro. E o vento machucava. Até mais que a solidão. O olhar não tinha brilho. Lembrava um túnel escuro, profundo. Nem se imagina o que poderia sair dali em forma de palavras. 35 anos de morte. Como pode? Olhava ao redor, mas já decorara a sala, desde o teto até o chão. Brancos... Quando, num súbito olhar, absorve algo que não encaixava no quebra-cabeça morto. Pousada na parede, estava uma borboleta preta e amarela, como uma obra de arte. Vida... No meio do mar, terra. Olhou a criatura com a minúcia de um medico. Levantou da cadeira de forma demente e se aproximou devagar, com os braços estendidos em um glorioso desejo inédito. Desejo de toca-la. A esperança comendo-lhe os olhos. Os passos pesados e tortos pareciam eternos até a vida pendurada ali como um quadro. Quando ia toca-la, o ser, assustado, foge de seus dedos com temor, num vôo bruxuleante como uma luz a ponto de se queimar. Os braços esticados como galhos secos ficam flutuando no ar, sem cor, sem vida. Crueldade... a vida foge dele. Ódio... novamente lhe escapa a esperança. Mesmo que... ela nunca existiu. Como um louco, pulou, saltou e atacou a pobre cor. Ela não tem o direito de iludi-lo! De frustrar a solidão branca! As patas do o animal alcançam e esmagam o corpo amarelo e preto, trucidam a alegria, despedaçam a criatura como uma folha seca. As mãos derretem no preto do cadáver delicado, mancham a palma fria. Tinta... banhada a café, derrubado na mesa pelo súbito ataque. Olha ao redor, e se vê sozinho. De novo... Vira-se para a cadeira, se aproxima dela lentamente e se senta com a calma de um aposentado rico. Seu robe de lá xadrez e suas pantufas macias imaginários contornam o corpo quente, ainda respirando aceleradamente. Pega o papel levemente amassado e volta a ler, sem absorver palavra alguma. Passa os olhos pelo jornal vazio, como se passasse por sua vida. E da mesma forma, não absorve nada. Ela não existira. Era apenar um respirar vazio. Sorriu. Riu de leve, subindo os ombros, dando um murro na mesa e esbofeteando a xícara de café, que voa longe e se espatifa na parede, manchando-a com seu sangue preto e aguado. Abaixa a cabeça nas mãos, afundando o rosto nelas, sujando-o de morte. E soluça.

Katana


As arvores abraçavam a ruela úmida e confortável, fazendo ligeiras e pequenas sombras, deixando estampadas bolinhas de sol no chão macio, feito de folhas caídas no asfalto negro e brilhante. O vento era inexistente, como se o ar cochilasse entre os passos lentos e compridos de 14 anos. Ela observava as flores nas jardineiras das casinhas coloridas, de onde um aroma doce saia, percorrendo o ar preguiçoso e penetrando nas narinas, dando vontade de se deliciar com torta de maça e canela. Ouvia uma musica imaginaria, os olhos fechados e um sorriso escondido enfeitava o rosto com o prazer da simplicidade. Encolhia os ombros rindo quando alguns vestígios da chuva, que nem parecia ter existido, caem em seu rosto, ao passar por baixo de um abacateiro verde e sólido, o qual as raízes abriam fundas rachaduras na calçada velha e amavelmente molhada e quente. Tudo tão... Macio. A musica imaginaria bailava em seus ouvidos, até que sua delicada cabeça se vira devagar e seus olhos grandes, que atrairiam abelhas de tão azuis, fixam uma cena tão irritante quanto um grito de um violino desafinado. A musica murcha em seu ouvido, como um balão esquecido no canto da festa infantil. Suas finas e doces sobrancelhas se franzem em uma raiva infantil e ela bufa com fofura. O casebre de dona Amelinha polui a ruela amável onde a pequena emburrada andava e se deliciava. Seu pequeno reino de criança era arruinado por aquela desagradável casa cinzenta e feia, suja e desbotada, como um gibi ignorado na chuva. Sem flores, sem cheiro de torta... Casa de bruxa... É... É o que aquela velha feiosa é, uma bruxa! Olha aquela paisagem, como de um filme de terror e a raiva infantil vai amargando em sua garganta... Odeia do fundo da alma aquele canto esquecido por deus... Aquela velha enrugada e esquisita, que fica o dia todo na cadeira de balanço, resmungando baixinho, como se amaldiçoasse a felicidade de quem passasse perto. Crianças a acordam de seu devaneio de ódio, passam correndo ao seu lado e tacando pedras em direção a senhorinha, que se encolhe lentamente, como se estivesse embaixo d’água. Ela resmunga baixinho e continua em seu movimento autista, para frente e para trás, como se fosse seu motivo para viver... Balançar... A pequena lança um soslaio e solta uma risadinha seca e curta, seguida de um “bem feito”, maduro de mais para sua idade. Continua seu caminho de historia de João e Maria, sentindo o vento manso em seu rosto, que bagunça as madeixas negras e pesadas de seu rosto e espanta a imagem do casebre como se soprasse a poeira de alguma superfície. Quem se importa com aquele fantasma? Ela que continue ali, balançando de forma demente. E assim foi durante anos... Ela passando pela ruela, sempre amigável, sempre acolhedora, e se deparando com o câncer que era o casebre sem cor. Se irritando sempre com a presença maligna da senhorinha balançando-se como um galho prestes a despencar de tão seco. Ela estava sempre ali... Não interessa o quanto pudesse chover. Ela estava ali... Como uma gravura pitoresca que perturba. Nem o frio a espantava da varanda suja, de madeira mofada. A cadeira estava sempre habitada pelo corpo mole, coberto sempre de lã azul clara... Já nem se via vida ali, ela era como um objeto, como um bibelô lascado e feio. E os anos se passaram. E o balanço cada vez ficava mais lento... Mas nem se notava, apenas se apontava e xingava. Com a idade o ódio infantil da emburradinha foi se tornando asco. Ela apenas olhava e desejava que aquela casinha e sua maldita moradora fossem para o espaço. E desejava cada vez mais fortemente... E a pobre Amelinha continuava firme e forte... Talvez não tão forte. Mas firme. A pequena, já não tão pequena, odiava e Amelinha balançava. Era um ciclo vicioso eterno. Talvez... Não tão eterno... Ao que um dia, passando pelo caminho macio de sempre, aos 17 anos, a emburradinha se depara com uma cena assustadora. A cadeira de balanço sem sua companheira, empoleirada nela. Balançando sozinha ao vento, como se dançasse uma valsa sádica e solitária, rangendo de leve. A pequena tomba a cabeça para o lado, se perguntando aonde esta a odiosa senhora. Mas, vendo seu ódio sem alvo, segue seu caminho, incrivelmente mais curiosa do que feliz em não ver o corpo disforme e azul claro movendo-se em eterna câmera lenta. E no dia seguinte a cena absurda se repete. A casa cinzenta consegue a façanha de ficar mais morta ainda sem o fantasma na varanda ordinária e sem flores. A curiosidade começa a se mesclar a falta. Onde estaria seu objeto de nojo preferido? Ao chegar em casa e indagar a mãe, depois de mais uma tarde sem a presença da senhorinha em sua varanda, balançando eternamente, ela descobre que Amelinha faleceu há semanas...
Um vazio a atinge no peito... Um arrepio sobe por sua espinha... Como a odiosa velha bruxa pode morrer? Ela era imortal... Ela era o motivo pelo qual a vida não era perfeita. Sua existência era necessária! Ao se ver finalmente livre do câncer, sentiu algo que a fez sentir vontade de vomitar. Pena... Espere ai... Pena? Mas ela atormentou a beleza da ruela por anos! Ela deveria pular de alegria, esperando ansiosa para que alguém se mude para aquela casa feia e a deixe colorida como todas as outras! Mas não... Seu coração doía. Ela se virou de costas e saiu correndo em direção a casa que tanto a frustrava. Pela primeira vez ignorou toda a paisagem linda e amável envolta, nada importava, ela só via a massa cinza à esquerda. Entrou como um furacão pelo portão enferrujado como se fizesse isso todos os dias, deixando-o aberto. Espalhando lama pela soleira da porta, abriu com força o retângulo de madeira cheio de ranhuras e se deparou com o que, pela primeira vez, lhe mostrou a verdadeira face da velha bruxa. Fotos... Amelinha estava lá, estampada no porta retratos, sorrindo, alguns anos mais nova. E no outro, estava lá, tocando piano com uma expressão doce e sonhadora. E no outro, acompanhada de um jovem senhor, meio grisalho, os dois sorridentes apenas pelo fato de estarem juntos um ao outro. Uma luz logo se espalhou pela mente da garota. Voltou a correr, como se sua vida dependesse disso. Chegou ao cemitério, vazio a não ser por ela e por dois corvos, como esculturas em cima de uma lapide. Procurou esbaforida por entre as pedras e anjos tristes e finalmente encontrou o que caçava. Lá estava... A delicada e em preto e branco foto de Amelinha, ao lado da gravura do jovem senhor, também sem cores. A data na lapide revelava que o companheiro da tão solitária senhorinha tinha deixado esse mundo a exatos... 17 anos... Instantaneamente, um doloroso entendimento passa por sua cabeça. Ela finalmente entende o motivo pelo qual se via aquela maldita áurea cinza na ruela colorida, pontilhada de flores. Solidão... A imagem da bruxa agora vinha diferente em sua mente. Em vez de amargura, enxergava tristeza no balançar eterno que era a vida sozinha de Amelinha. Ela, a final de contas, era apenas triste... E sua tristeza era como uma pedra no sapato da pequena... Ela a lembrava de que a vida não era linda instintivamente... E agora, alem da pena, sentia nojo... Mas não da pobre Amelinha enterrada ali, de si mesma. Como pode odiar tamanha vitima da maldade da vida? Seus joelhos se soltam como dobradiças velhas, levando o corpo, soluçante, ao chão. E a pequena chora...

Você acha que vai me atingir com seu ódio? Ele me conforta... Sabia? Você acha que preciso do seu perdão? Ele vale menos que lixo pra mim... Sabia? Você acha que tenho pena de você? Pois é... Tenho mesmo... Sabia? Você acha que me arrependo do que disse a você? Pois é... Não me arrependo, faria tudo de novo e bem pior... Sabia? Você acha que virará homem me tratando mal como te tratei? Pois é... Você continua sendo um franguinho de merda que não põe medo nem em uma mosca... Sabia? Você acha que eu vou me incomodar com suas mensagens subliminares em comentários? Pois é... Não me incomodo, me divirto em saber que você me odeia... Sabia? Você pensa que eu te pedirei perdão por estragar sua vida? Pois é... Não pedirei... Sabia? Você acha que eu te usei para fins pessoais? Pois é... Usei mesmo... Sabia? Você acha que tenho nojo de você por ter essa aparência ridícula? Pois é... Tenho asco da sua face repulsiva... Você me da pena... Sabia?

Lá fora o céu despenca em lagrimas que se refletem em meu rosto... Ainda não me dei conta de que tudo que um dia foi, hoje não é mais... Que o que era móvel, hoje é intocado. Que o que era risada, hoje é silencio. As rosas pendem para o lado como se sentisse a áurea cinza ao redor. Todos dizem “ele era um homem bom...” era não... É... Palavras que saem e vagam até chegar aos ouvidos e baterem no cérebro, marcando como um ferro em brasa a mensagem: ele não esta mais entre nós.
“Seja forte” dizem os espectadores... Ser forte não significa erguer a cabeça e engolir as lagrimas, como se isso fosse algo nobre... Ser forte significa assumir que aquela pessoa que se foi nunca será substituída... Ser forte é se deitar sobre seu leito e chorar rios, soluçar como se essa dor não fosse passar jamais... Ser forte é bater no peito e dizer “sinto sua falta...” sejamos fortes então. Tenhamos honra. Vamos nos abraçar e chorar, pois aquela pessoa que um dia esteve, hoje esta, mas não ao nosso alcance. Esta apenas ao alcance dos olhos marejados, que se negam a aceitar aquela imagem de pálpebras fechadas, serenas, como se dissesse “não se preocupem, ainda estou ao lado de vocês”.
Suas papetes estão ao pé do sofá... Como dói ter que tira-las de lá...
Em memoria Luiz Hungria.


Virou-se de costas e andou prédio adentro, mãos nos bolsos... As mãos e soltam, como um nó se desfazendo. Entro no carro e olho para trás, conto os passos que você dá até desaparecer... Fito a calçada vazia... Não só a calçada, mas meu peito também se encontrava naquele estado, como se uma mão de ferro segurasse meu coração e aos poucos ele parasse... A cidade parece... Morta... As luzes de natal se refletem em meus olhos úmidos... Encosto no vidro do carro, a sensação gelada não alivia a dor... Ela é interna de mais... Dói. E apenas isso... Dói... Enquanto sinto o vidro gelado, um flashback passa em minha mente, como um filme mudo... As risadas, os beijos... A companhia...
E a dor... Dói...
Escorrego um pouco no estofado... As palavras ditas no banco da frente entram em meu cérebro, mas não são absorvidas... O olhar vago parece até, de certa forma, demente, como se algo faltasse ali para que se tornasse completo... E realmente faltava... Faltavam seus dedos entrelaçados nos meus... Quando me dou conta dos passos dados por minhas pernas, me encontro da plataforma nove, pessoas me olhando, fumaça de cigarro na atmosfera, quase que palpável de tão densa... Suas cartas se encontram de certa forma esmagadas pela tristeza das minhas mãos frias... Sento no chão e as leio, com a paciência de uma mãe olhando seu filho... Uma lagrima borra sua assinatura... Outros passos dados sem meu consentimento e estou dentro daquela caixa... A janela se embaça... E a dor, dói... Mordo os lábios com as sobrancelhas franzidas e os olhos fechados, como se um rim fosse arrancado do meu ser...Um soluço rouco escapa chamando atenção de curiosos e de senhoras piedosas, mas os espectadores nada fazem, apenas olham e se voltam para frente.
Nem em meus sonhos sua imagem deixa de me perturbar, seu sorriso assombra minha sanidade, sua doçura, seu riso... As unhas se cravam na pele para tentar desviar a dor do peito... Seu gosto continua em minha boca, as marcas de suas mãos em minha pele, como se uma brasa as tivesse marcado eternamente... E, apenas a esperança da próxima vez que possa pousar meus olhos nos seus se movimenta dentro de mim, quase cria vida...
Eu realmente odeio rodoviárias...
Dedicatórias à parte, esse foi o texto mais real que escrevi...
E você sabe que ele é... pra você...
Eu vim pra trazer má sorte
Eu vim para humilhar
Não sou ovelha negra
Sou gato preto
Os olhos brilham na noite e incomodam, como os faróis dos carros que passam, ignorando as vidas interrompidas ali ao lado. A lua, de tão brilhante, atravessa as nuvens de chuva que derretem em gotas pesadas sobre a capa e o chapéu pretos, os quais ocultam minha conduta putrefata. No bolso...? No bolso uma surpresa que deixarei para o final da historia. Nas mãos, a desordem de dedos estralando-se e de unhas compridas. A insanidade se revela no andar reto com o olhar baixo. As lapides ao lado trazem uma certa vergonha misturada a orgulho. Tantas pessoas insubstituíveis ali, sob a terra, por... Oras, calma! Não vamos estragar a surpresa!
Meu andar se apressa. A chuva e o frio me incomodam... Vamos logo com isso... Que noite cretina... Entro em um beco habitado por mães solteiras e mofo. As paredes se descascam e caem, como se o descaso fosse uma paulada atingindo em cheio os tijolos. Meus sapatos ecoam e quase criam vida, tamanho o silencio quebrado por eles. Que ambiente nojento... Quero logo minha lareira e um copo de whisky... Entro pela porta semi-aberta. Um senhor forte e careca me repreende, mas logo cai no chão... Olho para a figura retorcida e sigo meu caminho. A próxima sala, meu objetivo, mais parecia uma sauna tamanha a fumaça causada pelos charutos. Os quatro indivíduos olham para a porta onde estou parado e depositam o leque de cartas na mesa. “O que raios você esta fazendo aq...” foi o que encontrou tempo de sair da boca do infeliz antes que de eu estourar seus miolos. Os outros três desgraçados se assustaram e colocaram as respectivas mãos nos bolsos, mas já era tarde... Caíram à mesa como estudantes dormindo na sala de aula. O sangue sujava as cartas que nunca mais seriam jogadas... Era para eu sentir pena? Ah desculpe, mas não aprendi essa lição no colégio. Piedade? Não... Mas eu aprendi ironia... Serve? Dane-se... Ponho no bolso novamente a surpresinha, ainda com duas balas. Saio logo daquela cena bizarra. Ao passar pelo cemitério, me lembro da culpa... Mas... Como evitar? Esse brinquedinho é tão divertido de usar... Acabo por mandar mais quatro almas podres para dar trabalho ao coveiro...
E agora, finalmente, meu whisky!
Eu vim pra trazer má sorte
Sou gato preto

E depois da tempestade, vem a bonança... Mas quando a bonança não vem por vontade própria, uma boa conversa até a madrugada com um amigo verdadeiro ajuda bastante. Conversa que nos faz perder a noção do tempo, que faz o sorriso brotar no rosto assim, como um botão de rosa que abre lentamente e mostra toda a sua beleza estonteante. Conversa essa que faz a mente sorver-se em uma tranqüilidade grossa como mel. Que nos direciona a pensamentos bizarramente... Felizes...! E como é bom ouvir elogios... Elogios de alguém que se preocupa com a gente e que sabe como nos sentimos. Elogio de um amigo que enxuga minhas lágrimas mesmo distante, com suas palavras macias...
... E sabe... Fui dormir sorrindo aquela noite... E tive belos sonhos...

Suco de pêra
Começo meus os dias como um ser que depende dos outros para tudo... Passa-se um tempo, e esse ser se torna outro, que quer mudar o mundo, que tem a sensação de onipotência, que acha que vai dominar tudo e todos com sua inteligência e que é mais do que os outros...Anos depois essa personalidade forte se transforma em arrogância. E de líder, passo a empregado... E de empregado que expõe sua opinião, passo a desempregado... A opinião é forte de mais... Tem muita massa de manobra pra por no lugar de gente que fala mais do que deve... Então aprendo que o mundo é... Injusto... Que não posso muda-lo... Que eu e minha opinião forte... Temos que abaixar a cabeça para quem tem mais influencia, para quem tem mais... Carisma... Mas não! A vida não pode ser assim tão sem sentido, tão triste! Eu posso fazer algo pra melhorar essa merda de lugar! E a arrogância brota no peito como a erva daninha que teima em aparecer mesmo quando o sol esta esturricando... Volto a falar, a me expressar... E me sinto bem... Sou inteligente... Sou mais que os outros... Sou culto! Humildade é coisa de fracos! Eu me amo e vou gritar para todo mundo ouvir!
...E termino meus dias sozinho... Ouvindo burburinhos dizendo que sou o velho mais ranzinza e que fui a criatura mais nojenta que já conheceram...

Castelo de areia.

O que é sensual? Uma ninfeta loira com curvas arrebatadoras de cinta liga vermelho biscate ou a garota de óculos e pernas compridas deitada ouvindo musica deixando uma leve nesga de pele macia e viva por entre o camisetão também chamado de pijama?
A mídia maquiou o sensual. A sensualidade de hoje é constrangedora, é vergonhosa, é fútil e nojenta. Uma dona de casa dentro de um lingerie de plástico, parecendo um legume embalado a vácuo se sente sedutora? Ao meu ver, se sente completamente constrangida naquele quarto de motel olhando para a cama redonda e a barriga do seu marido, mais redonda ainda saltando por baixo do lençol vermelho ordinário que já presenciou tantos teatros como esses. Ela na verdade gostaria de estar na sala vendo novela de calcinha e soutien, mas não. Esta naquele quarto falso. Falso... É essa palavra que me vem à mente quando penso no que hoje se chama de sensual... Sensual mesmo é chegar em casa e ver sua namorada de camisetão e meias, deitada de bruços lendo um livro. Não é delicioso? É ouvir seu parceiro tomando banho e logo depois o ver sair do banheiro só de toalha. Isso é sensual, isso é natural, é gostoso, não constrangedor. Agora me deu vontade de ter ao meu lado alguém pra chamar de meu namorado, sem camisa estirado de bruços na cama se queixando do tempo. Eu apenas passaria de leve as unhas em suas costas e depois o abraçaria, sentiria o calor do seu corpo enquanto acaricio seus cabelos... Beijos na nuca enquanto as peles se encontram nessa reação absurdamente fantástica, arrepiando os pelos... E nisso surge o silencio... O silencio que diz muito mais do que qualquer palavra... E um sorriso brota no rosto. Como seria bom ter alguém assim ao meu lado...
Isso sim é sexy.

Palitos de fósforo
O que dizer? Dizer que sonhos são como palitos de fósforo. Você dorme e ele acende, a chama é linda, o momento é deliciosamente quente e você quer que ele dure para sempre. Mas não dura. Você acorda, o fósforo apaga e o que resta é apenas a madeira enegrecida, frágil, que se quebra com um simples sopro. Assim são os sonhos e a realidade. No sonho tudo é possível! Desde voar até aquela camisa de seda que o “tempo” não permitiu a compra. O sonho é nosso reino particular. Nele só aparece que nós queremos. O pesadelo é quando a realidade é tão cruel, as preocupações são tantas, que invadem o reino, como uma guerra infiel que nos tira a esperança. Mas logo ela passa, logo o reino se apaga.
A realidade é dolorida... No sonho tudo é lindo, leve, mágico, cósmico... Mas quando a chama acaba, vem um frio que dói nos ossos... Uma frustração, uma dor que arde... A realidade arde... A realidade é frágil. Algo errado que acontece, algo ruim que sucede a quebra...Quem dera pudéssemos viver no nosso reino pela eternidade! Lá não tem dor, pestes, pragas, lá tudo é anil e rosa... Nada arde... Mas quem tenta brincar de ser rei todo o tempo acaba se queimando... Não ignore a realidade. Ela é cruel, não pode ser substituída pelo reino anil e rosa. A chama tem que se apagar... É necessário. E se tentares continuar nessa teimosia infantil a chama queima a pele, e a realidade arde em dobro.
Rasgue as juras de amor que te fiz... Elas já não valem nada. Queime as rosas que plantei; elas já não têm alma. Chore pelo final, mas chore pouco... Ele não merece tanto. Olhe para a lamina e pense no pior, fique com vontade, mas tenha medo. Fite o por do sol e não entenda o que ele te diz. Sorria, mas sorria com o olhar vazio. Sofra por falta de atenção. De chance, mas não a si mesmo. Esqueça-me, mas sonhe comigo...
Essa é a receita para uma vida sem sentido. E não se esqueça de jurar amor eterno com os dedos cruzados nas costas.

Sinta pena...

Cheiro de solidão.