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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 02h02
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 02h01
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Autoquíria autocuidado

No mesmo corpo, uma mão infantil suga o dedo, infantilmente, aterrorizada. A outra, maternalmente, acalenta com um cafuné gelado. Shh vai ficar tudo bem... A mesma mente se divide entre a fala chorosa e entrecortada, úmida e abafada. Eu-nã-o-aguen-to-mais-ahn-ahn engasgando com as lágrimas e muco escorrendo pelo rosto doído. O cuidado esquizofrênico permite à outra mão acariciar o rosto molhado, repetindo as palavras de carinho com a autoridade de quem finge saber o desenrolar da história, para acalmar a criança que tanto pergunta. Stai zitta, Lisetta, vai passar. Calma. Calma. Meia mente, meio corpo. A criança, se acalmando com o tom autoritário e certeiro de sua metade mãe, mal nota que a mesma lhe oferece mais um comprimido. Mais um? Já tomei tantos... Mais, querida, mais... Pra tudo ficar bem o sono precisa vir. Confie em mim, não vão ter mais lágrimas. Na-da-de-lágrimas?! Nadinha, querida. Mais um. Shh vai ficar tudo bem. Um sorriso escapa pela boca da metade criança, pintado de esperança. Pra onde a gente vai, não dói desse jeito? Não, meu bem, nós vamos sonhar. Sonhar um tantão, hihihi, você vai adorar! Que bom que tenho você pra me dizer o caminho. Fiz tudo errado desde o começo... Me desculpa, olha onde trouxe a gente... Mais um? Quanta pílula. É pro nosso bem, pequena. E você fez o que deu conta, não se culpe. Hoje eu só tenho a condição de escolher por nós porque você aguentou até aqui. Vamos descansar agora, que tal?

E o um corpo se deitou, aguardando a chegada do veiculo, o bilhete já comprado. Pras duas. Uma das mãos ainda acariciava o cabelo do um corpo, enquanto a outra segurava firme o pulso desta que acalentava. Aguardaram a tensão dos músculos se desfazer como tinta n’água e foram embora juntas.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 01h55
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h25
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Fortuna

Capitulo 1: Deja vù

A fila não parava de crescer. Enquanto a senhora gorda a minha frente suspirava entre um soluço choroso e outro, eu ansiava por uma xicara de café amargo batizado com conhaque. Em alguns momentos eu anseio em ser mulher. Me parece mais fácil a elas demonstrar empatia ao choro alheio. A mim, restam os tapinhas nas costas e o cuidado em revirar os olhos apenas quando não estão olhando. Eu compreendo. De verdade. Descobrir a inevitável separação e a profecia bígama cumprida por vias tão sórdidas é degradante. Se bem que, levando em conta a grossura dos braços da madame, não é de todo complexo adivinhar que o marido talvez não estivesse tão... Satisfeito. Bem, pessoas traem, é a vida... Só entre a fila que aumentava sob a garoa fina, jaziam mais algumas dúzias de senhoras trocadas por calcinhas menores e gemidos mais jovens. Elas bem podiam fazer um grupo de apoio entre si. Todas tão semelhantes. Acima do peso, frigidas, cheirando a naftalina e alho frito. Quase como estrelas do mar, dividindo-se em braços amputados, criando-se da mesma massa amorfa medíocre. E, cruzes, a senhora já foi, me devaneei tanto que mal percebi a troca da cliente.

            É cômica a quantidade desleal de mulheres na busca pelos meus serviços. Soa estranho, mas é visível, posso contar nos dedos os homens que já entraram na minha tenda a procura de um vislumbre do futuro. Não sei se possuo alguma teoria acerca desta impressão... Ruminando o assunto, sobra algo que me remete a insegurança, ou sobre certa necessidade feminina de saber onde está pisando antes de pisar. Como se, desta forma, houvesse a chance de um plano de fuga antes da coisa desandar. Homens me parecem menos preocupados com os riscos que correm a cada passo. Burrice? Talvez... Falta de atenção, incapacidade de pensar no futuro... E... Mais um devaneio... Me perdi em mim mesmo e a mocinha das mãos ossudas que entrou e se sentou a minha frente está transformando meu panfleto de vidente em um canudo de papel trucidado por suas mãos suadas e tensas. Ainda bem que não preciso prestar atenção no discurso cuspido sobre a mesa com a bola de vidro medíocre que comprei por centavos na feira de sábado. Achei que trazia um ar místico... Me processe. Digamos que o que as pessoas vêm procurar na minha tenda é arremessado em meu rosto mesmo que eu tente evitar.  O futuro a mim não é surpresa nenhuma. Talvez por isso o ache tão super estimado... O que diabos as pessoas veem de tão extraordinário em saber exatamente o que as aguarda em cada esquina?



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h16
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Capitulo 1\2: Órfão pé frio

 

            Gregor previu a morte de seus pais com seis anos de idade. Não pôde evitar, mesmo aos prantos, que entrassem no imenso barco de metal; ninguém acredita em crianças. Ainda mais as estranhas de nascença. Seus cabelos castanhos oleosos caiam sobre os olhos fundos, escuros; sempre magro e ossudo, sempre quieto e com olhar assustado.  Perguntou aos avós se também enxergam aquelas cenas bizarras através das pessoas, porque seu reflexo no espelho não tinha aquelas linhas turvas, como as outras pessoas. Os pobres não suportaram suas idiossincrasias e, órfão, ninguém o quis por perto. Era como o mau agouro, morando sob seu teto. Mortes anunciadas, desastres descritos com precisão, o pobre trazia pavor e ojeriza a qualquer um com quem trocasse duas palavras. Tomando idade e consciência, Gregor por muito tempo sentiu-se culpado. Como o anjo da morte, que entrega a desgraça a quem passa por perto, se isolou no orfanato, negando contato com todos, acreditando que pouparia as pessoas de suas trágicas visões. Como películas de filme, as premonições projetavam-se sobre os donos, seus corpos como tela, e ele nada podia fazer para evitar. Seu dom o privou de todos os prazeres da terra até os dezesseis, quando tomou ciência da capacidade financeira charlatã que a habilidade possuía. Na tevê preta e branca, via todo o tempo cartomantes e videntes de araque defecando previsões baratas aos quatro cantos, ganhando dinheiro pura e simplesmente por aparentar possuir poderes místicos. Ele não pediu os seus, mas já que nasceu amaldiçoado, que ganhasse algo com isso.

Um circo pulguento o aceitou por uma módica quantia de aluguel e, logo, o vidente mirim fez sua magia, atraiu a gregos e troianos que, abismados com sua veracidade, formavam filas a fim de conquistar um vislumbre de suas vidas patéticas. Sua tenda roxa desbotada com estrelas amarelas bordadas atribuía ao local a tão desejada aura de ilegalidade e mistério necessária. Barcelona ganhara seu mais novo príncipe dos guetos encardidos, o mais jovem imperador dos larápios imundos, extorquindo dinheiro de imbecis curiosos. O tédio e o desprezo pelo humano logo contaminaram a pouca vontade de fazer o bem com o dom a ele atribuído, e assim, vinte anos se passaram em sua vida cíclica e banal. Seu colchão se enchia de notas amassadas e catarrentas, mesmo faltando proposito para usa-las. Seus talentos espalhavam-se aos sete ventos, e Gregor odiava sua vida cada dia mais intensamente, contudo, nunca mais do que seu ganha-pão e seus clientes chorões. Tinha a sensação de que o vinil de sua vida arranhara-se, e pulava sempre e eternamente no mesmo trecho, matando-o aos poucos afogado no marasmo. Até a noite que o disco rodaria para o refrão.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h15
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Capitulo 2: A maleta cheira a...

 

            Confesso que só não adormeci porque os seios da moça sacudiam quando soluçava; o movimento era quase hipnótico. É querida, você irá morrer cedo. Todos iremos, levando em conta nossas expectativas, compreenda... E sim, seu príncipe encantado está sacudindo saias alheias as suas. Um pouco mais do mesmo para me mostrar o quão fatigante é meu expediente. Até que uma brisa fria invadiu minha tenda, fazendo meus pelos da nuca eriçar. Com ele, entrou um senhor de cartola, fraque negro, maleta de couro numa mão e bengala na outra. Sentou-se, imponente. Me assombrou a presença masculina tão rara em meus aposentos, entretanto tão mais me assustaram os olhos do visitante. De um verde tóxico, cercados por rugas profundas e frias. Apertei minhas mãos inconscientemente, fazendo fundos sulcos com as unhas nas palmas.

            - Boa noite meu caro. Quente, não acha?

            Não consegui responder de imediato, meus lábios caíram abertos pelo assombro da imagem empoleirada em minha frente. Sua boca era vermelha, como se acabasse de morder suculentos morangos maduros. As sobrancelhas negras faziam sombra aos olhos, que brilhavam mesmo assim em seu verde pétreo. Seria atraente, se não fosse aterrorizante.

            - Perdão senhor, me devaneei... Com quem falo?

            - Me chamam de Corelli, sou advogado de causas perdidas. Soube de suas habilidades por um cliente que me devia favores e me interessei muito. Sabe, sou fascinado por pessoas poderosas.

            Sua mala exalava um odor forte, característico... Eu não sabia dizer o que era, só que arrepiava os pelos dos meus braços. Queria que ele saísse logo dali.

            - Compreendo... O que posso fazer pelo senhor, S. Corelli?

            - Vim oferecer-lhe uma proposta. Irrecusável, em minha opinião, mas há quem não concorde hahaha!

            - Continue...

            - Quero imensamente que você me conte o meu futuro. O que enxerga nas linhas do tempo que planam sobre mim, o que me aguarda no desconhecido.

            - Sem problemas, esse é o meu trabalho... O senhor ir...

            - Não não não, espere! Você não escutou a melhor parte! Se o que eu ouvir me apetecer, se eu me satisfizer com o que ouvir na sua previsão, você ganhará um presente inestimável. Algo que pouquíssimos possuem, que muitos pagariam fortunas para ter. O que me diz, jovem?

            - Depende... O que seria este agrado?

            - É uma surpresa. Confie em mim, meu caro!

            Eu senti que não havia saída, por algum motivo. Só me livraria daquele sujeito dando a ele o que quer. E queria me livrar dele logo.

            - Aceito sua oferta... Posso começar?

            - Só um segundo.

            Corelli se alongou, estalou os dedos e fez que sim com a cabeça, mostrando seus dentes brancos e quadrados. O odor havia empesteado a tenda, deixando meus sentidos um pouco adormecidos, mas após uma leve sacudida de cabeça, voltei ao meu estado. Não me exigia muito esforço ver o futuro dos que me buscavam, mas por algum motivo, tudo em Corelli era turvo e nebuloso. Com um pouco mais de concentração, atravessei a névoa que segurava a visão e me aproximei aos poucos, mentalmente. Porém, assim que obtive nitidez, senti um fio de aço gélido atravessando minha mente como uma flecha, espalhando um frio insuportável por meus membros. Era como se algo ligasse meus sentidos àquele corpo por magnetismo.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h14
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            Eu vi corpos. Muitos. Os gritos eram ensurdecedores, davam nós no estomago. Tudo naquilo era maldade, medo, descrença. Era como se Guernica fosse um parque de diversões infantil. Via mulheres agarrando seus filhos junto ao corpo entre soluços desesperados. Soldados mutilados se arrastando, crianças famintas... Entre tudo isso, andava Corelli, apoiando sua bengala em crânios, vez ou outra. Sorrindo, admirando o ambiente como quem analisa um imóvel para comprar. O frio era torturante, atravessava os ossos e largava ali a dor. Era como se a felicidade tivesse sido exterminada da humanidade. Um retrato de toda a desgraça.

            Contive uma ânsia de vômito quando senti meu corpo voltar a pesar sobre a poltrona. Tremia como um vagão de trem descarrilhado, os nós de meus dedos jaziam brancos como gelo.

            - Gregor, está pálido feito um pergaminho. O que viu? Diga-me.

            Não me lembro de ter dito meu nome, mas não consigo me preocupar com isso agora. Precisava tomar uma decisão a qual não conseguia mensurar o peso.

            - Eu vi...

            - Sim...?

            Deus me ajude...

            - Vi uma cabana... Uma cabana na floresta... Rodeada por crianças risonhas e borboletas... O cheiro de bolo assado vem da cozinha, onde uma moça belíssima sorri pela janela... Você é a fonte de tudo naquele lugar, você é o centro. O centro de... Da alegria que dali exala... Seu futuro é... Brilhante. Ensolarado, S. Corelli...

            O silencio sentou-se conosco na mesa redonda, olhando de um rosto para o outro como numa partida de tênis. As gotas de suor apostavam corrida no meu rosto.

            - Não era bem o que eu esperava. Acho que você me confundiu com alguém hahaha! Gostei, gostei muito, Gregor, fico jubiloso com sua visão! Sou mesmo um homem abençoado!

            - Fico contente, S. Corelli...

            - Lhe contarei um segredinho, jovem Gregor. Eu também tenho alguns poderes, sabia? Algumas habilidades inatas, assim como você.

            - E quais são elas...?

            - Ah, isto é muito pessoal, não é meu caro? Fique tranquilo, criança, logo você tomara ciência de seu pagamento. Ele será diretamente proporcional à fidedignidade de seu relato. Será um mimo vigoroso!

            Engoli concreto junto à saliva.

            - Entendo... Bem...

            - Ah, claro, você possui trabalho a fazer. Partirei a fim de deixa-lo continuar sua ocupação, a fila está longa lá fora. Fico muito grato pelo tempo que dividimos, meu caro. Até a próxima, Gregor.

            E deixou a tenda da mesma forma que entrou, puxando junto sua aura obscura.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h14
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Capitulo 3: Vidro maldito

 

Gregor acordou no dia seguinte sobressaltado pelos sonhos macabros. Tivera uma noite tensa, povoada pelos olhos de Corelli que o perseguiam. Aliviado, pretendia dar-se um dia de folga, mediante o serviço tão medonho da noite anterior, afinal, ser seu próprio chefe possui algumas vantagens. Pensando no cardápio apetitoso que optaria por almoço e lambendo os beiços, dirigiu-se ao banheiro para se refrescar. Seu grito bestial fez com que as rolinhas no beiral da janela alçassem voo, ofendidas.

            Seu reflexo era tão coberto por linhas e cenas turvas que mal conseguia enxergar os próprios olhos. Cenas variadas desconhecidas dançavam mudas sobre seu nariz, mostrando um Gregor barbudo, mais magro do que era possível e embriagado até os ossos. Depois, transformava-se em um mendigo imundo, falando sozinho com os próprios pensamentos, espantando moscas que só ele via. Trôpego, era estraçalhado por um bonde veloz e ignorante. O jovem apoiou as mãos gélidas na pia, olhando mais de perto as cenas estarrecedoras. Gregor nunca havia sido apresentado ao próprio futuro, e as saudações não foram muito acalentadoras. Desde muito cedo, notou que era ciente do futuro de todos, menos do próprio, e isso o consolava inconscientemente; o proporcionava o advento da insipiência e da ilusão de controle ao acaso. Contudo, seu presente chegara enfiando o pé na porta, fazendo o equilíbrio sumir de suas pernas. Apavorado, saiu em disparada até a rua, caçando transeuntes, apenas para largar ao vento mais um urro desolado. Corelli era fiel nas palavras e a piada ia mais fundo do que o esperado, afinal, qual seria a graça em manter as coisas equilibradas? Se ganha-se em um lado, o outro deveria perder, e aparentemente o futuro de seus clientes foi equivalente na troca em ter o seu. Tremendo, retornou a sua sala, arrancando os cabelos com as mãos em surto. Perdera todo o seu referencial de vida em menos de trinta minutos, e mal sabia a profundidade do poço fundo onde se encontrava.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h13
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Capitulo 4,5: Calem-se!

Pensei que quebrando todos os espelhos eu estaria livre... Estraçalhei cada pedaço de vidro ao meu redor, entretanto, as vozes me contam... Sussurram. Eu não aguento mais. Eu gargalho da minha própria desgraça, e ela se transfigura bem na frente do meu nariz. Quando meu futuro me mostra a corda, eu sacudo a cabeça em prantos, refutando a morte que eu mesmo me traria. Ela logo se desfigura em um eu idoso, decrepito e trancado em casa a sete chaves. Nada diferente do que é minha vida hoje, com jornais velhos e amarelos pregados às janelas, me impedindo de enxergar qualquer reflexo possível. Até nas lentes dos óculos de passantes um vislumbre escapava para rir da minha cara. Por um tempo funcionou e pude até ensaiar algumas movimentações diferentes da rotina diária de pão e leite, entregues na porta pelo garoto sardento da padaria e da posição fetal no quarto escuro. Contudo... As visões metamorfosearam-se em murmúrios, e meu inferno recomeçou na minha própria voz.

“Você vai comprar a arma amanhã”, eu me contava, e logo depois, anulava esse pensamento batendo mais um prego na porta. “Você vai morrer sozinho”, eu me balbuciava, mas essa ideia já não me atormentava tanto depois de tantas vezes repetida, como numa oração. Era um rosário diário que variava entre a morte, a solidão e a loucura, e a ultima já alcançava meus calcanhares. Eu tentava manter minha sanidade escrevendo versos soltos, vomitando minha angustia em poemas tortos, mas as noites eram longas demais, e dormir em meio ao som ininterrupto não era fácil sem alguns goles ardentes de qualquer coisa. Logo, meu eu moribundo e bêbado voltava a me mostrar suas certezas, e me forçava a interromper o torpor; é um jogo de gato e rato rumo à insanidade.

Minhas economias já estão no fim e eu não sei mais o que fazer para suportar. Corelli tem razão, afinal. Pessoas pagariam para um vislumbre do próprio futuro, afinal, me pagavam muito bem para esse deleite. Mas mal sabem os infelizes o tormento de saber a todo o momento o que lhes aguarda e ter a capacidade de mudar tais fatos a partir de sua ciência. É atordoante a certeza sem certeza alguma e tudo que ela lhe proporciona é o congelamento. Não sei quanto tempo irei durar.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h11
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Capitulo 4: Abandono

            A espiral de desolação foi rápida e destrutiva. O jovem vidente ainda se esforçou para manter suas funções, mas após erros e mais erros, sua reputação se desmontou feito castelo de cartas e seus clientes, antes fartos, foram tornando-se escassos. Gregor tentara inventar premonições, porem, mais se notava seus tiques e solilóquios esquizofrênicos que suas previsões fraudulentas.  Transformou-se uma atração de circo bizarra e motivo de risos e chacotas, onde crianças apontavam e gargalhavam, quando não atiravam pedras. A caça as bruxas tornou-se aos poucos insuportável, e o jovem exausto se rendeu ao que suas visões tanto lhe mostraram: Isolou-se totalmente em sua casa, desertando de sua tão famosa tenda purpura. A bola de vidro logo fora arremessada na parede, pois era mais um reflexo possível para seu tormento. As saídas às ruas eram cada vez mais complexas e enlouquecedoras, as vozes populares e ameaçadoras se associavam maquiavelicamente aos reflexos perdidos em vitrines e retrovisores, transformando a realidade em trem dos horrores. Gregor resignou-se vagarosamente do contato social, organizando alternativas de fuga para poupar-se do calvário e, logo, definiu sua zona suportável de existência trancando-se em casa. Cada superfície apta a servir como maldito espelho era eliminada colericamente. Sua cama era seu refugio e um ninho de jornal formou-se lentamente ao redor. Gregor se entregou ao destino e apenas separava forças para não perder a batalha e manter-se respirando, ainda restava orgulho enterrado no fundo do desalento úmido de seu peito. Apenas não sabia quanto tempo essas reservas durariam, e tinha pavor até em cogitar tais dados, pois logo eram lançadas predições plausíveis e terríveis. A beira da morte – não tão a beira da morte. Bem me quer – mal me quer. Bem me quer – Mal me quer.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h10
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Capitulo 5: Pólvora

 

            Já não saio de cada tem cinco anos. Cinco anos que me pareceram uma vida inteira, meu holocausto particular. Devo estar irreconhecível, não me vejo nem nas costas duma colher; meus olhos se treinaram sozinhos para evitar qualquer coisa peluda que se movimente. As vozes já são tão costumeiras que em alguns momentos até me engano e aparento ter paz. Prender a respiração ajuda. Bem, para sempre deverá ser um alivio tremendo.

            O sol queimou meus olhos como ácido, cruzes. Minhas mãos se feriram ao arrancar os pregos da porta, não manejava nada além de pão havia anos, estava com a cútis fina feito papel de arroz. Tive sorte no caminho, topei com poucas pessoas. Ou as cretinas atravessaram a rua em pânico com a minha visão pavorosa. Aproveitei para me observar refletido em uma vitrine de calçolas imensas, que minhas antigas clientes gordas deveriam usar. Um desconhecido cadavérico e barbudo me olhou de volta, sorria seus poucos dentes amarelos e acenava com uma das mãos, a outra, encostava o cano da pistola na têmpora. Calma, para tudo há seu tempo...

            Comprei a arma rapidamente. Acredito que com algum desconto, possivelmente o vendedor queria me ver de costas o mais rápido que desse. Me permiti o primeiro sorriso em alguns anos, me sentia como uma criança voltando da escola no ultimo dia de aulas, em direção as suas tão desejadas férias. Você venceu Corelli. Maldito. Você conseguiu, seu presente foi de muita utilidade e de extrema potencia. Agora já chega, irei te decepcionar e por fim no seu showzinho barato.

            Me sentei na sala quente fedendo a madeira velha e mofo. Os jornais nas janelas proporcionavam um belo e envelhecido por do sol, que coloria as paredes de amarelo. Tive o cuidado de retirar as garrafas vazias de leite do caminho, queria uma queda limpa, eu ainda tinha algum carinho sobrando em mim. Talvez me encontrariam depois de algumas semanas devido ao cheiro nefasto, tem coisas que pouca gente suporta, quando fedem menos ainda. Gargalhei, insano, ansioso, sentindo o gosto metálico do cano frio na minha boca. Que beijo... Puxo o gatilho e caio deit

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h09
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Capitulo ?: Ciranda

            Gregor abriu os olhos aos berros com a dor lancinante que atravessou seu crânio. Gritou mais algumas vezes mesclando o ódio ao terror que invadia seu corpo, tateando o imenso rombo largado pela bala em sua nuca. Suas mãos retornaram banhadas no sangue fedido e morno. Esvaziou o tambor no próprio peito aos prantos, urrando como o animal ferido que era, derretendo em lágrimas e sangue. Ouvia ao fundo do zunido surdo deixado pelo estampido, gargalhadas banhadas num prazer sádico, quase contagiante.

O diabo não brinca em serviço.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h06
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 23h26
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Ane(u)lar

Voltei à névoa. Noivei com um desconhecido, errava o dedo da aliança toda vez que tentava coloca-la novamente. A teimosia dos sonhos em errar nos acertos. A aliança era linda, o noivo, um rosto qualquer na multidão. Mas ser desejada era a raiz de tudo, ser escolhida pela vida toda, mesmo que no mundo secundário. Se me permitisse, Deus... Trocar meu mundo primário por este de névoas... Se me permitissem escolher viver onde os outros repousam, viver onde as coisas para mim funcionam como engrenagens bem oleadas... Onde meus sonhos literalmente se realizam uns sobre os outros, com meandros de delírios e deformações... Onde sou bem quista, onde as aventuras têm finais felizes. Onde sou amada. Se não no lexotan, que seja na overdose, que seja num voo breve terminando em uma aterrissagem acalorada com um asfalto ainda quente do sol da tarde, abraçando meu corpo com o carinho da mãe que sente saudades e de põe no colo. Que seja na desistência deste para abraçar o outro. Mas que seja.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 23h25
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 23h11
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Venlafaxina 75mg, ecitalopram 10mg

Não suporto mais nada... As noites são os piores momentos, torturantes, eternas. São três da manhã e tudo o que consigo notar é a poça de lagrimas aumentando na fronha recém-lavada. Porque precisa ser assim? PORQUE EU PRECISO SER ASSIM? A angustia me come o peito e eu soluço como quem tosse, tisica. Doente de tristeza, desejando apenas um descansar pleno e total, azulado e rodeado de flores. A dor é tanta que seca a garganta num rouco lamento... Chega disso... Chega.

Disseram que isso passaria. QUANDO? Cada vez mais irritada, desacato os amigos, desapareço das reuniões sociais, assisto quatro temporadas seguidas de breaking bad... Sono... Sono... Sono... Sonhos, ao menos. Na terra dos sonhos meus desejos se realizam. Viver é a maior maldição que se pode lançar a alguém, pena literalmente perpetua, até que a morte me perdoe...

Sinto tanta falta dele... Tanta falta... Ele me roubou todo o parco motivo de sístole e diástole, só me deixou sobrando a vontade de voar... Onde eu errei? O que faltou? O que sobrou? Fui eu? Tem algo que eu possa fazer...?

Três da manhã. O celular não pisca mostrando a resposta, nunca pisca... A rejeição pinica, me faz saltitar na cama, como peixe foda d’agua, aguardando o mais desejado ultimo suspiro... Seguro os soluços na boca, e se alguém escutar?

Atordoada. Adormecida. Sensações estranhas de uma completude inexistente, como se tirassem com a mão o tumor maligno da falta. Sumiu-me do cérebro, não sabia que era possível sentir algo assim, sentir o não-sentir, a dormência. Será que todos são assim e só eu não era?

Que silencio estranho.

10º
- Açúcar no café, mocinha?

- Por favor, de amarga basta a vida, não é mesmo?

-Hahaha!

12º

 

15º

- Menina, tá sabendo da Vanessa, do 201? Se matou!

- Mentira?! Que isso amiga!

- Se jogou do apartamento na terça de madrugada. Os legistas acharam o corpo dela, dizem as más línguas que a morta tava sorrindo!

- Deus me livre! Engraçado, o seu Euripedes da portaria disse que a farmácia vivia entregando uns remédios pra ela esses dias, ele procurou no google e eram aqueles remédio de maluco, antidepressivo, sabe?

- Sei, ele me contou! Meu menino faz medicina e ele disse que esses negócios ai fazem os malucos que tem vontade de morrer chegar aos finalmente. Parece que a pessoa é tão deprimida que nem força pra dar cabo das coisas tem. Vai ver que foi isso né.

- Capaz, sempre achei ela meio apática mesmo. Ainda bem que não preciso dessas coisas, graças a Deus, só um quartinho de lexotan pra dormir a noite e olhe lá! Gente abençoada é outra coisa.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 23h08
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h16
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Réquiem dos Restos

Eu quero agua, sua morfética.

Era mais fácil acenar com a cabeça positivamente fitando o nada a tentar fazer aquela criança cabeça oca entender o que eu queria realmente. O jaleco branco não ajudava em nada a fortalecer qualquer imagem de inteligência ou saber naquela estudante magrela, apenas me irritava mais. Seu olhar de pânico, gritando “não sei o que estou fazendo aqui” me divertia, mas ao mesmo tempo, incomodava, fazia arder a bile amarga na boca. Boca seca, claro... Dois meses sem por nada para dentro, agua, comida... O ar, quem colocava era aquela maquina barulhenta. Nem da minha respiração posso tomar conta, pombas... Nem das luzes. Enfermeiras cretinas... Pelo menos pra isso a aspirante a psicóloga servia, pedia para desamarrarem meus braços, pedia para apagarem a luz. Pedia coisas que quem deveria pedir sou eu. Estar numa cama de UTI não ajuda muito a manter um padrão solido de qualidade nas coisas ao seu redor. Ninguém faz nada direito, cruzes... Minha língua tem gosto de cimento, meus cabelos caem. Do furo no meu pescoço, nem quero comentar. Cada tossir é uma ameaça a vida, essa porcaria arranha, arranca sangue de onde não deveria sair. Arrancou minha voz. Logo a minha... Lagrima não, por favor, faz aquela criatura aparecer aqui e tentar me arrancar qualquer coisa sobre como estou me sentindo. Como você acha que eu estou me sentindo, imbecil? Estou ótimo! Saltitando feito um pônei num campo florido! Raios. Eu até faria bom uso de conversar sobre o que me aflige, afinal, estou contido num maldito leito que fede álcool 70 e não posso controlar minhas ações, minhas compras. Não sei se estão pagando meus consórcios em dia, não sei se o seguro cobriu os danos do meu carro. Meu carro, caramba... Deve estar uma munha, deformado e... Merda. Lá vem... “Oi, meu nome é Carina, sou da psicologia, bla bla bla, você está num quarto na UTI, hoje é quarta feira, já é agosto” PORRA, eu já sei de tudo isso sua filha da mãe, você me repete a mesma coisa à dois meses. Me fala o resultado do mengão! Ai quem sabe eu tento falar com você? Mas de que adianta, é tão burra que não entende leitura labial, fica com seu olhar blasé feito um as de paus na minha frente. Ela não tolera o silencio. Ninguém tolera. Eu não tolero. Até ser fadado a ele; aprecio agora. Até porque, entre ouvir de todos que devo ficar quietinho pra sarar e o silencio frio e cortante feito uma lamina, fico com a guinzo. Chances existem de ela me falar novamente que minha família não veio me visitar. Como eu disse, é o silencio... No fundo, prefiro pensar que desistiram de mim a pensar que não dão conta de lidar com o resto do meu corpo deitado nesse leito. Dói menos o descaso do que a dor do outro. Silencio me lembra, não sei bem... Algo de um companheirismo. Mais ou menos como quando me sentava na sacada do prédio de madrugada, tinha como plano de fundo apenas um alarme de carro disparado. Ficava contando os minutos pra cada troca de sinal. Como eu tinha tempo... Fazia-me papear com o ar. Com Deus. Comigo. E Deus me contava que eu nunca ia morrer. E eu acreditava. Até sair voando pelo para-brisa do carro. Piadista esse ai, irônico. Colocou-me de frente com a morte só pra me mostrar o gosto do asfalto. “Tá vendo?”. Tô... Mortal. Igualzinho o resto do mundo. Lagrima não, caramba, vai apavorar a magrelinha... Se bem que ela podia sair logo daqui pra que eu possa retomar o papo que estava levando aqui. Estava falando sobre cores, gostos. O gosto do primeiro beijo, de língua e halls de morango. Meu primeiro gole de cerveja, cara, que coisa nojenta. Hoje daria meu mindinho do pé, que ficou lá no asfalto, pra tomar uma gelada. Depois que você o perde, o pé passa a ter um significado todo diferente. Sei lá, ainda não pensei no meu pé, só pensei na perda. Perder coisas é estranho. Estava lá e não está mais. Fica só o resto. O que raios eu vou fazer com todos os pés esquerdos dos meus pares de sapatos? Viu? Fica só o resto. O resto de mim nessa cama. O resto dos meus sapatos em casa. O resto do meu carro no pátio de um desmanche. O resto dos meus dias sem pé. Será que eu vou beijar uma garota de novo sem pé? Eu bem que podia beijar a magrelinha, pelo menos mudaria essa cara de paisagem pra mim. Olha com pena... Queria arrancar esse olhar do seu rosto com as unhas, sua cretina. Como me arrancaram a camisa no pronto socorro, como arrancaram meu pé na cirurgia, como arrancaram minha voz com esse tubo estupido na minha traqueia. Foi embora. Desistiu, é? Eu sei, é necessário força pra dar conta do silencio garotinha, você ainda precisa de muito leite com pera pra suportar. Agora que ela já foi, posso retomar meu papo com minha nova parceira por esses dois meses. Bonita, tem um léxico dos mais requintados, só é teimosa, feito uma mula de carga. Tentei convence-la a ficar por aqui mais uns dias. Anos quem sabe, eu faria bom uso de uns anos. Mas ela precisa ir e veio só pra me buscar. Nada mais doce e amargo do que saber que acaba. Num sopro, como a vela de um bolo. Capaz que sai no jornal. “Jovem de 26 anos morre em consequência de acidente na BR040”. Mimimi, todo mundo morre. E pronto. Morre. Igual o Tonico. Vira lata sem vergonha, só comia comida de gente, fedia feito a moléstia. Quando se é uma criança antissocial e tímida, um cachorro resolve todos os seus problemas. Meu melhor amigo. Mais inteligente que metade da turma de quinta série. Ele curtia rasgar os sacos de lixo dos vizinhos, eles enlouqueciam com o furdunço que aquele cachorro burro fazia. Eu gargalhava até engasgar, bagunçava aquela palha de aço que deveria ser pelo, um pelo ruivo que, não importa quantos banhos tomasse, continuava encardido. O Tonico era totalmente independente, saia na hora que bem entendia pelo vão do portão e voltava assim que conseguisse a façanha de rasgar todos os sacos pretos, que tivesse feito sua boquinha e que tivesse traçado alguma cadelinha por ai. Voltava. Até que um dia não voltou. Aquele veado, nunca me senti tão traído na vida. O amaldiçoei até sua quinta geração, chorei até secar. Mas nada comparado ao dia seguinte, quando meu pai o encontrou envenenado em um terreno qualquer. Nesse dia xinguei Deus. Não é justo... Ele nos dá e nos tira as coisas, como peças num tabuleiro de xadrez. Insolente, uma criança com uma lupa nas mãos, queimando formigas. Termina o serviço com algumas. Deixa outras com as antenas chamuscadas. Por prazer, tédio, sei lá o que. As que sobram tem que se virar com os pedaços que ficam faltando. Continuam suas vidas mancando, se arrastando, fazendo o que dá com o que resta. Somos só o resto do que perdemos. E nos significamos por aquilo que ganhamos. Por aquilo que compramos com nosso tempo. Cristo... Para onde tudo isso vai, afinal? Nas mãos de quem?

Desculpe o silencio... Me faltou voz agora, literalmente e figuradamente. Sabe, pensando melhor agora, perdoo Deus. Acho que, no fundo, ele é mais solitário que a gente, olhando tudo lá de cima. Quis meu amigo emprestado, mas, desengonçado que só, não soube devolver. Uma criança mimada, apenas. Larga esse lenço, deixa o sal secar nas bochechas, é o mais perto de agua que eu vou chegar por um bom tempo. Não é tosse dessa vez, calma, deixa eu soluçar... Caramba, que mão gelada essa sua. Eu já falei demais, começa você agora um assunto. Se me arrependo? Me arrependo de não ter me dado conta mais cedo. Se Deus não tivesse me enganado, se eu conhecesse você antes, mas só de vista, talvez tudo fosse diferente. Teria menos fome. Menos sede. Porque só o que eu sinto agora é fome. É sede. E dói. Não poder dói. Querer dói. As escaras doem. Por sinal, onde está aquela sem vergonha daquela enfermeira gorda que vira meu corpo pro lad

Morreu sem terminar a frase. Morreu sem terminar muita coisa.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h10
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h16
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“O pequeno é R$7”

Os pingos gordos despencavam do céu afundando a roupa e deixando seus rastros. A mochila marcava os ombros, o andar torto na tentativa de abrir aquela velharia de camelô desgastava e irritava. Ao finalmente conseguir abrir o guarda-chuva, o fanfarrãozinho soltou três pontas, cobrindo coisa alguma e dobrando-se sobre si mesmo. As gotas de chuva driblavam a armação torta e estúpida, encharcando as laterais do corpo. Uma mecha de cabelo molhada grudou no rosto, no auge da irritação e da pressa. O guarda-chuva zombava da cara da garota, as mãos escorregando em tentar manter o show de malabarismo. Na rua ninguém a notava. Apenas ela mesma, que se sentia uma palhaça naquela fuga tosca. Fuga de que, afinal? Era de açúcar e mel por acaso, tinha medo da água do céu? Tinha medo das coisas pequenas? De existir? Se sentir?

Naquele momento sentiu-se ridícula. Sentiu-se só mais uma em meio à multidão, fugindo da vida, fugindo da própria pele. Tirou os fones de ouvido. Lançou a armação patética na calçada, que não possuía mais nenhuma utilidade, talvez a de para raio, sabe-se lá. Andou no mesmo ritmo em que se permitia andar antes. Manso. Os pingos gordos agradeciam pela liberdade encharcando os restos ainda secos da roupa. A água fria escorria pelas têmporas e paravam no sorriso, seguindo a curva. Agora era notada. Por todos aqueles que se agachavam ainda na fuga tosca, correndo em baixo de suas capas protetoras e cúpulas pretas, iglus de nylon. Foi notada até por Deus. “Maluca...” Maluca mesmo... Doidinha na roupa molhada. Só não tendo todas as ideias certas na cabeça pra se permitir tocar, se permitir existir dessa forma tão crua nesses dias foscos. Se permitir arrepiar nas gotas frias da água do céu. Gargalhou. Gostosamente. Foi lembrar só depois que tinha aula, todos os colegas de sala tentaram entender porque pombas alguém sairia sem guarda-chuva de casa num dia de tempestade. Continuariam sem entender até que permitissem que a água os tocasse. Que o mundo os tocasse. Sem medo. Com medo também. Só sendo. 

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h15
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 16h02
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C5, 17h00min e luvas de oncinha

 

Escorada no parapeito da sacada, aguardava o momento certo. Não sabia em certo para que, mas aguardava. O vento fazia a roupa dançar sobre o corpo, rodopiando entre as formas já tão reconhecidas, mas tão novas. A chuva tamborilava nos braços, arrepiando os pelos. Desejou mentalmente que ela aumentasse. Aumentou. Sorriu. Talvez já estivesse na hora. Dirigiu-se ao quarto miúdo, divertindo-se com a chuva engrossando a seu pedido. Abriu o armário e buscou seus trajes já separados previamente para a ocasião. Fazia muito tempo que não usava preto, ainda mais no traje todo. Vestiu-se lentamente, ainda não se dando conta do propósito. Retornara da sessão a pouco, ainda confusa com o que ouvira lá. Absorvia o conteúdo aos poucos, como quem toma chá muito quente, com medo de se queimar. E queimava, mesmo aos poucos. Conseguia emudecer as conclusões por algum tempo, mas logo as mesmas berravam como crianças em um playground. Baixou os ombros, soltando o ar pelo nariz, desistindo. As lagrimas disseram um olá tímido pelo canto dos olhos, mas ainda não estavam prontas e retornaram para terminar de se aprontar. A ocasião era muito especial e demandava preparo. Passou a mão pelos cabelos longos, tirando-os do rosto. Respirou fundo e tomou coragem para se dirigir ao caixão. Aproximou-se, apertou as bordas antes de observar o que jazia no seu interior maciço. Com um soslaio, deu o primeiro relance ao rosto ali deitado, sereno. Os lábios tremeram, mas ainda não estavam prontas às lagrimas, criaturinhas detalhistas. As palavras da terapeuta ecoaram em sua cabeça. Por todo o caminho de volta da sessão, preparou-se para o velório, mas a imagem solida trouxe um quê de realidade que ainda era virtual em sua mente. Tapou a boca com uma das mãos. Teimosas! Ok, ainda não estavam prontas, deu-lhes mais alguns minutos para a entrada triunfal. Pousou a mão na testa da criança ali deitada, ainda sem observa-la por completo, olhando através do corpo. Demorou a enxergar o que ali estava morto. As madeixas roxas, curtas e despenteadas. Olheiras profundas, unhas descascadas com restos de esmalte preto, infantilmente passado. Uma coleira. Jesus, quem usa uma coleira roxa com espinhos? Pare... Não se deve ofender os mortos, perdoe-a por toda essa vergonha e falta de senso. Ela não tinha idade para saber o que a cabia. Apenas uma criança... Tão maltratada... Sofrida, dolorida, escoriada. Medrosa, bizarra, rejeitada, vitima de si mesma. Não viveu, afinal. Arrastou-se até onde deu conta. Quando não deu mais, aceitou a mão amiga de algumas pessoas. Mas agora já era hora de partir. Seu tempo na terra realmente havia se esgotado.

- Tem certeza de que já é minha hora?
O susto foi tamanho que o coração quase parou. Sua alma cambaleou dentro do corpo rígido. O cadáver da menina dos cabelos roxos abrira os olhos e lhe falava. Finalmente prestou atenção à solidez ali deitada.

- Por que você acordou? Quem te chamou?

- Ouvi você rindo um dia desses... Sério mesmo? Regatinhas e short jeans? Óculos escuros? Batom? Luvas de oncinha? Você não tem vergonha? Não quer honrar todo o trabalho que tive?

- Seu trabalho já foi feito... Feche os olhos, já está na hora. Eu cuido do resto.

- Você realmente conseguiu me contrariar e irritar... Transformou-se em tudo aquilo que eu mais desprezava. Em cada detalhe... Ficou feliz, boba alegre. Colorida...

- Me transformei naquilo que você sempre sonhou ser, mas tinha orgulho e vergonha de assumir...

- Beleza não cabe na inteligência, no conteúdo. Você sabe disso.

- Estou disposta a provar o contrário pra gente. Confia em mim... Sou mais velha e mais vivida que você. Ontem você me guiava, me deixa ter minha vez. Eu cuido do resto. 

Será? Daria conta de cuidar do resto de sua vida sozinha? Sem a companhia da pequena gótica? Se precisasse voltar por algum motivo, voltaria para onde? Entendeu o tamanho do fenômeno que ali acontecia, secou no medo. Suspendam a entrada das lágrimas, ainda não. É como sempre dizem... Ao atravessar uma ponte, por mais segura que seja o temor existirá sempre. E sempre se olhará para trás para ver se há possibilidades de voltar. E para baixo, pra ver se é possível sobreviver à queda... A ponte já havia sido cruzada. Aos trancos e barrancos, mas já havia. Só não era percebido ainda. Olhou para a menina das madeixas roxas novamente, mas seu espasmo de vida e saudade de existir já havia acabado. Voltou a morrer. Alcançou a tampa do caixão e, com força de três, depositou-a sobre a caixa sólida. Pela janela de vidro, ainda enxergava seu conteúdo lá dentro. Via claramente a almofada vermelha no fundo do caixão. Vazio. Seu real conteúdo estava refletido no vidro. Seu passado. Abraçou a si mesma, agarrando com as unhas no ultimo adeus. Soluçou. Podem vir meninas, venham quentes, é o momento. Chorou abraçada ao nada e ao tudo. Tudo que havia construído em 22 anos de arrastar. Conseguira finalmente se por de pé e dava seus primeiros passos, como um bebê. Viver não é muito fácil, estava indo aos poucos, sem sede ao pote. Soltou a garotinha gótica e a observou ir embora, escorregando como areia pelos dedos. Ainda estava chateada, a mocinha, era orgulhosa. Mas sabia que era o melhor a fazer. Abrira mão do passado para dar vazão a um futuro diferente daquele previsto, daquele e potencia. Diferente do futuro daquela garota das madeixas roxas. Alguns sentiriam falta dela. Mas nem ela mesma sentia falta de si. Dali para frente, o caminho de volta seria para aquele corpo presente, para aquelas formas e aquela estrutura, tão batalhada. Nunca acreditou que seria possível. Mas fez. Velou e enterrou a si mesma, abrindo novas portas para novos caminhos. E numa coisa, até a garota das madeixas roxas tinha que concordar. Ela não ficava bem de preto. De jeito nenhum. Nem de coleira. Cruzes.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 16h02
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 12h15
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Uísque e Blush

Sonhei que abandonei um homem no altar. Mas não foi por querer... Precisava apenas de alguns minutos para me maquiar, quem raios vai se casar sem se maquiar? O que eu tinha na cabeça para entrar na igreja naquele estado deplorável? Foram apenas dez minutos. Mas foi o suficiente para pensarem que eu o abandonei. Quando retornei à igreja, só encontrei bancos vazios. Ainda quentes. Sabia que estavam pensando, me corroeu. Ouvia os risos, os deboches. Já haviam até o apelidado pelas costas. Sai pelas ruas, vestida de noiva, correndo em direção ao lugar onde sabia que o encontraria. Estraçalhado. Cheguei a um hotel caindo aos pedaços, enxerguei sua silhueta pela janela pateticamente iluminada, como que por uma vela na brisa. Tudo o que via era um corpo transtornado, arrancando os cabelos com as unhas rejeitadas. Meu coração doeu. Não é isso que você está pensando... Eu só queria te merecer. Eu estou aqui... Não te abandonei, só queria ser mais... No momento em que invadi o hotel e comecei a escalada pelas escadas rangendo, acordei num súbito. Desesperada, tentando alcançar os degraus já dissolvidos na névoa do sonho morto. A imagem daquela alma em pânico, abandonada em seu movimento de ir e vir desesperado não me deixa a cabeça. Daria muito dinheiro para descobrir o decorrer deste sonho. Consegui eu, me desculpar? Pedir perdão? Convencê-lo de que não passou de um mal entendido, de cobranças exageradas? Daria tudo para poder voltar ao mar de névoa dos sonhos, voltar para aquele hotel medíocre, fedendo a uísque e verniz. Subir as escadas e abraça-lo, tirá-lo do desespero, desfazer sua dor como se desfaz um nó. Ele continua sofrendo naquele quarto de hotel, dentro do mundo dos sonhos. E eu nada posso fazer neste mundo cru e frio para consertar a alma quebrada e abandonada. Queria, afinal, ver o rosto do meu noivo. Nem o conheço, mas sei que o amo perdidamente... Separados por um mundo...

Alguém sabe o preço de uma caixa de Rivotril? 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 12h09
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h37
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Querido diário,

Hoje fui até a manicure fazer as unhas do pé quando olhei pela janela de vidro blindex imensa que dava para a rua e vi uma mulher esfarrapada com duas criancinhas, uma em cada mão, berrando descabeladas. Olhei com bastante atenção seus olhos fundos, perdidos numa desesperança oca... Enquanto a mocinha jovial me contava as novidades da novela que ignorava completamente, me tomava à alma o gosto do desgosto daqueles três seres. Gosto de terra... Gosto de lagrimas... Fiquei pensando, ao ver aquela cena o quanto EU contribui para que aquelas três almas estivesse na rua, sem lenço nem documento. O que EU teria feito para contribuir com tal mediocridade ardida. Não podia crer que o ser humano se conformava com tal visão. Com tal gosto. Se é que sentiam o gosto... Penso que, na verdade, eles se incomodavam sim. Incomodavam-se com a mãozinha pequena, suja que puxava suas calças, na esperança de ser notada. Incomodavam-se com a verdade puxando delicadamente o tecido caro, com um quadradinho contendo um nome o qual não entendiam. Preferiam que aquela verdade fosse afogada em meio ao colorido mar de marcas, naquele liquido grudento e doce, que puxava o rosto num sorriso forçado. Que delicia comprar meu deus! Aquele quadradinho vale um mês inteiro de trabalho! Ou melhor! Vale uma VIDA de trabalho daquela verdadezinha ali, puxando a sua calça. Ela esta puxando... Você não vai olhar? Jura que vai continuar andando sobre seus saltos caros? Eles te fazem tão melhor assim? Explica-me; por quê? Porque esse nome na sua calça jeans te faz tão alto? Porque ergue teu queixo quando usa essa camiseta com qualquer coisa estampada? Porque não coloca na estampa de tal camiseta uma foto dos três esquecidos?  É a marca que te faz tão feliz, a ponto de por fora de seu corpo tal responsabilidade? Pode ser... Realmente, delicioso é usar seu corpo como um outdoor, jogando na cara de tais pobres coitados que dinheiro para comprar um pano com nome você tem! Agora para tirá-los de lá você infelizmente “fica devendo hoje senhor. Vá com deus”... E é assim que reflito querido diário... Vale a pena? E vale a pena dizer isso em suas folhas se me olho no espelho e me vejo usando uma jaqueta com três listrinhas que, com seu preço pagaria setenta refeições a esses três? Posso dizer tudo isso estando EU, ao ver tal cena, com os pés mergulhados em água cheirosa fazendo minhas unhas? Posso EU fazer alguma coisa meu deus? E volto naquele dilema lá em cima: o que EU teria feito para contribuir com tal situação? O que eu faço? Eu VIVO... Eu COMPRO... Eu EXISTO no sistema. Sistema que exclui quem não COMPRA. Sistema que exclui quem não VIVE, pois hoje meu querido, comprar é viver! E novamente, exclui quem não EXISTE. Aquela mãozinha puxando sua calça de marca não existe meu caro. É fruto da sua imaginação. Na tevê não tem mãozinha. A mãozinha não usa Carmim. A mãozinha não compra no Carrefour. Então ela nem está ai, ela nem existe. E sabe o que eu fiz, querido diário? Eu fiz aquela mãozinha existir. Levantei-me, descalça e com os pés encharcados, sai como um furacão pela porta de vidro blindex. Atravessei a rua. Peguei aquele ser no colo, puxei o outro pela mão e pedi a mãe que me seguisse. Puis a pequenina do meu colo na cadeira em que me encontrava e depositei seus pés, pequenos, mas tão vividos na bacia prateada com água cheirosa. Na outra pequena alma, vesti minha jaqueta de três listras. E na mãe, enlacei os braços num soluço úmido. Pedi perdão. Amaldiçoei o sistema podre. E ali fiquei, observando as três existirem. Observei pela primeira vez os olhos, antes sorridentes das propagandas ambulantes, fundos, perdidos numa desesperança oca. Elas sentiram... Sentiram o gosto. Pode não ter sido muito querido diário. Mas parou de arder. E agora olho meus pés, descalços no chão e sorrio. Agora, creio que existo de fato. Dia longo esse querido diário. As marcas, os nomes são inevitáveis. Mas deles pode ser feito algo útil. Desejo do fundo da alma que outros esquecidos existam de agora em diante. E se não permitirem, eu permito por eles. Bem, tentarei... Já que não permitem mais a minha entrada no salão. Uma pena... Mas afinal, quem precisa de tinta vermelha nas unhas dos pés?



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h36
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h34
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Ipê branco

            As flores brancas caiam na calçada, vindas de lugar nenhum. Passos destoantes desviavam das rachaduras no chão, a sensação fria de sair do ruim e se dirigir ao pior. Se pudesse parar ali e esperar o tempo passar, ela faria. Mas a responsabilidade dos homens não permitia que nenhuma das vontades se realizasse. Mas, pensando melhor, não havia vontade. Não havia sequer vontade de ter vontade. A única sensação que movia o corpo era o vazio, o precisar de algo que nem ela conseguiria nomear. Só possuía a certeza de que precisava.

Queria sentir...

Queria sentir algo por alguém...

Queria alguém para sentir algo por ela...

Apenas sentir...

            Se ela pudesse congelar os relógios ali, de pé, o faria. Os passos retiravam e levavam a garota de lugares os quais não queria estar. Queria apenas alguém que se importasse. Alguém para se importar. Sentia falta do amor. Não de amar alguém, do amor em si, das sensações que o mesmo trazia. Continuava andando, cada passo doía no corpo. Os olhos abertos ardiam vermelhos, mas secos. Não tinha motivos para derramar lágrimas, estes faltavam. Na verdade, havia sim um luto, uma perda... A perda do sentido. O sentido dos passos. O sentido da dor. Não existia motivo para ter motivos... Não existia existir, apenas a respiração oca e úmida que machucava tamanha inutilidade, tamanho desperdício. Os raios de sol se confundem. Cores demais, calor demais. O brilho embeleza ironicamente a cena. O movimento retilíneo uniforme da caminhada até lugar algum tende ao infinito. Os pés quase flutuam tamanha a falta de peso da alma lisa. Os olhos sempre fitando um ponto à frente e abaixo não notam os faróis se aproximarem rapidamente, até tocaram seu corpo. O metal frio do automóvel entra na lateral de seu corpo. O rosto se espalha na rua, o corpo escorre pelo ralo. Gosto de asfalto. Gosto de morte. Logo uma multidão brota ao redor do corpo, assustada, curiosa, atenta à morte afogando-a devagar. Os olhares a tocam. Como dedos. Sentiu... Alguém notou... Alguém se importou... E nas respirações finais, ardidas, sorriu e chorou. Sob os holofotes foi notada, foi sentida. O sangue pintou o sorriso. Se soubesse o prazer da sensação teria a buscado mais cedo, mas o inesperado apenas a deixou mais bela. Foi amada por uma multidão. O tempo parou. Parou ali. Congelou a sensação eternamente. Morreu de olhos abertos. Vermelhos, mas regados por lagrimas desta vez, com o motivo finalmente encontrado. Morreu rodeada por flores brancas que caiam de lugar nenhum.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h31
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h29
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Olhos abertos e mãos gélidas

Na mesinha do pequeno café amadeirado, batia as unhas num ritmo linear, quase irritante. Seu cabelo, preso num coque solido e preto brilhava de forma úmida, o jaleco branco impecavelmente limpo doía nos olhos. As mãos ainda fediam a látex e talco das luvas amareladas, mas o cheiro era quase agradável a ela, lembrava o lar que nunca teve. Observava o café esfriar lentamente. Gostava das coisas frias, achava o toque mais humano. Os pombos a aplaudiam enquanto levantavam vôo rapidamente com o correr de uma criança, seus dedos firmes tocavam a xícara minuciosamente, o suficiente para movê-la em círculos no mesmo lugar. Olhava ao longe a bela estrutura óssea de um jovem que atravessava a rua em um trote rápido, escapando da impaciência sobre rodas. Sua espinha a chamou atenção. Era a mais ereta que já havia visto em anos de trabalho. Devaneou devagar ouvindo um saxofone ao longe, desejou que estivesse perto para poder presentear o ser vivo com uma moeda. Mas seu horário de café já havia se esgotado em alguns segundos, precisava voltar ao lar. Seus parentes a esperavam. Atravessou a rua aproveitando o sinal rubro que não parou coisa alguma, dirigiu-se com destreza pelas calçadas disformes. O café era próximo, chegou no tempo em que desejava, de acordo com seu perfeccionismo. Passou pelo portal do hospital retribuindo apenas em pensamento o aceno simpático do senhor que cuidava da recepção. Desceu as escadas com calma, acariciando o corrimão gelado. Tão agradável... Passou pela porta dupla com grandes quadrados de plástico, depositou a bolsa em um pequeno armário de metal prateado barato ao mesmo tempo em que alcançava as luvas amareladas com a outra mão. Vestiu-as com cuidado. Não queria que seus parentes pensassem descuido de si. Com cuidado, abriu uma das grandes gavetas de metal que se estendeu em uma grande plataforma. Dentro dela estava um grande e maciço parente, com um imenso corte em seu pescoço, causa da morte com toda a certeza. Seu tom já azulado o deixava com a expressão calma, oposta ao que deve ter passado em seus últimos instantes. Pousou a palma da mão em seu peito. Frio. Sentiu-se amada por um misero instante. Sorriu. E com toda a calma buscou seus instrumentos, iniciou a autopsia. Olhava para o interior daquele cadáver imaginando quantos amores ele pode ter vivido. Se possuía filhos. Se havia recebido um beijo na testa da mãe antes de sair de casa. Imaginou seus olhos abertos, fitando um por do sol. Sentiu por um instante as emoções daquele ser, viu seu coração em sua frente, tento a certeza de que ele existira, de que aquilo bateu um dia. Enquanto dissecava seus músculos, imaginava as partidas de futebol que talvez tivesse ganhado. A pele cortada se separava como uma rosa desabrochando, o tom vermelho, delicadamente desbotado dava a imagem tamanho zelo... Após cortar e observar o interior literal daquele homem que um dia vivera, o fechou com linha e agulha. Com carinho, cerziu sua pele, juntou as pétalas umas as outras fazendo único novamente o peito de seu querido parente. Sentia-se no direito de fazer parte daquele ser, de amá-lo por algum instante. E sentia-se amada por aquele corpo frio, que sorria a ela em seus pensamentos, agradecendo aos cuidados, talvez únicos que recebera na vida. Naquele momento, aquele corpo teve alguém para sentir sua falta. Alguém que soubesse seu valor, que apreciasse sua vida esgotada. Aquela massa fria, pesada, pode finalmente descansar, pois sabe do fundo da alma que alguém intercede por ela. E as mãos impermeáveis e firmes do corpo quente terminavam o cuidado. Puxavam o tecido fino aos pés do corpo, cobrindo-o com zelo. E fechavam a gaveta devagar, despedindo-se daquela historia. Ao ouvir o clique da gaveta, fechou os olhos devagar, absorveu o ar com o cheiro tão familiar de formol. Fechou os dedos no puxador da gaveta ao lado, puxando com cuidado. Ao terminar de se abrir, havia na plataforma uma pequena parentinha, cabelos dourados e longos, pele alva, ainda rosada. A boca arroxeada revelava o mortal envenenamento. Olhou-a com carinho de mãe, pousou a palma da mão em seu peito, sentindo o frio tão humano. E iniciou o carinho nela, da mesma forma que fez no anterior. Sem mais nem menos zelo ou cuidado. O mesmo. Eram seus parentes, todos amados na mesma intensidade. Sentiu-se honrada, privilegiada por ser tão amada após uma vida de sofrimento e solidão. Os pais foram acariciados por algum outro doutor no passado, há vários anos. Criada por si mesma entendeu onde encontraria sua família logo no enterro de seus pais, quando pousou a mão na testa de ambos. O frio a confortou de tal forma... Sentiu a vida naqueles cadáveres de forma tão intensa... E decidiu ali o que faria por amor. Sentiria a vida na morte. Cuidaria de seus parentes no momento de maior existência deles. E ali encontraria e retribuiria o amor. Até os últimos dias de sua vida, quando seria cuidada por outro alguém, zelaria por seus queridos com todo seu coração. Depois de terminadas as caricias do dia, retirou as luvas avermelhadas, manchadas com historias. Pescou sua bolsa sobre o móvel gelado, passou pela porta dupla plástica, deixando o IML e subindo as escadas devagar desta vez. Chegou a casa sem perceber, depositou a bolsa no sofá feioso de corino vagabundo, buscou um copo d’água. Ligou a televisão no noticiário mais sensacionalista do horário. Assistiu a mais parentes seus sendo apresentados, sentiu ansiedade pelo amanhecer, quando os encontraria. Escovou os dentes, vestiu qualquer coisa leve, deitou seu corpo na cama, olhando para o teto antes de fechar os olhos e desejar sentir em seu corpo aquele frio, tão vivo. Adormeceu. E sonhou com olhos abertos e mãos gélidas correndo num campo florido. Desejou nunca acordar.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h26
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h24
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Verso, nas curvas.

Eu achava cômico, quase trágico. Era quase um ritual, penso que algo com certa magia para ele, pela sua expressão estúpida no rosto. Chegava do trabalho e logo ia me livrando das pequenas cadeias que eram minhas roupas, cintas de castidade, camisas de força. Trabalhar com terninhos deveria ser proibido por lei, não há coisa mais desestimulante do que ter seus movimentos segurados por gravatas e botões. Assim que me via livre de cada peça de roupa, respirava fundo e sentia o ar nos meus pulmões pela primeira vez no dia, gelado, como um gole de vivacidade. Sensação única de completude. Retirar os saltos altos e pousar os pés no chão morno se assemelhava a um orgasmo, esticar cada nó formado pelos costumes dos homens. De tão preocupados com as normas e moral da sociedade, deram passos pra trás. Neandertais... Mas voltando ao pseudorritual. Meus dedos coçavam pela sensação divina do couro, de passar os dedos por aquelas páginas amareladas e sentir seu cheiro... Livros são os melhores parceiros sexuais que alguém pode ter e isso é um fato. Meu corpo se encaixava no sofá com dengo para iniciar minha leitura liberta. Tudo estaria certo, se não fosse a sensação incomoda de ser tocada pelos olhos enormes daquele garoto. A janela do prédio a frente estava sempre habitada por aquele corpo curvado, cheio de espinhas. Nunca compreendi ao certo tamanha necessidade de observar minhas leituras. Ok. Entendo que estar nua para a execução das mesmas se encaixa em um motivo, mas não há resquícios de sensualidade em um ato tão rotineiro como esse, há? O que vêm aparecendo nestes pornôs de hoje em dia? O garoto estava obsecado pelo meu virar de paginas, ele poluía meu momento de maior paz. No inicio o incomodo era voltado para a invasão de privacidade, mas após tanto tempo de observação, comecei a me sentir cúmplice daquele voyeurismo juvenil. De certa forma, me sentia sensual em ser desejada em um momento tão meu, tão aberto em existência. Ser desejada nas ruas, por serventes de obra é algo de tão supérfluo que já não conta como elogio, é algo como obrigação de certa forma... Mas ali, em um contexto onde nenhuma defesa estava de pé, onde meus muros estão caídos... Deveria ser amor. Aqueles olhos imensos observando cada movimento do meu corpo e as mãos rápidas em sua escrita, como se descontasse no papel seu desejo em me tocar. O que raios estaria escrito naqueles versos?

Um dia, chegando do trabalho, fui cruel com ele. Sei que não deveria, mas não resisti, meus instintos sádicos falaram mais alto e pularam minha educação como ovelhas pulam cercas nos sonhos. Percebi que o deixei completamente sem chão com minha fala rude. Ele parecia tão pequeno com aquela sacola de padaria nas mãos, tão indefeso... Seu movimento no tabuleiro de xadrez mal teve tempo de existir e já o podei como um bispo esmaga um peão. Senti-me tão mal pela conduta ranzinza que resolvi transformar os sonhos deste garoto em realidade de uma forma a qual ele nunca sonhara. Assim articulei meu plano de ataque. Seus dedos finalmente tocariam algo mais do que papel áspero e seus versos percorreriam outras folhas, curvas e quentes. Mal podia esperar por sua tinta percorrendo cada centímetro de seu objeto de desejo: Meu corpo.

O dia do ataque chegara. Preparei-me articulando cada detalhe e aguardando a reação do poeta voyeur, desejando-o, pela primeira vez, como ele me desejava. Atravessei a rua andando devagar com os saltos altos cutucando o asfalto, o casaco longo bailando por entre minhas pernas. O vento passava por baixo dele e tocava minha pele, livre e escondida. Escondida por culpa dos homens e de suas cobranças burras, mas o que poderia fazer? Presa, não poderia ser escrita pelo poetinha sem vergonha. Entrei em seu prédio, ambiente desconhecido, mas ao mesmo tempo tão comum... Era como se, em seu desejo, eu já habitasse aquelas escadas de pedra fria, como se já tivesse subido cada degrau e esquentado o mesmo com minha pele em sua imaginação. Chegando a sua porta, me senti ansiosa, mas inesperadamente, em casa. Aquele caminho já havia sido feito por mim outras vezes, dentro daquela mentezinha adolescente pervertida. Bati na porta. A madeira gemeu baixinho, e os passos em direção à porta me fizeram gemer junto, sentindo os toques em potencia, sentindo os versos me percorrendo e uma leitura a dois em voz alta. Assim que a porta se abriu, os olhos grandes do garoto se chocaram nos meus com a força de um trem descarrilado. Senti o impacto de sua surpresa no meu corpo como um empurrão. Ri por dentro, me sentindo uma rainha prestes a ser comida no tabuleiro. Abri com um movimento brusco e rápido o casaco, mostrando a ele bem de perto o objeto tão descrito em seus versos. O corpo nu fora tão observado que já possuía os caminhos percorridos pelos olhos do garoto, desnorteado pela visão e pelo inesperado. Seus olhos se arregalaram de tal forma que me senti ainda mais nua por baixo daquele casaco. Esperei. Esperei. As mãos do poeta não largavam a maçaneta da porta, o que começara a me irritar. A rainha ordenou, a rainha fez seu movimento! O peito do poetinha se encheu de ar. O meu também. Os olhos se abriram juntos em uma mescla de sensações. Quando, finalmente, seus lábios se abriram e, para minha surpresa, acompanhados de lagrimas e de sobrancelhas franzidas, soltaram aos berros:

- VOCÊ ESTRAGOU TUDO!

            O que vi em seguida foi uma porta grudar em meu nariz, parando a centímetros do meu rosto e deixando o vácuo no lugar da minha dignidade. Estava eu, nua, congelada feito um às de paus na porta de um adolescente tarado que se recusara a tocar seu maior objeto de desejo. Esperei meu sangue e a vergonha percorrerem meu corpo, esquentando cada extremidade do mesmo. Quando dei por mim, já estava em casa, pinicando com a vergonha e com o casaco tocando a pele. Olhei pela janela, buscando os olhos grandes e a tinta, os versos. Dei de cara com a cortina fechada. Acabou ali. Rasguei os poemas. Respirei fundo e compreendi a tremenda estupidez que havia feito, transformando a imaginação em ação. Tudo o que ele queria era desejar... Quando viu tudo aquilo na sua frente, a aquarela pintada escorreu em gotas de chuva, dissolvendo toda sua fantasia. Rasguei os poemas... Nunca mais senti seus olhos percorrendo meu corpo. Tudo que eu tinha agora para me observar era a cortina cinza na janela à frente. O luto foi maior do que eu esperava. Senti na pele a falta dos olhos do poetinha me tocando, me auxiliando a existir. Voltei a ser apenas aquela, presa em terninhos e numa existência tosca e comum. A leitura livre continua. Mas seu sentido morreu um tantinho, sem a plateia cheia de espinhas. Transformar a fantasia em realidade, afinal, matou o verso. E quem sofreu pelo desejo faltando fui apenas eu. O poetinha certamente encontraria alguém para observar em alguma outra janela da cidade. Mas eu não encontraria tão fácil outro alguém para me tocar com os olhos enquanto existo, para significar aquele momento meu. Pena... Rasguei os poemas... Rasguei por subestima-los em sua fome de ser.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h20
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h37
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Cimento

É comico o fato de vivermos anos e anos perdidos. Como existimos por segundos intermináveis até que, de repente um ultimo suspiro, que deveria dar sentido a tudo, desce como um machado em um delicado caule de flor, completando a certeza de que não há certeza alguma. Num momento qualquer do dia, acabamos por nos descuidar e chocar nossos olhos com os de um desconhecido qualquer. A sensação de roubar da pessoa seus pensamentos mais intimos e, pior, ter os seus roubados é nauseante. A rapidez com que se desviam os olhos é suficiente para que não tenhamos noção da dor. Mas o mais aterrorizante é quando nossos olhos se chocam com os do maior desconhecido de todos. Quando, num momento de descuido, fitamos uma vitrine qualquer, uma janela perdida e nos deparamos com nossos proprios olhos. O mais cruel deste encontro é que não há desviar, não há fuga. Rouba-se até o ultimo fio, a mais escondida particula de pensamentos sordidos que escondemos no fundo d'alma. Escondemos porque não queremos encontrar. E no chocar de olhos, temos lançadas a face todas as pequenas mentiras que contamos a nos mesmos. Chega a ser divertido... Mentimos porque a verdade é demasiada feia pra nos fazer sorrir. Aquele sorriso vazio, costurado e que logo derrete, escorre no rosto como as gotas de chuva na janela do carro. Sorriso de boca. Facil de dar. Existimos por tantos e tantos segundos sem nos darmos conta do quão sem sentido tais momentos são. Dias dos quais nem nos lembramos de ter vivido. Tente de lembrar do aniversário de casamento dos seus pais, da ultima vitória do time de Volei Brasileiro... Tente se lembrar da ultima vez em que tais pensamentos o perturbaram... Dá a ideia de que a vida fora um programa de televisão que saiu do ar. Mas por esperança, a tevê permanece ligada. Fica só aquele zunido cinza, ardido... Fazendo lembrar que aquilo um dia teve cor. Se é que teve. Temos uma capacidade incomparavel de tornar o passado novelistico, macio. Gostamos tanto de repetir incessantemente que naquele tempo era diferente. É mais confortavel, da margem a utopia de que poderemos ser aquilo novamente. Ouvimos uma melodia esperançosa, lemos frases positivas, assistimos a filmes romanticos e doces. Esmurramos a mesa prometendo que as coisas irão mudar! Conseguimos nos iludir com as deliciosas cores esfumaçadas que turvam a visão por instantes, enquanto dura a onda, a viagem. No outro dia, apos uma noite de sono e sensatez, a fumaça colorida se dissipou, largando a ressaca, o concreto cinza em nossos olhos. A sensatez, como o homem da areia, taca cimento em nossas palpebras, mantendo-as abertas e alertas, a espreita de qualquer vestigio de sonho, de esperança.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h34
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 13h52
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Bic azul sem tampa

Escrevo para não matar. Escrevo para não morrer. A cada dia que me arrancam coisas, que me defloram o pouco que me resta, coloco no papel os traços incompletos que ainda me fazem ficar de pé. As descrições, as formas, os gostos, os cheiros daquilo que um dia senti. Penso. Faz tanto tempo que não sei ao certo se senti tudo aquilo. O talento em falar daquilo que não conheço me surpreende. Descrever o invisivel. É como por no papel cada detalhe do Taj Mahal sem nunca ter visto sequer uma imagem do mesmo. Ainda sim, a descrição arranca lágrimas. Mesmo assim. Consigo fazer com que todos aqueles que me arrancam coisas sintam as lágrimas emocionadas, sintam a beleza das palavras quase corporeamente. Observo seus rostos se contorcerem num sorriso, o arrepio da sensação escrita percorrendo seus corpos. Ironia tamanha o fato de quem escreve não sentir nem a brisa vinda da janela. Escrevo com as mãos leves. Para não me convencer. Para não furar o papel com o peso. Escrevo para não matar. Para não pegar de volta aquilo que me tomaram. E so agora percebo que o pouco que me resta dos saques, acabo doando àqueles que me arrancaram tudo. Parei no tempo para digerir, mas engasguei com a dor. Será que o odio chega a tanto? Será? Escrevo para não matar. Escrevo para morrer só mais um pouco. Um pouco mais a cada dia. Pelo ralo escorro. Pela tinta da caneta. Pelos ouvidos daqueles que me roubam sou tragada. E se aproxima cada vez mais... O dia em que o resto não preencherá mais o traço da caneta quente em minhas mãos. O dia em que o resto não for suficiente. O dia em que a caneta falhará. O luto será só deles. Apenas deles.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 13h48
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Série: Pequenos

A dama, colorida, levando pela mão a melodia por ela composta. A tatuagem com carpas e flores coloridas nas costas, sob a regata branca emociona, pinta a visão. Pela mão, conduzia um pequeno, de cabelos bem pretos que mal alcançava seus joelhos. Coloriu meu dia. Como a tatuagem coloria a dama. Musicou. Como o pequeno deu o tom. Melodia e cor, andando de mãos dadas a minha frente na calçada, em plena quarta feira. Sorte.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 02h35
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Série: Pequenos

A calçada vestia os pés da atriz séria, de pensamentos rápidos demais para serem aqui narrados. Desviou intencionalmente de uma pequena e amarela flor, caída no cimento, enfeitando-o. Após o feito, se arrependeu de não ter esmagado a forma colorida com a sola de seu tênis. O ato assustaria mais a platéia que assistia sua caminhada. Mesmo a platéia inexistindo, consistindo apenas dos próprios olhos da dama. Quem sabe o teatro a convenceria desta força atuada, desta falta de afeto pintada em seu corpo? O que ela mais desejava era acreditar que não tinha alma.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 02h34
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Série: Pequenos

Lembro da inscrição da porta do banheiro daquele restaurante que nem existe mais. 1996... Onde fui parar? Chorei o luto da minha infancia. Só respiro hoje o que antes me parecia tão distante. Respiro a areia da ampulheta. Aquela, que não me lembro do gosto, pois não existe mais. O tempo escorre por debaixo da porta. Preferia a inocencia à certeza academica da morte. Não tem volta.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 02h33
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Série: Pequenos

Via nos cadáveres nas mesas frias o que se tornaria. Via sua potência. Solida. Eterna no seu fim. E o sentido, onde fica? A causa é, afinal a conseqüência. Ou algo assim. O formol confunde as cores de tudo, só me deixa a certeza de que não há certeza alguma...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h09
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 21h23
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Exame

O sol fustigava os cabelos curtos. Fazia evaporar a água e largando o sal na pele. Passos pesados queimavam-lhe as pernas, ombros caídos, doloridos. Nada de beleza, nada de sensualidade. Apenas a pele oca em forma de mulher. Expressão nenhuma na face. Uma mediocridade seca, daquelas que aperta a garganta. Olhar profundo, como um túnel escuro, sem brilho. Um corpo. Um peso. Um asco. Dois cavalheiros, do outro lado da rua a comiam com os olhos, pensamentos porcos. Ela sentia os olhares como sentia o asfalto. Sólidos. E os ombros se encolhiam mais. As trompas pesavam no abdômen, puxavam para o chão. E cada desejo obsceno passava por sua mente, complexo de Bentinho. Eles só pioravam... Não é culpa dela... Ela não pediu aquelas formas. Não pediu a carne sobrando, esticando o jeans. Mas não importava. Aquilo já era motivo suficiente para os doutores imaginarem seu corpo nu, jogado em lençóis de linho vagabundo. E ela não podia fazer nada. Absolutamente nada. Apenas olhar para baixo, desejando que a terra a engolisse. Asco. Mas não todo dos senhores ali, e sim dela. Das formas dela. Se não fosse mulher, não teria que suportar essa humilhação. Odiava do fundo da alma os seios pesando nos ombros, o útero vazio ocupando seu corpo. Sexo frágil... Milagre de gerar vida... Grande merda... Belos e meigos pedaços de carne. Não era bonita. Não se sentia bonita. Mas as cansadas e roliças pernas a denunciavam. Rosto? Que importa, olha aquelas pernas! Ninguém pode penetrar na sua personalidade. Ninguém pode despir seu diploma. As musicas que ouve, os instrumentos que toca. Mera fuga. Os passos aceleram, a expressão na face encolhe. E risadas saem da boca dos doutores, assovios e gracinhas. Medo... Medo de que as gracinhas cresçam a toques... De novo...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 21h16
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 23h46
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Leitura a dois

Leitura a dois

Acho que o dia em que realmente me apaixonei por ela foi aquele em que tomei o maior fora da minha vida. Eu achava fascinante, quase erótico. Ela entrava no apartamento exatamente as 18:12. A cada passo, uma peça de roupa caia no chão. E a cada queda, um suspiro saia do meu peito. Não interessa o fato de que já vi esse ritual mais de cem vezes, cada vez é nova, é surreal. Ela, ao deixar cair o soutien, estalava os dedos e se alongava caminhando até a sacada, num ato de sadismo. Sentia o vento, sorriso fresco nos lábios. Mais que o próprio vento que levava seus cabelos para as costas. Voltava para dentro do apartamento, pegava um livro e lia. Nua. Completamente nua. Sua pele brilha, reflete a luz. Quase comestível. Posso sentir o vento percorrendo seus seios, como um gole de água gelada. As pernas longas se cruzam no alto, confortável pra ela, um soco no estomago em mim. Aquilo me arrancava arrepios de onde eu nem imaginava que poderiam sair. Me apodrecia os sonhos sempre. E me acelerava o peito toda vez que a via saindo de carro, na garagem do outro lado da rua.

Eu já havia perfurado sua intimidade tantas vezes que achava normal. Sentia-me seu amante. Aquele espetáculo era apenas e somente para mim. Sentia nos meus ossos que ela sabia que eu a observava. Fazia de propósito. Crueldade, Jesus... Meus dedos longe daquelas costas. Contentar-me com a folha de papel áspero onde meus versos vagabundos habitam. Versos pra ela, obvio. Que ela nunca leria. E eu nunca assistiria.

Naquele dia, nos esbarramos na saída dos prédios, pela primeira vez. Ela saindo a pé e eu voltando da padaria. Medíocre. Mas mesmo com um saquinho de pão ridículo nas mãos, me senti forte. Sou seu marido, seu amante. Me aproximei e perguntei:

-Afinal... Porque você faz questão de ler nua toda noite?

Um sorrisinho de pedreiro contaminava meus lábios. Esperava uma risada tímida, porem feminina, um convite para entrar e uma leitura a dois em voz alta. Minha imaginação maquinou aquele momento por horas, sabia exatamente cada linha daquele espetáculo. Mas para minha surpresa e vergonha, ela diz, como se respondesse uma questão de matemática:

-Porque é confortável...

Virou as costas. E foi embora, virando a esquina. Improviso infeliz... Se eu pudesse me enterrar ali, me enterraria. O vexame pinicava na roupa. Sentia cada osso do meu corpo gelar, o suor percorria a testa, vermelha. Tudo que consegui fazer foi atravessar a rua, entrar pelo portão do meu edifício, subir pelo elevador, entrar em casa e me jogar no sofá. Que nojo, que nojo de mim. Mas no fundo daquela vergonha, algo tentava se desenterrar. Subia pela pele, arrepiando os pelos. Eu não sabia o que era, mas era quente.

Desejo.

Naquele dia... Naquele dia, ela não me saiu mais do pensamento. E eu não saí mais da sacada.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 23h45
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h02
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Doce

Brilhava como um doce. Um doce daqueles de grudar nos dentes...

Seu casaco ondulava docemente no vento. As pernas compridas e finas deixavam um ar desengonçado, e o sorriso congelado no rosto era contagiante, erguendo as bochechas rosadas e fazendo fechar os pequenos olhos orientais. Cabelo preto, cortado linearmente, formando uma tigela infantilizada, preta, brilhante e lisa. Perfeitamente inofensivo.

O parque estava ensolarado, o céu azul sólido. Crianças corriam e gritavam de forma estridente, senhores passeavam com os cachorros. E havia casais... Muitos. Jovens, velhos, casados, noivos, apenas namorando. Sempre sorridentes e sempre colados. Como os casais chamavam a atenção do pequeno japonês. Adorava-os. Observava, com seu sorriso congelado no rosto. As mãos nos bolsos, o vento cortando a pele. E era assim que começava seu dia. Com a escolha de um casal premiado.

Ela com olhos azuis, cabelos pretos bem compridos. Ele cheio de espinhas, ruivo, exótico. Eram aqueles dois. E ponto. Começou a caminhada até um prédio antigo, caindo aos pedaços. Entrou pelo portal de vidro lascado e subiu as escadas longas até o mirante abandonado. Foi em direção a um dos cantos, onde se encontrava uma maleta de corino vagabundo. Abriu-a, assoviando. Os olhos aparentando sempre estar fechados.  Tirou dela algumas peças brilhantes e montou-as com destreza, enganando no quesito ‘desengonçado’. Appassionata III dedilhando nos seus tímpanos. A musica o fazia balançar os ombros infantilmente. Observou a obra montada, orgulhoso. Apontou o rifle até o parque, onde estivera andando há alguns instantes atrás. Encontrou a massa laranja grudada ao rosto cheio de espinhas. Observou pela ultima vez o sorriso da dama, pois seria o ultimo do dia. E com a delicadeza de uma bailarina, estourou os miolos ruivos, espalhando-os pela grama verde e fresca. O sangue brilhava como um doce. Um doce daqueles de grudar nos dentes... O grito bestial da dama encheu seus ouvidos, arrepiou os pelos do braço. E appassionata entrou na parte rápida, fazendo sua cabeça balançar de forma retardada. Ainda assoviando, desmontou a arma, o sorriso intacto, os olhos quase fechados. Não queria perder o espetáculo. Apressou o processo. Depois de ouvir o estalar das travas da maleta, desceu as escadas num trote rápido. Parou na calçada e observou, de longe, o escândalo da dama, o pranto enlouquecido, a expressão de dor profunda. Lindo... Sua garganta se encheu com algo quente, a sensação de que uma gargalhada fosse sair, vomitada dali. O teatro acontecendo e enchendo sua alma com a mais límpida alegria. Alegria que se repetiria no enterro. Ah... Obra de arte criada pelo homem... Todos de preto, guarda-chuvas abertos sem razão de ser, afinal o sol, irônico, projetava sombras frescas pela grama. A dama em prantos, algum qualquer a abraçando pelos ombros. E o pequeno japonês a alguns passos dali, observando o espetáculo com seu sorriso congelado. A beleza chegava a assusta-lo. Como era maravilhoso observar os soluços brotando do peito. Podia sentir a dor amargando a garganta. A tristeza era a mais bela pintura a ser observada. E ele queria mais.

O mesmo parque, a mesma grama, fresca e gelada. Perfeito tapete para receber fragmentos de carne. O casaco ondulando com a brisa, as pernas deslocando-se sem simetria. O sorriso imóvel. O casal premiado logo seria escolhido. Como a alegria deles chamava atenção do pequeno homem. Estavam ali, sentados sobre uma toalha. Ela, alta, cachos loiros na altura dos ombros. Ele, forte, moreno, olhos grandes. E os dentes brancos a mostra. Eram aqueles dois. E ponto. A escada parecia infinita. A ansiedade de ouvir os gritos agudos lhe comia os dedos. Se bem que... Porque não gritos graves dessa vez? Montou seu brinquedo, os dedos brancos tremendo com excitação. Pela mira, observava a moça. A pele rosada, com certeza macia, comeria a bala, a afagaria com calor. O pescoço era longo, levemente pálido. Era ali. Apertou o olho contra o metal gelado e alguns instantes depois, belos cachos loiros se tingiam de vermelho. Arrepiou longamente ao ver as mãos grandes sacudindo o corpo inerte da pequena. Desceu quase correndo os degraus, chegou a calçada e, novamente, observou seu espetáculo, a cena mais esperada. Quando ela morria era diferente. A amargura se mesclava a ódio. Homem não chora, homem ruge. Interessante. Mas não tanto. O enterro foi maravilhosamente melancólico. A mãe da dama de desmanchava em lagrimas geladas. E ao depositar o caixão fechado, o cavalheiro esmurrava-o, prometendo vingança, como se isso diminuísse o sofrimento de algum dos presentes. O efeito era o contrario, aumentava o prazer doente do oriental, aguardando no canto esquerdo o fim da peça. Mal conseguia dormir, aguardando o amanhecer e o sol, isca perfeita para casais. Sorrisos, escadas, sangue e lagrimas. Praticamente um café da manhã. Sua alma precisava, era seu alimento. Estava com fome.

Aquele dia amanheceu chuvoso. Droga... Casais não gostam de sair na chuva. Mesmo assim, fez seu caminho até o fatídico parque. Ao se aproximar, seu sorriso costurado se aumentou levemente. Um casal... Apenas um... Andando sob a garoa. Lindo. A melancolia da água junto aos prantos de um cavalheiro. Nem esperou para observar melhor a cena, galopou pelas escadas, escorregando às vezes. Chegou na platéia da sua peça. Montou com rapidez o rifle, a ansiedade fazendo a mão estremecer. Meteu o olho pela mira e observou a dama. Japonesa... Cabelos negros, levemente úmidos com a nevoa fina que caia. Um sorriso pequeno lhe preenchia o rosto redondo e rosado. Delicada como uma flor de cerejeira. Esperou. Seu dedo não respondia ao desejo de ver a bela face destroçada na grama. Um grito agudo dessa vez. A mira se deslocou para a esquerda, parou no meio de olhos amendoados, a pele levemente bronzeada, sobrancelhas grossas.  O dedo não tremeu, desceu no gatilho como um coice. Explodiu o cavalheiro em cacos de osso. O sorriso aumentou um pouco mais. As mãos suavam de leve. Quando algo fez toda a cor do seu rosto fugir. As bochechas caíram em lábios semiabertos. Não se ouviu gritos. Não se viu lagrimas. Pela mira, seu olho dava diretamente nos olhos da dama. Ela o fitava, através da lente. Expressão nenhuma no rosto, apenas a forma redonda delicada e rosada. Como poderia ter o visto ali em cima?  Seu corpo caiu para trás, os olhos finalmente abertos e mesmo assim, pequenos. A respiração acelerada. Sua mente se esvaziou. Seu corpo se desmontou. O cérebro voltou a funcionar num tranco de adrenalina, um desespero prazeroso. Quando apertou o olho na mira, para observar o que acontecia, deparou-se apenas com os restos do crânio partido. Seu coração parou. Movimentou o rifle desordenadamente, procurando a dama. Não a encontrou. O sangue esfriando aos poucos, as mãos gélidas. Um estalo o fez tirar o rosto devagar do visor. Seu corpo não respondia. Apenas a cabeça virou-se para trás. A dama estava ali. De pé, a sua frente. A roupa respingada em sangue. Seus olhos orientais fechados em um sorriso. Congelado... Appassionata III voltou a batucar seus tímpanos. A dama se aproximou devagar. A expressão intacta no rosto, aterrorizante, linda. O medo fedendo por entre a camisa pólo, o suor escorrendo pelo rosto. E um prazer doentio corrompendo-lhe o coração. A dama tombou de leve o rosto, estendeu-lhe a mão. Ele, num espasmo de masoquismo, estendeu a sua. Sentiu seu punho se estraçalhar em centenas de cacos. A dor lascinante lhe fazendo ter ânsias de prazer. O corpo foi levantado devagar pelo punho partido. O sorriso dela, inofensivo. Uma mão, pequena e úmida pousou sobre o seu peito. Sentiu os pés saírem do chão, flutuou delicadamente. A ultima coisa que viu foram olhos fechados, apertados em bochechas sorridentes. Caiu eternamente. 15... 11... Quantos andares tinha o prédio mesmo? Os ombros balançando de forma demente, seguindo o ritmo da musica; Beethoven deveria estar dando risadas. O japonês ria. Ria de forma obscena, doente, feliz. Enfiou-se no asfalto, rachou a calçada. Sentiu cada osso do seu corpo se deslocar, numa dor deliciosamente mortal. Ficou engavetado no IML por um mês. Foi enterrado em cova comum. Ninguém chorou. Ninguém gritou. Os únicos olhos que assistiam o coveiro mal humorado jogar terra sobre um punhado de carne eram orientais, femininos, fechados em um sorriso intocável, num rosto redondo, rosado. Jogou uma flor de cerejeira sob a terra fétida. Assoviou uma canção qualquer. Casais a atraiam também. Mas ela preferia a homens sozinhos. De preferência japoneses. Esperava-os no parque. Sempre apressados; sempre com cabelos da década passada. Quando avistava um exemplar, seguia e o chamava pra ver o parque do alto. Só não avisava que seria em queda livre. O saco de ossos tingiria a calçada com sangue. Sangue que brilhava. Brilhava como um doce de grudar nos dentes...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h02
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h42
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 Café e tinta

 

Não sabia o que era amor. Inocente. Não fazia idéia... Infelicidade era rotina. Tão rotina quanto a dose de café a tarde, ao ler o jornal. Passava os dedos preocupados pelos cabelos ralos. Mas, preocupados com o que? Não tinha filhos para esperar, não tinha esposa para lhe afligir. Preocupava-se com a vida, com o tempo esvaindo-se pelas mãos. A mediocridade dos dias passados lhe fustigava como o sol das duas, fazia encolher os olhos em uma dor desgostosa, assustadora. Incomodava como o zumbir de um inseto.

A televisão pintava as paredes da sala morta, branca. O único ponto de vida ali era um cacto tímido. E ele tinha mais conteúdo que o abandonado, arrancando os cabelos com as unhas aflitas. Nem lagrimas tinha mais. Era feito de café e tinta, dos jornais absorvidos pelos olhos e que maculava as mãos, colorindo-as de preto, num ato de ironia inanimada. O liquido negro reclamava em seu estomago vazio. A pele macilenta parecia se quebrar com um sopro. E o vento machucava. Até mais que a solidão. O olhar não tinha brilho. Lembrava um túnel escuro, profundo. Nem se imagina o que poderia sair dali em forma de palavras. 35 anos de morte. Como pode? Olhava ao redor, mas já decorara a sala, desde o teto até o chão. Brancos... Quando, num súbito olhar, absorve algo que não encaixava no quebra-cabeça morto. Pousada na parede, estava uma borboleta preta e amarela, como uma obra de arte. Vida... No meio do mar, terra. Olhou a criatura com a minúcia de um medico. Levantou da cadeira de forma demente e se aproximou devagar, com os braços estendidos em um glorioso desejo inédito. Desejo de toca-la. A esperança comendo-lhe os olhos. Os passos pesados e tortos pareciam eternos até a vida pendurada ali como um quadro.  Quando ia toca-la, o ser, assustado, foge de seus dedos com temor, num vôo bruxuleante como uma luz a ponto de se queimar. Os braços esticados como galhos secos ficam flutuando no ar, sem cor, sem vida. Crueldade... a vida foge dele. Ódio... novamente lhe escapa a esperança. Mesmo que... ela nunca existiu. Como um louco, pulou, saltou e atacou a pobre cor. Ela não tem o direito de iludi-lo! De frustrar a solidão branca! As patas do o animal alcançam e esmagam o corpo amarelo e preto, trucidam a alegria, despedaçam a criatura como uma folha seca. As mãos derretem no preto do cadáver delicado, mancham a palma fria. Tinta... banhada a café, derrubado na mesa pelo súbito ataque. Olha ao redor, e se vê sozinho. De novo... Vira-se para a cadeira, se aproxima dela lentamente e se senta com a calma de um aposentado rico. Seu robe de lá xadrez e suas pantufas macias imaginários contornam o corpo quente, ainda respirando aceleradamente. Pega o papel levemente amassado e volta a ler, sem absorver palavra alguma. Passa os olhos pelo jornal, como se passasse por sua vida. E da mesma forma, não absorve nada. Ela não existira. Era apenar um respirar vazio. Sorriu. Riu de leve, subindo os ombros, dando um murro na mesa e esbofeteando a xícara de café, que voa longe e se espatifa na parede, manchando-a com seu sangue preto e aguado. Abaixa a cabeça nas mãos, afundando o rosto nelas, sujando-o de morte. E soluça.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h32
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 21h43
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Katana

Jogou-se na poltrona com cansaço. Sentiu um fluido grosso e quente escorrer pela roupa. Merda... Seriam as regras? Foi até o toalete, arrancou a meia arrastão e viu uma mancha rubra sobre a pele, mas ela não confirmou a suspeita, pois o liquido saia de um ferimento aberto, na altura do umbigo. Melhor assim. Odiava do fundo da alma qualquer demonstração, por mais natural que fosse, de feminilidade, de fraqueza, delicadeza... Coisa de garotinhas. Limpou o sangue quente da ferida, sem esboçar mínima expressão de dor, passou qualquer coisa para não infeccionar e, com coragem, pegou a agulha e linha e ponteou a pele, como se fossem meias a serem cerzidas, sem um piscar de olhos, sem um franzer de sobrancelhas. Mesmo sem espectadores, não suportava a idéia de ceder a dor. Terminou a tortura, colocou novamente as roupas e foi em direção ao quarto. Chutou um pedaço de carne que sobrou ali e se deitou na cama. Sorriu. A espada continuava jogada ali ao lado, sobre uma poça vermelha brilhante. Riu. Fácil de mais. Homens são tão manipuláveis, só ver um rabo de saia que vêm correndo como crianças atrás de doce. Tirou algumas gotas de suor da testa com as costas da mão e observou o ambiente. Fedia a sangue e medo. Notou um braço caído por cima do tapete e riu alto, imagine a cara dele quando voltar e encontrar essa zorra! Sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos e mordeu o lábio. Só cinco. Mas já era um bom numero. E o estado deles também contava. Estavam estripados. Heh, a lamina estava bem afiada mesmo. Cortara com destreza. Ao se curvar, sentiu uma pontada no estomago, o corte latejava. Mas, novamente, não demonstraria sequer um vestígio de dor. Só incomodava no momento a humilhação da ferida. Como conseguiram acertar? Sempre fora tão ágil. Nunca levara um corte sequer. Talvez o olhar daquele mais jovem. Uma expressão de terror, um medo infantil que chegou a dar pena na tão insensível assassina. Pena... Sentimento nojento, fraco. Não, não sentia pena. Não poderia sentir pena. Sua vida dependia disso. Joga-se para trás, deitando-se, batendo com força a cabeça no colchão. Pensando bem, que tinha demais em sentir pena? Ela, apesar de tudo, era humana. Mas logo o pensamento lhe é varrido da cabeça pelo ódio que corrompe sua alma. Ela não é humana, nunca seria. Desistindo de pensar, se levanta lentamente, recolhe a lamina melada de sangue, da uma leve sacudida, tirando o excesso de sangue alheio e a guarda na bainha, como quem deposita um filho no berço. Olha em volta de novo, a paisagem, digna de um filme de terror lhe agrada. Ri baixo observando a beleza das manchas de sangue nas paredes, dos fragmentos de carne morta e embebecida em sangue. Os pescoços mutilados com cacos de ossos escapando pela abertura feita a lamina. As pernas quebradas para trás, deixando escapar a rotula por entre um corte profundo, os fluidos se deixando vazar pelo rasgo cruel no abdome. Tripas jogadas como serpentina pelo chão. É... Estava bom daquele jeito. Bem... Surpreendente. Levantou-se e foi desviando com cuidado do cérebro esmagado como manteiga no chão. Os dedos retorcidos do braço sobre o tapete lhe parecem cômicos, quebrara-os com a facilidade de quem quebra palitos de dente. Nem se lembra de quem fora o membro decepado. Saindo, finalmente pela porta, tira do bolso do traje, um lenço bordado. Beija-o com sadismo, deixando uma marca vermelha, como um coração e o joga delicadamente no chão, com o cuidado de errar as poças de fluidos e sangue. Quer o lenço intacto. É sua assinatura. Assinatura de uma artista da morte. Sai andando pela rua como se nada tivesse feito, e no caminho, encontra com o dono do palco do massacre, caminhando em direção da cena principal. Virando a esquina, pode ouvir seu grito de desespero. Gargalha.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 21h38
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 18h55
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Meias

 

Esperando o ônibus hoje de tarde, me deparei com o tédio, e ele conversou comigo. Disse que ouvir musica era bom. Liguei o player e escutei qualquer coisa sem dar o mínimo de atenção à melodia ou batida, sentia apenas o grave penetrando os tímpanos. Irritante. O tédio não tem noção mesmo... Desliguei o som ignorado e percebi que ao meu lado, havia se sentado um senhor de camisa azul, calça branca e chapéu. Perfeito. Praticamente Carlos Drummond de Andrade. Se não fossem as meias. Esportivas, daquelas que se usam com tênis. Olhei... Olhei... Aquele rosto macilento de quem escreve versos ordinários em uma taberna, a camisa azul escura e a calça branca; boêmio. Perfeito. Se não fossem as meias. O ônibus chegou ao ponto, soltando uma fumaça densa e palpável. Adentrei a caixa, sentindo o cheiro de gente estafada, com pressa para ver a novela e deixando o poeta para trás. Sentei-me ao lado de algum fantasma entediado qualquer e liguei o player de novo, ignorando o tédio, que agora dizia que musica não era bom. O tédio é um péssimo conselheiro. Vi uma senhora gorda apertar as meias para parar a maquina... Digo, a campainha, puxando uma garotinha remelenta e barulhenta pelas mãos. Desceram. E eu me dei conta de que nunca mais as veria de novo. Pena? Não... Amanha já teria me esquecido da existência dos seres se não tivesse escrito aqui no papel branco, afirmando a existência delas. Homenagear completos estranhos é bem... Inútil. Voltei a me concentrar na musica, piano, poluído pelas buzinas e barulho das meias, digo, freios. Vozes escalando umas as outras, conversas fúteis que não tinham razão de ser, existiam apenas pela vergonha e pelo medo da solidão e do silencio. Silencio, adoro-o do fundo da alma. Ele é tão profundo, limpo, calmo. Porém a perfeição assusta os normais. Pouca gente no mundo deixa de andar para sentir o vento, o cheiro dele, a lua atingindo com força o peito. Preferem o barulho, desviando a mente de pensamentos importantes, de conclusões. Existir é o maior barato! Super fácil! Pena que eu vivo. Viver é dolorido, demorado. Quando dei por mim, no meio daquele devaneio louco de filosofia barata, metade dos fantasmas já havia descido em seus pontos, fingindo esquecer que um dia conheceram aqueles rostos, jogando-os no limbo, como eu também faria, se não estivesse escrevendo essas meias, digo, esse texto. Cruzes... As meias bailavam em meu cérebro, sapateando nele, como uma dançarina de cancan. Será que o poeta tinha idéia de que aquelas meias teriam estragado o dia de alguém? Que aquelas meias, malditas meias, teriam dado uma bela dor de cabeça em uma garota a qual ele nem conhecia? Merda, ele não tinha esse direito! A imagem estava marcada em minha córnea como um pernilongo esmagado na parede. Canelas finas, semicobertas pela calça branca de linho vagabundo, e as meias... Era como se elas estivessem ali apenas para atrapalhar a vista, como um edifício em cidade pequena. E mesmo que você tentasse, o olhar sempre chegaria nelas, elas eram um imã maligno. Desci da caixa um ponto antes do meu destino, tamanha a raiva daqueles saquinhos de pano medonhos, tinha que andar um pouco afim de esquece-las. Andei uns bons passos a mais do que deveria, isso acabou por me irritar mais, a mochila pesada maculando meus ombros e o calor fustigando minha cabeça. Pelo menos isso me distanciou das meias, momentaneamente. Desliguei o cérebro até chegar em casa, quando dei por mim, estava jogada na cama com as pernas pulsando de dor. Tudo doía. E a culpa desse martírio era daquelas meias malditas! Já nem lembrava mais do boêmio simpático, só as medonhas me vinham à cabeça, bailando sozinhas, balé desta vez. Acho que nunca mais me esquecerei daquelas coisas. Ou pelo menos me lembrarei delas toda vez que ler esse pedaço de papel. E me lembrarei também das duas damas desconhecidas, descendo, perdidas nas ruas, deixando um rastro de toc-tocs dos tamancos de madeira, a mãe gorda e a filha remelenta. Juro que nunca mais homenageio desconhecidos.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 18h53
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h46
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Senhorinha

 

            As arvores abraçavam a ruela úmida e confortável, fazendo ligeiras e pequenas sombras, deixando estampadas bolinhas de sol no chão macio, feito de folhas caídas no asfalto negro e brilhante. O vento era inexistente, como se o ar cochilasse entre os passos lentos e compridos de 14 anos. Ela observava as flores nas jardineiras das casinhas coloridas, de onde um aroma doce saia, percorrendo o ar preguiçoso e penetrando nas narinas, dando vontade de se deliciar com torta de maça e canela. Ouvia uma musica imaginaria, os olhos fechados e um sorriso escondido enfeitava o rosto com o prazer da simplicidade. Encolhia os ombros rindo quando alguns vestígios da chuva, que nem parecia ter existido, caem em seu rosto, ao passar por baixo de um abacateiro verde e sólido, o qual as raízes abriam fundas rachaduras na calçada velha e amavelmente molhada e quente. Tudo tão... Macio. A musica imaginaria bailava em seus ouvidos, até que sua delicada cabeça se vira devagar e seus olhos grandes, que atrairiam abelhas de tão azuis, fixam uma cena tão irritante quanto um grito de um violino desafinado. A musica murcha em seu ouvido, como um balão esquecido no canto da festa infantil. Suas finas e doces sobrancelhas se franzem em uma raiva infantil e ela bufa com fofura. O casebre de dona Amelinha polui a ruela amável onde a pequena emburrada andava e se deliciava. Seu pequeno reino de criança era arruinado por aquela desagradável casa cinzenta e feia, suja e desbotada, como um gibi ignorado na chuva. Sem flores, sem cheiro de torta... Casa de bruxa... É... É o que aquela velha feiosa é, uma bruxa! Olha aquela paisagem, como de um filme de terror e a raiva infantil vai amargando em sua garganta... Odeia do fundo da alma aquele canto esquecido por deus... Aquela velha enrugada e esquisita, que fica o dia todo na cadeira de balanço, resmungando baixinho, como se amaldiçoasse a felicidade de quem passasse perto. Crianças a acordam de seu devaneio de ódio, passam correndo ao seu lado e tacando pedras em direção a senhorinha, que se encolhe lentamente, como se estivesse embaixo d’água. Ela resmunga baixinho e continua em seu movimento autista, para frente e para trás, como se fosse seu motivo para viver... Balançar... A pequena lança um soslaio e solta uma risadinha seca e curta, seguida de um “bem feito”, maduro de mais para sua idade. Continua seu caminho de historia de João e Maria, sentindo o vento manso em seu rosto, que bagunça as madeixas negras e pesadas de seu rosto e espanta a imagem do casebre como se soprasse a poeira de alguma superfície. Quem se importa com aquele fantasma? Ela que continue ali, balançando de forma demente. E assim foi durante anos... Ela passando pela ruela, sempre amigável, sempre acolhedora, e se deparando com o câncer que era o casebre sem cor. Se irritando sempre com a presença maligna da senhorinha balançando-se como um galho prestes a despencar de tão seco. Ela estava sempre ali... Não interessa o quanto pudesse chover. Ela estava ali... Como uma gravura pitoresca que perturba. Nem o frio a espantava da varanda suja, de madeira mofada. A cadeira estava sempre habitada pelo corpo mole, coberto sempre de lã azul clara... Já nem se via vida ali, ela era como um objeto, como um bibelô lascado e feio. E os anos se passaram. E o balanço cada vez ficava mais lento... Mas nem se notava, apenas se apontava e xingava. Com a idade o ódio infantil da emburradinha foi se tornando asco. Ela apenas olhava e desejava que aquela casinha e sua maldita moradora fossem para o espaço. E desejava cada vez mais fortemente... E a pobre Amelinha continuava firme e forte... Talvez não tão forte. Mas firme. A pequena, já não tão pequena, odiava e Amelinha balançava. Era um ciclo vicioso eterno. Talvez... Não tão eterno... Ao que um dia, passando pelo caminho macio de sempre, aos 17 anos, a emburradinha se depara com uma cena assustadora. A cadeira de balanço sem sua companheira, empoleirada nela. Balançando sozinha ao vento, como se dançasse uma valsa sádica e solitária, rangendo de leve. A pequena tomba a cabeça para o lado, se perguntando aonde esta a odiosa senhora. Mas, vendo seu ódio sem alvo, segue seu caminho, incrivelmente mais curiosa do que feliz em não ver o corpo disforme e azul claro movendo-se em eterna câmera lenta. E no dia seguinte a cena absurda se repete. A casa cinzenta consegue a façanha de ficar mais morta ainda sem o fantasma na varanda ordinária e sem flores. A curiosidade começa a se mesclar a falta. Onde estaria seu objeto de nojo preferido? Ao chegar em casa e indagar a mãe, depois de mais uma tarde sem a presença da senhorinha em sua varanda, balançando eternamente, ela descobre que Amelinha faleceu há semanas...

Um vazio a atinge no peito... Um arrepio sobe por sua espinha... Como a odiosa velha bruxa pode morrer? Ela era imortal... Ela era o motivo pelo qual a vida não era perfeita. Sua existência era necessária! Ao se ver finalmente livre do câncer, sentiu algo que a fez sentir vontade de vomitar. Pena... Espere ai... Pena? Mas ela atormentou a beleza da ruela por anos! Ela deveria pular de alegria, esperando ansiosa para que alguém se mude para aquela casa feia e a deixe colorida como todas as outras! Mas não... Seu coração doía. Ela se virou de costas e saiu correndo em direção a casa que tanto a frustrava. Pela primeira vez ignorou toda a paisagem linda e amável envolta, nada importava, ela só via a massa cinza à esquerda. Entrou como um furacão pelo portão enferrujado como se fizesse isso todos os dias, deixando-o aberto. Espalhando lama pela soleira da porta, abriu com força o retângulo de madeira cheio de ranhuras e se deparou com o que, pela primeira vez, lhe mostrou a verdadeira face da velha bruxa. Fotos... Amelinha estava lá, estampada no porta retratos, sorrindo, alguns anos mais nova. E no outro, estava lá, tocando piano com uma expressão doce e sonhadora. E no outro, acompanhada de um jovem senhor, meio grisalho, os dois sorridentes apenas pelo fato de estarem juntos um ao outro. Uma luz logo se espalhou pela mente da garota. Voltou a correr, como se sua vida dependesse disso. Chegou ao cemitério, vazio a não ser por ela e por dois corvos, como esculturas em cima de uma lapide. Procurou esbaforida por entre as pedras e anjos tristes e finalmente encontrou o que caçava. Lá estava... A delicada e em preto e branco foto de Amelinha, ao lado da gravura do jovem senhor, também sem cores. A data na lapide revelava que o companheiro da tão solitária senhorinha tinha deixado esse mundo a exatos... 17 anos... Instantaneamente, um doloroso entendimento passa por sua cabeça. Ela finalmente entende o motivo pelo qual se via aquela maldita áurea cinza na ruela colorida, pontilhada de flores. Solidão... A imagem da bruxa agora vinha diferente em sua mente. Em vez de amargura, enxergava tristeza no balançar eterno que era a vida sozinha de Amelinha. Ela, a final de contas, era apenas triste... E sua tristeza era como uma pedra no sapato da pequena... Ela a lembrava de que a vida não era linda instintivamente... E agora, alem da pena, sentia nojo... Mas não da pobre Amelinha enterrada ali, de si mesma. Como pode odiar tamanha vitima da maldade da vida? Seus joelhos se soltam como dobradiças velhas, levando o corpo, soluçante, ao chão. E a pequena chora...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h45
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h46
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Maçãs

 

Você acha que vai me atingir com seu ódio? Ele me conforta... Sabia? Você acha que preciso do seu perdão? Ele vale menos que lixo pra mim... Sabia? Você acha que tenho pena de você? Pois é... Tenho mesmo... Sabia? Você acha que me arrependo do que disse a você? Pois é... Não me arrependo, faria tudo de novo e bem pior... Sabia? Você acha que virará homem me tratando mal como te tratei? Pois é... Você continua sendo um franguinho de merda que não põe medo nem em uma mosca... Sabia? Você acha que eu vou me incomodar com suas mensagens subliminares em comentários? Pois é... Não me incomodo, me divirto em saber que você me odeia... Sabia? Você pensa que eu te pedirei perdão por estragar sua vida? Pois é... Não pedirei... Sabia? Você acha que eu te usei para fins pessoais? Pois é... Usei mesmo... Sabia? Você acha que tenho nojo de você por ter essa aparência ridícula? Pois é... Tenho asco da sua face repulsiva... Você me da pena... Sabia?

Pois é... Eu nunca te amei... Sabia?



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h44
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 01h57
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Papetes

 

Lá fora o céu despenca em lagrimas que se refletem em meu rosto... Ainda não me dei conta de que tudo que um dia foi, hoje não é mais... Que o que era móvel, hoje é intocado. Que o que era risada, hoje é silencio. As rosas pendem para o lado como se sentisse a áurea cinza ao redor. Todos dizem “ele era um homem bom...” era não... É... Palavras que saem e vagam até chegar aos ouvidos e baterem no cérebro, marcando como um ferro em brasa a mensagem: ele não esta mais entre nós.

“Seja forte” dizem os espectadores... Ser forte não significa erguer a cabeça e engolir as lagrimas, como se isso fosse algo nobre... Ser forte significa assumir que aquela pessoa que se foi nunca será substituída... Ser forte é se deitar sobre seu leito e chorar rios, soluçar como se essa dor não fosse passar jamais... Ser forte é bater no peito e dizer “sinto sua falta...” sejamos fortes então. Tenhamos honra. Vamos nos abraçar e chorar, pois aquela pessoa que um dia esteve, hoje esta, mas não ao nosso alcance. Esta apenas ao alcance dos olhos marejados, que se negam a aceitar aquela imagem de pálpebras fechadas, serenas, como se dissesse “não se preocupem, ainda estou ao lado de vocês”.

Suas papetes estão ao pé do sofá... Como dói ter que tira-las de lá...

 

Em memoria  Luiz Hungria.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 01h50
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 15h23
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Rodoviária

 

Virou-se de costas e andou prédio adentro, mãos nos bolsos... As mãos se soltam, como um nó se desfazendo. Entro no carro e olho para trás, conto os passos que você dá até desaparecer... Fito a calçada vazia...  Não só a calçada, mas meu peito também se encontrava naquele estado, como se uma mão de ferro segurasse meu coração e aos poucos ele parasse... A cidade parece... Morta... As luzes de natal se refletem em meus olhos úmidos... Encosto no vidro do carro, a sensação gelada não alivia a dor... Ela é interna de mais... Dói. E apenas isso... Dói...  Enquanto sinto o vidro gelado, um flashback passa em minha mente, como um filme mudo... As risadas, os beijos... A companhia...

 E a dor... Dói...

Escorrego um pouco no estofado... As palavras ditas no banco da frente entram em meu cérebro, mas não são absorvidas... O olhar vago parece até, de certa forma, demente, como se algo faltasse ali para que se tornasse completo... E realmente faltava...  Faltavam seus dedos entrelaçados nos meus... Quando me dou conta dos passos dados por minhas pernas, me encontro da plataforma nove, pessoas me olhando, fumaça de cigarro na atmosfera, quase que palpável de tão densa... Suas cartas se encontram de certa forma esmagadas pela tristeza das minhas mãos frias... Sento no chão e as leio, com a paciência de uma mãe olhando seu filho... Uma lagrima borra sua assinatura... Outros passos dados sem meu consentimento e estou dentro daquela caixa... A janela se embaça... E a dor, dói... Mordo os lábios com as sobrancelhas franzidas e os olhos fechados, como se um rim fosse arrancado do meu ser...Um soluço rouco escapa chamando atenção de curiosos e de senhoras piedosas, mas os espectadores nada fazem, apenas olham e se voltam para frente.

Nem em meus sonhos sua imagem deixa de me perturbar, seu sorriso assombra minha sanidade, sua doçura, seu riso... As unhas se cravam na pele para tentar desviar a dor do peito... Seu gosto continua em minha boca, as marcas de suas mãos em minha pele, como se uma brasa as tivesse marcado eternamente... E, apenas a esperança da próxima vez que possa pousar meus olhos nos seus se movimenta dentro de mim, quase cria vida...

Eu realmente odeio rodoviárias...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 15h17
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h01
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Gato preto

 

Eu vim pra trazer má sorte

Eu vim para humilhar

Não sou ovelha negra

Sou gato preto

 

Os olhos brilham na noite e incomodam, como os faróis dos carros que passam, ignorando as vidas interrompidas ali ao lado. A lua, de tão brilhante, atravessa as nuvens de chuva que derretem em gotas pesadas sobre a capa e o chapéu pretos, os quais ocultam minha conduta putrefata. No bolso...? No bolso uma surpresa que deixarei para o final da historia. Nas mãos, a desordem de dedos estralando-se e de unhas compridas. A insanidade se revela no andar reto com o olhar baixo. As lapides ao lado trazem uma certa vergonha misturada a orgulho. Tantas pessoas insubstituíveis ali, sob a terra, por... Oras, calma! Não vamos estragar a surpresa!

Meu andar se apressa. A chuva e o frio me incomodam... Vamos logo com isso... Que noite cretina... Entro em um beco habitado por mães solteiras e mofo. As paredes se descascam e caem, como se o descaso fosse uma paulada atingindo em cheio os tijolos. Meus sapatos ecoam e quase criam vida, tamanho o silencio quebrado por eles. Que ambiente nojento... Quero logo minha lareira e um copo de whisky... Entro pela porta semi-aberta. Um senhor forte e careca me repreende, mas logo cai no chão... Olho para a figura retorcida e sigo meu caminho. A próxima sala, meu objetivo, mais parecia uma sauna tamanha a fumaça causada pelos charutos. Os quatro indivíduos olham para a porta onde estou parado e depositam o leque de cartas na mesa. “O que raios você esta fazendo aq...” foi o que encontrou tempo de sair da boca do infeliz antes que de eu estourar seus miolos. Os outros três desgraçados se assustaram e colocaram as respectivas mãos nos bolsos, mas já era tarde... Caíram à mesa como estudantes dormindo na sala de aula. O sangue sujava as cartas que nunca mais seriam jogadas... Era para eu sentir pena? Ah desculpe, mas não aprendi essa lição no colégio. Piedade? Não... Mas eu aprendi ironia... Serve? Dane-se...  Ponho no bolso novamente a surpresinha, ainda com duas balas. Saio logo daquela cena bizarra. Ao passar pelo cemitério, me lembro da culpa... Mas... Como evitar? Esse brinquedinho é tão divertido de usar... Acabo por mandar mais quatro almas podres para dar trabalho ao coveiro...

E agora, finalmente, meu whisky!

 

 

Eu vim pra trazer má sorte

Sou gato preto



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 20h07
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h38
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Suco de pêra

 

Começo meus os dias como um ser que depende dos outros para tudo...  Passa-se um tempo, e esse ser se torna outro, que quer mudar o mundo, que tem a sensação de onipotência, que acha que vai dominar tudo e todos com sua inteligência e que é mais do que os outros...Anos depois essa personalidade forte se transforma em arrogância. E de líder, passo a empregado...  E de empregado que expõe sua opinião, passo a desempregado... A opinião é forte de mais... Tem muita massa de manobra pra por no lugar de gente que fala mais do que deve... Então aprendo que o mundo é... Injusto... Que não posso muda-lo... Que eu e minha opinião forte... Temos que abaixar a cabeça para quem tem mais influencia, para quem tem mais... Carisma... Mas não! A vida não pode ser assim tão sem sentido, tão triste! Eu posso fazer algo pra melhorar essa merda de lugar! E a arrogância brota no peito como a erva daninha que teima em aparecer mesmo quando o sol esta esturricando... Volto a falar, a me expressar... E me sinto bem... Sou inteligente... Sou mais que os outros... Sou culto! Humildade é coisa de fracos!  Eu me amo e vou gritar para todo mundo ouvir!

 

...E termino meus dias sozinho... Ouvindo burburinhos dizendo que sou o velho mais ranzinza e que fui a criatura mais nojenta que já conheceram...

 

De hoje em diante vou mentir mais...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h37
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 01h51
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Castelo de areia.

A tristeza em mim é um estado constante... Sinto um buraco no peito que às vezes queima e uma barreira se forma em volta de mim... Eu a chamo de solidão... O frio não me machuca mais... Oras... Ele faz parte de mim, como um câncer que me consome por dentro. Sobra apenas essa carcaça frágil que escorre em lagrimas imaginarias, definhando-se como um castelo de areia no qual o mar teima em bater quando o sol tenta novamente aquece-lo... Os olhos absorvem os vivos, ou os que pensam que estão vivos... Os que apenas esperam sua vez de serem enterrados, os que existem... Eu, pobre de mim, conheço minha condição de morta, tenho noção de que dentro desse corpo existe apenas o vácuo, onde os lamentos vagam cegamente até atingirem os olhos e escorrerem em fora de água com sabor de mar... Tenho medo de ficar sozinha...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 01h49
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 18h40
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Cinta liga

O que é sensual? Uma ninfeta loira com curvas arrebatadoras de cinta liga vermelho biscate ou a garota de óculos e pernas compridas deitada ouvindo musica deixando uma leve nesga de pele macia e viva por entre o camisetão também chamado de pijama?

A mídia maquiou o sensual. A sensualidade de hoje é constrangedora, é vergonhosa, é fútil e nojenta. Uma dona de casa dentro de um lingerie de plástico, parecendo um legume embalado a vácuo se sente sedutora? Ao meu ver, se sente completamente constrangida naquele quarto de motel olhando para a cama redonda e a barriga do seu marido, mais redonda ainda saltando por baixo do lençol vermelho ordinário que já presenciou tantos teatros como esses. Ela na verdade gostaria de estar na sala vendo novela de calcinha e soutien, mas não. Esta naquele quarto falso. Falso... É essa palavra que me vem à mente quando penso no que hoje se chama de sensual... Sensual mesmo é chegar em casa e ver sua namorada de camisetão e meias, deitada de bruços lendo um livro. Não é delicioso? É ouvir seu parceiro tomando banho e logo depois o ver sair do banheiro só de toalha. Isso é sensual, isso é natural, é gostoso, não constrangedor. Agora me deu vontade de ter ao meu lado alguém pra chamar de meu namorado, sem camisa estirado de bruços na cama se queixando do tempo. Eu apenas passaria de leve as unhas em suas costas e depois o abraçaria, sentiria o calor do seu corpo enquanto acaricio seus cabelos... Beijos na nuca enquanto as peles se encontram nessa reação absurdamente fantástica, arrepiando os pelos... E nisso surge o silencio... O silencio que diz muito mais do que qualquer palavra... E um sorriso brota no rosto. Como seria bom ter alguém assim ao meu lado...

         Isso sim é sexy.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 18h38
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h49
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Palitos de fósforo

O que dizer? Dizer que sonhos são como palitos de fósforo. Você dorme e ele acende, a chama é linda, o momento é deliciosamente quente e você quer que ele dure para sempre. Mas não dura. Você acorda, o fósforo apaga e o que resta é apenas a madeira enegrecida, frágil, que se quebra com um simples sopro. Assim são os sonhos e a realidade. No sonho tudo é possível! Desde voar até aquela camisa de seda que o “tempo” não permitiu a compra. O sonho é nosso reino particular. Nele só aparece que nós queremos. O pesadelo é quando a realidade é tão cruel, as preocupações são tantas, que invadem o reino, como uma guerra infiel que nos tira a esperança. Mas logo ela passa, logo o reino se apaga.

A realidade é dolorida... No sonho tudo é lindo, leve, mágico, cósmico... Mas quando a chama acaba, vem um frio que dói nos ossos... Uma frustração, uma dor que arde... A realidade arde... A realidade é frágil. Algo errado que acontece, algo ruim que sucede a quebra...Quem dera pudéssemos viver no nosso reino pela eternidade! Lá não tem dor, pestes, pragas, lá tudo é anil e rosa... Nada arde... Mas quem tenta brincar de ser rei todo o tempo acaba se queimando... Não ignore a realidade. Ela é cruel, não pode ser substituída pelo reino anil e rosa. A chama tem que se apagar... É necessário. E se tentares continuar nessa teimosia infantil a chama queima a pele, e a realidade arde em dobro.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h48
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h48
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Manual de instruções

         Rasgue as juras de amor que te fiz... Elas já não valem nada. Queime as rosas que plantei; elas já não têm alma. Chore pelo final, mas chore pouco... Ele não merece tanto. Olhe para a lamina e pense no pior, fique com vontade, mas tenha medo. Fite o por do sol e não entenda o que ele te diz. Sorria, mas sorria com o olhar vazio. Sofra por falta de atenção. De chance, mas não a si mesmo. Esqueça-me, mas sonhe comigo...

         Essa é a receita para uma vida sem sentido. E não se esqueça de jurar amor eterno com os dedos cruzados nas costas.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h45
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h45
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Sinta pena...

A tristeza é tanta que não consigo chorar... Apenas mantenho fixo o olhar no que não posso ter... Rasguei meu coração em um milhão de pedaços e na hora de tentar colar sobraram retalhos pelo chão. Não sei porque ficar...  Só sei que se não tivesse medo já teria ido embora... Tenho vontade de ser de vidro, assim todos enxergariam o que ocorre dentro de mim. Meu peito é um campo de batalha onde a luta não tem fim. Meu corpo se meche sem meu consentimento... Não sinto a água quente tocando meu corpo, apenas o vazio das gotas que caem com receio em minha pele e logo escorrem. Pedaços de sentimentos mortos pelo chão, o som dos cascos dos cavalos na rua lá fora. Parem tudo... Parem os ponteiros dos relógios, e observem a lagrima escorrer no rosto de quem já foi forte... Ela cai eternamente e enquanto escorre, congela... Lagrima sem brilho de tão triste. Já não há vontade de ter vontade...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h42
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h42
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Patchouli

         Quando sinto aquele cheiro, de perfume ordinário misturado com o vento seco me lembro do que já fiz por você, do que já planejei com você, de que já amei você. O aroma que sobe em espirais como o vapor da água quente daquela ducha tomada a quatro mãos me atinge no peito com a força de um golpe de tirar o ar; aroma do perfume que usei por anos e que por medo de senti-lo novamente guardei com carinho atrás do velho dicionário empoeirado. O medo daquele aroma que me lembra os “bons-maus” momentos. Sim, me lembra os dois... Desde as tardes românticas regadas a Cabernet até pratos arremessados na parede com a potencia das lagrimas. Mas o cheiro agora vem com uma nota a mais, a solidão. Aquele perfume que me parecia tão... Companheiro... Agora esta só... Solidão alimentada com noites sem dormir vira ódio...E a cena que me tira a vontade de sonhar se desgasta como uma parede de Veneza. Fique com ela! A possua! Tome-a nos braços como fazia comigo! E eu? Continuarei olhando o horizonte sem nuvens até que o sol vá iluminar outros cenários desconhecidos. Hoje, minha alma é de perfume... Nos lembramos da fragrância e sentimos aquela saudade amarga porque o aroma de verdade foi levado pelo vento.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h34
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 12h12
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diamante picado - 1º texto

Olho para o lado e o vejo dormindo, mas quem sonha sou eu... Como queria ver outros olhos naqueles fechados, olhos castanhos, grandes, que me fitam zombeteiros e não enxergam a malicia dos meus, o desejo oculto, proibido. As idéias pervertidas assombram minha sanidade, porem o sentimento de culpa espanta esse devaneio como o vento espanta as mariposas de uma lâmpada. Elas saem... Entretanto o calor da lâmpada as trás demasiado rápido de volta, infestando minha boca com a vontade de dizer coisas doces... Mas não àquele dormindo ao meu lado, ao outro.

            A chuva cai lá foram titubeando nas janelas como diamante picado. Esta me arranha, me arranca os súbitos sonhos de verão, lava a alma, porem esta quer continuar suja, podre de luxuria. A respiração ofegante sai de meu peito com o susto. Tão longe estou que não me dou conta das gotas de diamante caindo na minha pele quente, me arrepiando os pelos. O rosto daquele me lambe os ombros, me diz sutilezas ao pé d’ouvido. Aquele que não pode passar por meus sonhos, aquele proibido... O qual quero sentir o gosto da boca fina e quente e as mãos dele em meus braços, em meu pescoço. Arrepios me corrompem, a utopia é real de mais... E os diamantes continuam a cair, encharcando a seda fina, colando-a no meu corpo quente... Continuam a cair...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 12h04
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introdução

Primeiramente gostaria de me apresentar. Bruna, 16 anos, artista. Não que eu tenha capacidade o bastante para receber tal alcunha, mas gosto de referir a mim mesma assim.

Agora começarei a jornada de explicar o porquê do blog. Aqui colocarei os textos os quais escrevo com meu pseudônimo, a Leila.

Leila é uma dama burguesa, tem 19 anos e adora ler romances, mesmo odiando os finais. Só se salvam aqueles trágicos, onde o mocinho morre por amor no final. Na frente da população, se comporta como uma lady, porem entre quatro paredes revela sua verdadeira personalidade, se torna um animal selvagem com os instintos a flor da pele, egocêntrica, rancorosa, vingativa, cruel, obsessiva e... Apaixonada. Sua vida gira em torno de sua paixão por Olavo, um cafajeste abastado que a usa quando precisa de caricias. Ela por amor se oferece completamente a ele, acreditando que Olavo a ama. Sua mãe, cansada de vê-la sofrendo, a arranja um casamento com um conde de idade avançada. Esse primeiro texto tem base no 1º dia em que Leila se deita ao lado do conde Manuel de Macedo, de 50 anos.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 11h59
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