
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h37
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Querido diário, Hoje fui até a manicure fazer as unhas do pé quando olhei pela janela de vidro blindex imensa que dava para a rua e vi uma mulher esfarrapada com duas criancinhas, uma em cada mão, berrando descabeladas. Olhei com bastante atenção seus olhos fundos, perdidos numa desesperança oca... Enquanto a mocinha jovial me contava as novidades da novela que ignorava completamente, me tomava à alma o gosto do desgosto daqueles três seres. Gosto de terra... Gosto de lagrimas... Fiquei pensando, ao ver aquela cena o quanto EU contribui para que aquelas três almas estivesse na rua, sem lenço nem documento. O que EU teria feito para contribuir com tal mediocridade ardida. Não podia crer que o ser humano se conformava com tal visão. Com tal gosto. Se é que sentiam o gosto... Penso que, na verdade, eles se incomodavam sim. Incomodavam-se com a mãozinha pequena, suja que puxava suas calças, na esperança de ser notada. Incomodavam-se com a verdade puxando delicadamente o tecido caro, com um quadradinho contendo um nome o qual não entendiam. Preferiam que aquela verdade fosse afogada em meio ao colorido mar de marcas, naquele liquido grudento e doce, que puxava o rosto num sorriso forçado. Que delicia comprar meu deus! Aquele quadradinho vale um mês inteiro de trabalho! Ou melhor! Vale uma VIDA de trabalho daquela verdadezinha ali, puxando a sua calça. Ela esta puxando... Você não vai olhar? Jura que vai continuar andando sobre seus saltos caros? Eles te fazem tão melhor assim? Explica-me; por quê? Porque esse nome na sua calça jeans te faz tão alto? Porque ergue teu queixo quando usa essa camiseta com qualquer coisa estampada? Porque não coloca na estampa de tal camiseta uma foto dos três esquecidos? É a marca que te faz tão feliz, a ponto de por fora de seu corpo tal responsabilidade? Pode ser... Realmente, delicioso é usar seu corpo como um outdoor, jogando na cara de tais pobres coitados que dinheiro para comprar um pano com nome você tem! Agora para tirá-los de lá você infelizmente “fica devendo hoje senhor. Vá com deus”... E é assim que reflito querido diário... Vale a pena? E vale a pena dizer isso em suas folhas se me olho no espelho e me vejo usando uma jaqueta com três listrinhas que, com seu preço pagaria setenta refeições a esses três? Posso dizer tudo isso estando EU, ao ver tal cena, com os pés mergulhados em água cheirosa fazendo minhas unhas? Posso EU fazer alguma coisa meu deus? E volto naquele dilema lá em cima: o que EU teria feito para contribuir com tal situação? O que eu faço? Eu VIVO... Eu COMPRO... Eu EXISTO no sistema. Sistema que exclui quem não COMPRA. Sistema que exclui quem não VIVE, pois hoje meu querido, comprar é viver! E novamente, exclui quem não EXISTE. Aquela mãozinha puxando sua calça de marca não existe meu caro. É fruto da sua imaginação. Na tevê não tem mãozinha. A mãozinha não usa Carmim. A mãozinha não compra no Carrefour. Então ela nem está ai, ela nem existe. E sabe o que eu fiz, querido diário? Eu fiz aquela mãozinha existir. Levantei-me, descalça e com os pés encharcados, sai como um furacão pela porta de vidro blindex. Atravessei a rua. Peguei aquele ser no colo, puxei o outro pela mão e pedi a mãe que me seguisse. Puis a pequenina do meu colo na cadeira em que me encontrava e depositei seus pés, pequenos, mas tão vividos na bacia prateada com água cheirosa. Na outra pequena alma, vesti minha jaqueta de três listras. E na mãe, enlacei os braços num soluço úmido. Pedi perdão. Amaldiçoei o sistema podre. E ali fiquei, observando as três existirem. Observei pela primeira vez os olhos, antes sorridentes das propagandas ambulantes, fundos, perdidos numa desesperança oca. Elas sentiram... Sentiram o gosto. Pode não ter sido muito querido diário. Mas parou de arder. E agora olho meus pés, descalços no chão e sorrio. Agora, creio que existo de fato. Dia longo esse querido diário. As marcas, os nomes são inevitáveis. Mas deles pode ser feito algo útil. Desejo do fundo da alma que outros esquecidos existam de agora em diante. E se não permitirem, eu permito por eles. Bem, tentarei... Já que não permitem mais a minha entrada no salão. Uma pena... Mas afinal, quem precisa de tinta vermelha nas unhas dos pés?
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h36
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h34
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Ipê branco As flores brancas caiam na calçada, vindas de lugar nenhum. Passos destoantes desviavam das rachaduras no chão, a sensação fria de sair do ruim e se dirigir ao pior. Se pudesse parar ali e esperar o tempo passar, ela faria. Mas a responsabilidade dos homens não permitia que nenhuma das vontades se realizasse. Mas, pensando melhor, não havia vontade. Não havia sequer vontade de ter vontade. A única sensação que movia o corpo era o vazio, o precisar de algo que nem ela conseguiria nomear. Só possuía a certeza de que precisava. Queria sentir... Queria sentir algo por alguém... Queria alguém para sentir algo por ela... Apenas sentir... Se ela pudesse congelar os relógios ali, de pé, o faria. Os passos retiravam e levavam a garota de lugares os quais não queria estar. Queria apenas alguém que se importasse. Alguém para se importar. Sentia falta do amor. Não de amar alguém, do amor em si, das sensações que o mesmo trazia. Continuava andando, cada passo doía no corpo. Os olhos abertos ardiam vermelhos, mas secos. Não tinha motivos para derramar lágrimas, estes faltavam. Na verdade, havia sim um luto, uma perda... A perda do sentido. O sentido dos passos. O sentido da dor. Não existia motivo para ter motivos... Não existia existir, apenas a respiração oca e úmida que machucava tamanha inutilidade, tamanho desperdício. Os raios de sol se confundem. Cores demais, calor demais. O brilho embeleza ironicamente a cena. O movimento retilíneo uniforme da caminhada até lugar algum tende ao infinito. Os pés quase flutuam tamanha a falta de peso da alma lisa. Os olhos sempre fitando um ponto à frente e abaixo não notam os faróis se aproximarem rapidamente, até tocaram seu corpo. O metal frio do automóvel entra na lateral de seu corpo. O rosto se espalha na rua, o corpo escorre pelo ralo. Gosto de asfalto. Gosto de morte. Logo uma multidão brota ao redor do corpo, assustada, curiosa, atenta à morte afogando-a devagar. Os olhares a tocam. Como dedos. Sentiu... Alguém notou... Alguém se importou... E nas respirações finais, ardidas, sorriu e chorou. Sob os holofotes foi notada, foi sentida. O sangue pintou o sorriso. Se soubesse o prazer da sensação teria a buscado mais cedo, mas o inesperado apenas a deixou mais bela. Foi amada por uma multidão. O tempo parou. Parou ali. Congelou a sensação eternamente. Morreu de olhos abertos. Vermelhos, mas regados por lagrimas desta vez, com o motivo finalmente encontrado. Morreu rodeada por flores brancas que caiam de lugar nenhum.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h31
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h29
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Olhos abertos e mãos gélidas Na mesinha do pequeno café amadeirado, batia as unhas num ritmo linear, quase irritante. Seu cabelo, preso num coque solido e preto brilhava de forma úmida, o jaleco branco impecavelmente limpo doía nos olhos. As mãos ainda fediam a látex e talco das luvas amareladas, mas o cheiro era quase agradável a ela, lembrava o lar que nunca teve. Observava o café esfriar lentamente. Gostava das coisas frias, achava o toque mais humano. Os pombos a aplaudiam enquanto levantavam vôo rapidamente com o correr de uma criança, seus dedos firmes tocavam a xícara minuciosamente, o suficiente para movê-la em círculos no mesmo lugar. Olhava ao longe a bela estrutura óssea de um jovem que atravessava a rua em um trote rápido, escapando da impaciência sobre rodas. Sua espinha a chamou atenção. Era a mais ereta que já havia visto em anos de trabalho. Devaneou devagar ouvindo um saxofone ao longe, desejou que estivesse perto para poder presentear o ser vivo com uma moeda. Mas seu horário de café já havia se esgotado em alguns segundos, precisava voltar ao lar. Seus parentes a esperavam. Atravessou a rua aproveitando o sinal rubro que não parou coisa alguma, dirigiu-se com destreza pelas calçadas disformes. O café era próximo, chegou no tempo em que desejava, de acordo com seu perfeccionismo. Passou pelo portal do hospital retribuindo apenas em pensamento o aceno simpático do senhor que cuidava da recepção. Desceu as escadas com calma, acariciando o corrimão gelado. Tão agradável... Passou pela porta dupla com grandes quadrados de plástico, depositou a bolsa em um pequeno armário de metal prateado barato ao mesmo tempo em que alcançava as luvas amareladas com a outra mão. Vestiu-as com cuidado. Não queria que seus parentes pensassem descuido de si. Com cuidado, abriu uma das grandes gavetas de metal que se estendeu em uma grande plataforma. Dentro dela estava um grande e maciço parente, com um imenso corte em seu pescoço, causa da morte com toda a certeza. Seu tom já azulado o deixava com a expressão calma, oposta ao que deve ter passado em seus últimos instantes. Pousou a palma da mão em seu peito. Frio. Sentiu-se amada por um misero instante. Sorriu. E com toda a calma buscou seus instrumentos, iniciou a autopsia. Olhava para o interior daquele cadáver imaginando quantos amores ele pode ter vivido. Se possuía filhos. Se havia recebido um beijo na testa da mãe antes de sair de casa. Imaginou seus olhos abertos, fitando um por do sol. Sentiu por um instante as emoções daquele ser, viu seu coração em sua frente, tento a certeza de que ele existira, de que aquilo bateu um dia. Enquanto dissecava seus músculos, imaginava as partidas de futebol que talvez tivesse ganhado. A pele cortada se separava como uma rosa desabrochando, o tom vermelho, delicadamente desbotado dava a imagem tamanho zelo... Após cortar e observar o interior literal daquele homem que um dia vivera, o fechou com linha e agulha. Com carinho, cerziu sua pele, juntou as pétalas umas as outras fazendo único novamente o peito de seu querido parente. Sentia-se no direito de fazer parte daquele ser, de amá-lo por algum instante. E sentia-se amada por aquele corpo frio, que sorria a ela em seus pensamentos, agradecendo aos cuidados, talvez únicos que recebera na vida. Naquele momento, aquele corpo teve alguém para sentir sua falta. Alguém que soubesse seu valor, que apreciasse sua vida esgotada. Aquela massa fria, pesada, pode finalmente descansar, pois sabe do fundo da alma que alguém intercede por ela. E as mãos impermeáveis e firmes do corpo quente terminavam o cuidado. Puxavam o tecido fino aos pés do corpo, cobrindo-o com zelo. E fechavam a gaveta devagar, despedindo-se daquela historia. Ao ouvir o clique da gaveta, fechou os olhos devagar, absorveu o ar com o cheiro tão familiar de formol. Fechou os dedos no puxador da gaveta ao lado, puxando com cuidado. Ao terminar de se abrir, havia na plataforma uma pequena parentinha, cabelos dourados e longos, pele alva, ainda rosada. A boca arroxeada revelava o mortal envenenamento. Olhou-a com carinho de mãe, pousou a palma da mão em seu peito, sentindo o frio tão humano. E iniciou o carinho nela, da mesma forma que fez no anterior. Sem mais nem menos zelo ou cuidado. O mesmo. Eram seus parentes, todos amados na mesma intensidade. Sentiu-se honrada, privilegiada por ser tão amada após uma vida de sofrimento e solidão. Os pais foram acariciados por algum outro doutor no passado, há vários anos. Criada por si mesma entendeu onde encontraria sua família logo no enterro de seus pais, quando pousou a mão na testa de ambos. O frio a confortou de tal forma... Sentiu a vida naqueles cadáveres de forma tão intensa... E decidiu ali o que faria por amor. Sentiria a vida na morte. Cuidaria de seus parentes no momento de maior existência deles. E ali encontraria e retribuiria o amor. Até os últimos dias de sua vida, quando seria cuidada por outro alguém, zelaria por seus queridos com todo seu coração. Depois de terminadas as caricias do dia, retirou as luvas avermelhadas, manchadas com historias. Pescou sua bolsa sobre o móvel gelado, passou pela porta dupla plástica, deixando o IML e subindo as escadas devagar desta vez. Chegou a casa sem perceber, depositou a bolsa no sofá feioso de corino vagabundo, buscou um copo d’água. Ligou a televisão no noticiário mais sensacionalista do horário. Assistiu a mais parentes seus sendo apresentados, sentiu ansiedade pelo amanhecer, quando os encontraria. Escovou os dentes, vestiu qualquer coisa leve, deitou seu corpo na cama, olhando para o teto antes de fechar os olhos e desejar sentir em seu corpo aquele frio, tão vivo. Adormeceu. E sonhou com olhos abertos e mãos gélidas correndo num campo florido. Desejou nunca acordar.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h26
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h24
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Verso, nas curvas. Eu achava cômico, quase trágico. Era quase um ritual, penso que algo com certa magia para ele, pela sua expressão estúpida no rosto. Chegava do trabalho e logo ia me livrando das pequenas cadeias que eram minhas roupas, cintas de castidade, camisas de força. Trabalhar com terninhos deveria ser proibido por lei, não há coisa mais desestimulante do que ter seus movimentos segurados por gravatas e botões. Assim que me via livre de cada peça de roupa, respirava fundo e sentia o ar nos meus pulmões pela primeira vez no dia, gelado, como um gole de vivacidade. Sensação única de completude. Retirar os saltos altos e pousar os pés no chão morno se assemelhava a um orgasmo, esticar cada nó formado pelos costumes dos homens. De tão preocupados com as normas e moral da sociedade, deram passos pra trás. Neandertais... Mas voltando ao pseudorritual. Meus dedos coçavam pela sensação divina do couro, de passar os dedos por aquelas páginas amareladas e sentir seu cheiro... Livros são os melhores parceiros sexuais que alguém pode ter e isso é um fato. Meu corpo se encaixava no sofá com dengo para iniciar minha leitura liberta. Tudo estaria certo, se não fosse a sensação incomoda de ser tocada pelos olhos enormes daquele garoto. A janela do prédio a frente estava sempre habitada por aquele corpo curvado, cheio de espinhas. Nunca compreendi ao certo tamanha necessidade de observar minhas leituras. Ok. Entendo que estar nua para a execução das mesmas se encaixa em um motivo, mas não há resquícios de sensualidade em um ato tão rotineiro como esse, há? O que vêm aparecendo nestes pornôs de hoje em dia? O garoto estava obsecado pelo meu virar de paginas, ele poluía meu momento de maior paz. No inicio o incomodo era voltado para a invasão de privacidade, mas após tanto tempo de observação, comecei a me sentir cúmplice daquele voyeurismo juvenil. De certa forma, me sentia sensual em ser desejada em um momento tão meu, tão aberto em existência. Ser desejada nas ruas, por serventes de obra é algo de tão supérfluo que já não conta como elogio, é algo como obrigação de certa forma... Mas ali, em um contexto onde nenhuma defesa estava de pé, onde meus muros estão caídos... Deveria ser amor. Aqueles olhos imensos observando cada movimento do meu corpo e as mãos rápidas em sua escrita, como se descontasse no papel seu desejo em me tocar. O que raios estaria escrito naqueles versos? Um dia, chegando do trabalho, fui cruel com ele. Sei que não deveria, mas não resisti, meus instintos sádicos falaram mais alto e pularam minha educação como ovelhas pulam cercas nos sonhos. Percebi que o deixei completamente sem chão com minha fala rude. Ele parecia tão pequeno com aquela sacola de padaria nas mãos, tão indefeso... Seu movimento no tabuleiro de xadrez mal teve tempo de existir e já o podei como um bispo esmaga um peão. Senti-me tão mal pela conduta ranzinza que resolvi transformar os sonhos deste garoto em realidade de uma forma a qual ele nunca sonhara. Assim articulei meu plano de ataque. Seus dedos finalmente tocariam algo mais do que papel áspero e seus versos percorreriam outras folhas, curvas e quentes. Mal podia esperar por sua tinta percorrendo cada centímetro de seu objeto de desejo: Meu corpo. O dia do ataque chegara. Preparei-me articulando cada detalhe e aguardando a reação do poeta voyeur, desejando-o, pela primeira vez, como ele me desejava. Atravessei a rua andando devagar com os saltos altos cutucando o asfalto, o casaco longo bailando por entre minhas pernas. O vento passava por baixo dele e tocava minha pele, livre e escondida. Escondida por culpa dos homens e de suas cobranças burras, mas o que poderia fazer? Presa, não poderia ser escrita pelo poetinha sem vergonha. Entrei em seu prédio, ambiente desconhecido, mas ao mesmo tempo tão comum... Era como se, em seu desejo, eu já habitasse aquelas escadas de pedra fria, como se já tivesse subido cada degrau e esquentado o mesmo com minha pele em sua imaginação. Chegando a sua porta, me senti ansiosa, mas inesperadamente, em casa. Aquele caminho já havia sido feito por mim outras vezes, dentro daquela mentezinha adolescente pervertida. Bati na porta. A madeira gemeu baixinho, e os passos em direção à porta me fizeram gemer junto, sentindo os toques em potencia, sentindo os versos me percorrendo e uma leitura a dois em voz alta. Assim que a porta se abriu, os olhos grandes do garoto se chocaram nos meus com a força de um trem descarrilado. Senti o impacto de sua surpresa no meu corpo como um empurrão. Ri por dentro, me sentindo uma rainha prestes a ser comida no tabuleiro. Abri com um movimento brusco e rápido o casaco, mostrando a ele bem de perto o objeto tão descrito em seus versos. O corpo nu fora tão observado que já possuía os caminhos percorridos pelos olhos do garoto, desnorteado pela visão e pelo inesperado. Seus olhos se arregalaram de tal forma que me senti ainda mais nua por baixo daquele casaco. Esperei. Esperei. As mãos do poeta não largavam a maçaneta da porta, o que começara a me irritar. A rainha ordenou, a rainha fez seu movimento! O peito do poetinha se encheu de ar. O meu também. Os olhos se abriram juntos em uma mescla de sensações. Quando, finalmente, seus lábios se abriram e, para minha surpresa, acompanhados de lagrimas e de sobrancelhas franzidas, soltaram aos berros: - VOCÊ ESTRAGOU TUDO! O que vi em seguida foi uma porta grudar em meu nariz, parando a centímetros do meu rosto e deixando o vácuo no lugar da minha dignidade. Estava eu, nua, congelada feito um às de paus na porta de um adolescente tarado que se recusara a tocar seu maior objeto de desejo. Esperei meu sangue e a vergonha percorrerem meu corpo, esquentando cada extremidade do mesmo. Quando dei por mim, já estava em casa, pinicando com a vergonha e com o casaco tocando a pele. Olhei pela janela, buscando os olhos grandes e a tinta, os versos. Dei de cara com a cortina fechada. Acabou ali. Rasguei os poemas. Respirei fundo e compreendi a tremenda estupidez que havia feito, transformando a imaginação em ação. Tudo o que ele queria era desejar... Quando viu tudo aquilo na sua frente, a aquarela pintada escorreu em gotas de chuva, dissolvendo toda sua fantasia. Rasguei os poemas... Nunca mais senti seus olhos percorrendo meu corpo. Tudo que eu tinha agora para me observar era a cortina cinza na janela à frente. O luto foi maior do que eu esperava. Senti na pele a falta dos olhos do poetinha me tocando, me auxiliando a existir. Voltei a ser apenas aquela, presa em terninhos e numa existência tosca e comum. A leitura livre continua. Mas seu sentido morreu um tantinho, sem a plateia cheia de espinhas. Transformar a fantasia em realidade, afinal, matou o verso. E quem sofreu pelo desejo faltando fui apenas eu. O poetinha certamente encontraria alguém para observar em alguma outra janela da cidade. Mas eu não encontraria tão fácil outro alguém para me tocar com os olhos enquanto existo, para significar aquele momento meu. Pena... Rasguei os poemas... Rasguei por subestima-los em sua fome de ser.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h20
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h37
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Cimento
É comico o fato de vivermos anos e anos perdidos. Como existimos por segundos intermináveis até que, de repente um ultimo suspiro, que deveria dar sentido a tudo, desce como um machado em um delicado caule de flor, completando a certeza de que não há certeza alguma. Num momento qualquer do dia, acabamos por nos descuidar e chocar nossos olhos com os de um desconhecido qualquer. A sensação de roubar da pessoa seus pensamentos mais intimos e, pior, ter os seus roubados é nauseante. A rapidez com que se desviam os olhos é suficiente para que não tenhamos noção da dor. Mas o mais aterrorizante é quando nossos olhos se chocam com os do maior desconhecido de todos. Quando, num momento de descuido, fitamos uma vitrine qualquer, uma janela perdida e nos deparamos com nossos proprios olhos. O mais cruel deste encontro é que não há desviar, não há fuga. Rouba-se até o ultimo fio, a mais escondida particula de pensamentos sordidos que escondemos no fundo d'alma. Escondemos porque não queremos encontrar. E no chocar de olhos, temos lançadas a face todas as pequenas mentiras que contamos a nos mesmos. Chega a ser divertido... Mentimos porque a verdade é demasiada feia pra nos fazer sorrir. Aquele sorriso vazio, costurado e que logo derrete, escorre no rosto como as gotas de chuva na janela do carro. Sorriso de boca. Facil de dar. Existimos por tantos e tantos segundos sem nos darmos conta do quão sem sentido tais momentos são. Dias dos quais nem nos lembramos de ter vivido. Tente de lembrar do aniversário de casamento dos seus pais, da ultima vitória do time de Volei Brasileiro... Tente se lembrar da ultima vez em que tais pensamentos o perturbaram... Dá a ideia de que a vida fora um programa de televisão que saiu do ar. Mas por esperança, a tevê permanece ligada. Fica só aquele zunido cinza, ardido... Fazendo lembrar que aquilo um dia teve cor. Se é que teve. Temos uma capacidade incomparavel de tornar o passado novelistico, macio. Gostamos tanto de repetir incessantemente que naquele tempo era diferente. É mais confortavel, da margem a utopia de que poderemos ser aquilo novamente. Ouvimos uma melodia esperançosa, lemos frases positivas, assistimos a filmes romanticos e doces. Esmurramos a mesa prometendo que as coisas irão mudar! Conseguimos nos iludir com as deliciosas cores esfumaçadas que turvam a visão por instantes, enquanto dura a onda, a viagem. No outro dia, apos uma noite de sono e sensatez, a fumaça colorida se dissipou, largando a ressaca, o concreto cinza em nossos olhos. A sensatez, como o homem da areia, taca cimento em nossas palpebras, mantendo-as abertas e alertas, a espreita de qualquer vestigio de sonho, de esperança.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h34
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 13h52
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Bic azul sem tampa
Escrevo para não matar. Escrevo para não morrer. A cada dia que me arrancam coisas, que me defloram o pouco que me resta, coloco no papel os traços incompletos que ainda me fazem ficar de pé. As descrições, as formas, os gostos, os cheiros daquilo que um dia senti. Penso. Faz tanto tempo que não sei ao certo se senti tudo aquilo. O talento em falar daquilo que não conheço me surpreende. Descrever o invisivel. É como por no papel cada detalhe do Taj Mahal sem nunca ter visto sequer uma imagem do mesmo. Ainda sim, a descrição arranca lágrimas. Mesmo assim. Consigo fazer com que todos aqueles que me arrancam coisas sintam as lágrimas emocionadas, sintam a beleza das palavras quase corporeamente. Observo seus rostos se contorcerem num sorriso, o arrepio da sensação escrita percorrendo seus corpos. Ironia tamanha o fato de quem escreve não sentir nem a brisa vinda da janela. Escrevo com as mãos leves. Para não me convencer. Para não furar o papel com o peso. Escrevo para não matar. Para não pegar de volta aquilo que me tomaram. E so agora percebo que o pouco que me resta dos saques, acabo doando àqueles que me arrancaram tudo. Parei no tempo para digerir, mas engasguei com a dor. Será que o odio chega a tanto? Será? Escrevo para não matar. Escrevo para morrer só mais um pouco. Um pouco mais a cada dia. Pelo ralo escorro. Pela tinta da caneta. Pelos ouvidos daqueles que me roubam sou tragada. E se aproxima cada vez mais... O dia em que o resto não preencherá mais o traço da caneta quente em minhas mãos. O dia em que o resto não for suficiente. O dia em que a caneta falhará. O luto será só deles. Apenas deles.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 13h48
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Série: Pequenos
A dama, colorida, levando pela mão a melodia por ela composta. A tatuagem com carpas e flores coloridas nas costas, sob a regata branca emociona, pinta a visão. Pela mão, conduzia um pequeno, de cabelos bem pretos que mal alcançava seus joelhos. Coloriu meu dia. Como a tatuagem coloria a dama. Musicou. Como o pequeno deu o tom. Melodia e cor, andando de mãos dadas a minha frente na calçada, em plena quarta feira. Sorte.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 02h35
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Série: Pequenos
A calçada vestia os pés da atriz séria, de pensamentos rápidos demais para serem aqui narrados. Desviou intencionalmente de uma pequena e amarela flor, caída no cimento, enfeitando-o. Após o feito, se arrependeu de não ter esmagado a forma colorida com a sola de seu tênis. O ato assustaria mais a platéia que assistia sua caminhada. Mesmo a platéia inexistindo, consistindo apenas dos próprios olhos da dama. Quem sabe o teatro a convenceria desta força atuada, desta falta de afeto pintada em seu corpo? O que ela mais desejava era acreditar que não tinha alma.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 02h34
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Série: Pequenos
Lembro da inscrição da porta do banheiro daquele restaurante que nem existe mais. 1996... Onde fui parar? Chorei o luto da minha infancia. Só respiro hoje o que antes me parecia tão distante. Respiro a areia da ampulheta. Aquela, que não me lembro do gosto, pois não existe mais. O tempo escorre por debaixo da porta. Preferia a inocencia à certeza academica da morte. Não tem volta.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 02h33
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Série: Pequenos
Via nos cadáveres nas mesas frias o que se tornaria. Via sua potência. Solida. Eterna no seu fim. E o sentido, onde fica? A causa é, afinal a conseqüência. Ou algo assim. O formol confunde as cores de tudo, só me deixa a certeza de que não há certeza alguma...
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h09
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 21h23
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Exame
O sol fustigava os cabelos curtos. Fazia evaporar a água e largando o sal na pele. Passos pesados queimavam-lhe as pernas, ombros caídos, doloridos. Nada de beleza, nada de sensualidade. Apenas a pele oca em forma de mulher. Expressão nenhuma na face. Uma mediocridade seca, daquelas que aperta a garganta. Olhar profundo, como um túnel escuro, sem brilho. Um corpo. Um peso. Um asco. Dois cavalheiros, do outro lado da rua a comiam com os olhos, pensamentos porcos. Ela sentia os olhares como sentia o asfalto. Sólidos. E os ombros se encolhiam mais. As trompas pesavam no abdômen, puxavam para o chão. E cada desejo obsceno passava por sua mente, complexo de Bentinho. Eles só pioravam... Não é culpa dela... Ela não pediu aquelas formas. Não pediu a carne sobrando, esticando o jeans. Mas não importava. Aquilo já era motivo suficiente para os doutores imaginarem seu corpo nu, jogado em lençóis de linho vagabundo. E ela não podia fazer nada. Absolutamente nada. Apenas olhar para baixo, desejando que a terra a engolisse. Asco. Mas não todo dos senhores ali, e sim dela. Das formas dela. Se não fosse mulher, não teria que suportar essa humilhação. Odiava do fundo da alma os seios pesando nos ombros, o útero vazio ocupando seu corpo. Sexo frágil... Milagre de gerar vida... Grande merda... Belos e meigos pedaços de carne. Não era bonita. Não se sentia bonita. Mas as cansadas e roliças pernas a denunciavam. Rosto? Que importa, olha aquelas pernas! Ninguém pode penetrar na sua personalidade. Ninguém pode despir seu diploma. As musicas que ouve, os instrumentos que toca. Mera fuga. Os passos aceleram, a expressão na face encolhe. E risadas saem da boca dos doutores, assovios e gracinhas. Medo... Medo de que as gracinhas cresçam a toques... De novo...
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 21h16
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 23h46
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Leitura a dois
Leitura a dois Acho que o dia em que realmente me apaixonei por ela foi aquele em que tomei o maior fora da minha vida. Eu achava fascinante, quase erótico. Ela entrava no apartamento exatamente as 18:12. A cada passo, uma peça de roupa caia no chão. E a cada queda, um suspiro saia do meu peito. Não interessa o fato de que já vi esse ritual mais de cem vezes, cada vez é nova, é surreal. Ela, ao deixar cair o soutien, estalava os dedos e se alongava caminhando até a sacada, num ato de sadismo. Sentia o vento, sorriso fresco nos lábios. Mais que o próprio vento que levava seus cabelos para as costas. Voltava para dentro do apartamento, pegava um livro e lia. Nua. Completamente nua. Sua pele brilha, reflete a luz. Quase comestível. Posso sentir o vento percorrendo seus seios, como um gole de água gelada. As pernas longas se cruzam no alto, confortável pra ela, um soco no estomago em mim. Aquilo me arrancava arrepios de onde eu nem imaginava que poderiam sair. Me apodrecia os sonhos sempre. E me acelerava o peito toda vez que a via saindo de carro, na garagem do outro lado da rua. Eu já havia perfurado sua intimidade tantas vezes que achava normal. Sentia-me seu amante. Aquele espetáculo era apenas e somente para mim. Sentia nos meus ossos que ela sabia que eu a observava. Fazia de propósito. Crueldade, Jesus... Meus dedos longe daquelas costas. Contentar-me com a folha de papel áspero onde meus versos vagabundos habitam. Versos pra ela, obvio. Que ela nunca leria. E eu nunca assistiria. Naquele dia, nos esbarramos na saída dos prédios, pela primeira vez. Ela saindo a pé e eu voltando da padaria. Medíocre. Mas mesmo com um saquinho de pão ridículo nas mãos, me senti forte. Sou seu marido, seu amante. Me aproximei e perguntei: -Afinal... Porque você faz questão de ler nua toda noite? Um sorrisinho de pedreiro contaminava meus lábios. Esperava uma risada tímida, porem feminina, um convite para entrar e uma leitura a dois em voz alta. Minha imaginação maquinou aquele momento por horas, sabia exatamente cada linha daquele espetáculo. Mas para minha surpresa e vergonha, ela diz, como se respondesse uma questão de matemática: -Porque é confortável... Virou as costas. E foi embora, virando a esquina. Improviso infeliz... Se eu pudesse me enterrar ali, me enterraria. O vexame pinicava na roupa. Sentia cada osso do meu corpo gelar, o suor percorria a testa, vermelha. Tudo que consegui fazer foi atravessar a rua, entrar pelo portão do meu edifício, subir pelo elevador, entrar em casa e me jogar no sofá. Que nojo, que nojo de mim. Mas no fundo daquela vergonha, algo tentava se desenterrar. Subia pela pele, arrepiando os pelos. Eu não sabia o que era, mas era quente. Desejo. Naquele dia... Naquele dia, ela não me saiu mais do pensamento. E eu não saí mais da sacada.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 23h45
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h02
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Doce Brilhava como um doce. Um doce daqueles de grudar nos dentes... Seu casaco ondulava docemente no vento. As pernas compridas e finas deixavam um ar desengonçado, e o sorriso congelado no rosto era contagiante, erguendo as bochechas rosadas e fazendo fechar os pequenos olhos orientais. Cabelo preto, cortado linearmente, formando uma tigela infantilizada, preta, brilhante e lisa. Perfeitamente inofensivo. O parque estava ensolarado, o céu azul sólido. Crianças corriam e gritavam de forma estridente, senhores passeavam com os cachorros. E havia casais... Muitos. Jovens, velhos, casados, noivos, apenas namorando. Sempre sorridentes e sempre colados. Como os casais chamavam a atenção do pequeno japonês. Adorava-os. Observava, com seu sorriso congelado no rosto. As mãos nos bolsos, o vento cortando a pele. E era assim que começava seu dia. Com a escolha de um casal premiado. Ela com olhos azuis, cabelos pretos bem compridos. Ele cheio de espinhas, ruivo, exótico. Eram aqueles dois. E ponto. Começou a caminhada até um prédio antigo, caindo aos pedaços. Entrou pelo portal de vidro lascado e subiu as escadas longas até o mirante abandonado. Foi em direção a um dos cantos, onde se encontrava uma maleta de corino vagabundo. Abriu-a, assoviando. Os olhos aparentando sempre estar fechados. Tirou dela algumas peças brilhantes e montou-as com destreza, enganando no quesito ‘desengonçado’. Appassionata III dedilhando nos seus tímpanos. A musica o fazia balançar os ombros infantilmente. Observou a obra montada, orgulhoso. Apontou o rifle até o parque, onde estivera andando há alguns instantes atrás. Encontrou a massa laranja grudada ao rosto cheio de espinhas. Observou pela ultima vez o sorriso da dama, pois seria o ultimo do dia. E com a delicadeza de uma bailarina, estourou os miolos ruivos, espalhando-os pela grama verde e fresca. O sangue brilhava como um doce. Um doce daqueles de grudar nos dentes... O grito bestial da dama encheu seus ouvidos, arrepiou os pelos do braço. E appassionata entrou na parte rápida, fazendo sua cabeça balançar de forma retardada. Ainda assoviando, desmontou a arma, o sorriso intacto, os olhos quase fechados. Não queria perder o espetáculo. Apressou o processo. Depois de ouvir o estalar das travas da maleta, desceu as escadas num trote rápido. Parou na calçada e observou, de longe, o escândalo da dama, o pranto enlouquecido, a expressão de dor profunda. Lindo... Sua garganta se encheu com algo quente, a sensação de que uma gargalhada fosse sair, vomitada dali. O teatro acontecendo e enchendo sua alma com a mais límpida alegria. Alegria que se repetiria no enterro. Ah... Obra de arte criada pelo homem... Todos de preto, guarda-chuvas abertos sem razão de ser, afinal o sol, irônico, projetava sombras frescas pela grama. A dama em prantos, algum qualquer a abraçando pelos ombros. E o pequeno japonês a alguns passos dali, observando o espetáculo com seu sorriso congelado. A beleza chegava a assusta-lo. Como era maravilhoso observar os soluços brotando do peito. Podia sentir a dor amargando a garganta. A tristeza era a mais bela pintura a ser observada. E ele queria mais. O mesmo parque, a mesma grama, fresca e gelada. Perfeito tapete para receber fragmentos de carne. O casaco ondulando com a brisa, as pernas deslocando-se sem simetria. O sorriso imóvel. O casal premiado logo seria escolhido. Como a alegria deles chamava atenção do pequeno homem. Estavam ali, sentados sobre uma toalha. Ela, alta, cachos loiros na altura dos ombros. Ele, forte, moreno, olhos grandes. E os dentes brancos a mostra. Eram aqueles dois. E ponto. A escada parecia infinita. A ansiedade de ouvir os gritos agudos lhe comia os dedos. Se bem que... Porque não gritos graves dessa vez? Montou seu brinquedo, os dedos brancos tremendo com excitação. Pela mira, observava a moça. A pele rosada, com certeza macia, comeria a bala, a afagaria com calor. O pescoço era longo, levemente pálido. Era ali. Apertou o olho contra o metal gelado e alguns instantes depois, belos cachos loiros se tingiam de vermelho. Arrepiou longamente ao ver as mãos grandes sacudindo o corpo inerte da pequena. Desceu quase correndo os degraus, chegou a calçada e, novamente, observou seu espetáculo, a cena mais esperada. Quando ela morria era diferente. A amargura se mesclava a ódio. Homem não chora, homem ruge. Interessante. Mas não tanto. O enterro foi maravilhosamente melancólico. A mãe da dama de desmanchava em lagrimas geladas. E ao depositar o caixão fechado, o cavalheiro esmurrava-o, prometendo vingança, como se isso diminuísse o sofrimento de algum dos presentes. O efeito era o contrario, aumentava o prazer doente do oriental, aguardando no canto esquerdo o fim da peça. Mal conseguia dormir, aguardando o amanhecer e o sol, isca perfeita para casais. Sorrisos, escadas, sangue e lagrimas. Praticamente um café da manhã. Sua alma precisava, era seu alimento. Estava com fome. Aquele dia amanheceu chuvoso. Droga... Casais não gostam de sair na chuva. Mesmo assim, fez seu caminho até o fatídico parque. Ao se aproximar, seu sorriso costurado se aumentou levemente. Um casal... Apenas um... Andando sob a garoa. Lindo. A melancolia da água junto aos prantos de um cavalheiro. Nem esperou para observar melhor a cena, galopou pelas escadas, escorregando às vezes. Chegou na platéia da sua peça. Montou com rapidez o rifle, a ansiedade fazendo a mão estremecer. Meteu o olho pela mira e observou a dama. Japonesa... Cabelos negros, levemente úmidos com a nevoa fina que caia. Um sorriso pequeno lhe preenchia o rosto redondo e rosado. Delicada como uma flor de cerejeira. Esperou. Seu dedo não respondia ao desejo de ver a bela face destroçada na grama. Um grito agudo dessa vez. A mira se deslocou para a esquerda, parou no meio de olhos amendoados, a pele levemente bronzeada, sobrancelhas grossas. O dedo não tremeu, desceu no gatilho como um coice. Explodiu o cavalheiro em cacos de osso. O sorriso aumentou um pouco mais. As mãos suavam de leve. Quando algo fez toda a cor do seu rosto fugir. As bochechas caíram em lábios semiabertos. Não se ouviu gritos. Não se viu lagrimas. Pela mira, seu olho dava diretamente nos olhos da dama. Ela o fitava, através da lente. Expressão nenhuma no rosto, apenas a forma redonda delicada e rosada. Como poderia ter o visto ali em cima? Seu corpo caiu para trás, os olhos finalmente abertos e mesmo assim, pequenos. A respiração acelerada. Sua mente se esvaziou. Seu corpo se desmontou. O cérebro voltou a funcionar num tranco de adrenalina, um desespero prazeroso. Quando apertou o olho na mira, para observar o que acontecia, deparou-se apenas com os restos do crânio partido. Seu coração parou. Movimentou o rifle desordenadamente, procurando a dama. Não a encontrou. O sangue esfriando aos poucos, as mãos gélidas. Um estalo o fez tirar o rosto devagar do visor. Seu corpo não respondia. Apenas a cabeça virou-se para trás. A dama estava ali. De pé, a sua frente. A roupa respingada em sangue. Seus olhos orientais fechados em um sorriso. Congelado... Appassionata III voltou a batucar seus tímpanos. A dama se aproximou devagar. A expressão intacta no rosto, aterrorizante, linda. O medo fedendo por entre a camisa pólo, o suor escorrendo pelo rosto. E um prazer doentio corrompendo-lhe o coração. A dama tombou de leve o rosto, estendeu-lhe a mão. Ele, num espasmo de masoquismo, estendeu a sua. Sentiu seu punho se estraçalhar em centenas de cacos. A dor lascinante lhe fazendo ter ânsias de prazer. O corpo foi levantado devagar pelo punho partido. O sorriso dela, inofensivo. Uma mão, pequena e úmida pousou sobre o seu peito. Sentiu os pés saírem do chão, flutuou delicadamente. A ultima coisa que viu foram olhos fechados, apertados em bochechas sorridentes. Caiu eternamente. 15... 11... Quantos andares tinha o prédio mesmo? Os ombros balançando de forma demente, seguindo o ritmo da musica; Beethoven deveria estar dando risadas. O japonês ria. Ria de forma obscena, doente, feliz. Enfiou-se no asfalto, rachou a calçada. Sentiu cada osso do seu corpo se deslocar, numa dor deliciosamente mortal. Ficou engavetado no IML por um mês. Foi enterrado em cova comum. Ninguém chorou. Ninguém gritou. Os únicos olhos que assistiam o coveiro mal humorado jogar terra sobre um punhado de carne eram orientais, femininos, fechados em um sorriso intocável, num rosto redondo, rosado. Jogou uma flor de cerejeira sob a terra fétida. Assoviou uma canção qualquer. Casais a atraiam também. Mas ela preferia a homens sozinhos. De preferência japoneses. Esperava-os no parque. Sempre apressados; sempre com cabelos da década passada. Quando avistava um exemplar, seguia e o chamava pra ver o parque do alto. Só não avisava que seria em queda livre. O saco de ossos tingiria a calçada com sangue. Sangue que brilhava. Brilhava como um doce de grudar nos dentes...
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h02
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h42
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Café e tinta Não sabia o que era amor. Inocente. Não fazia idéia... Infelicidade era rotina. Tão rotina quanto a dose de café a tarde, ao ler o jornal. Passava os dedos preocupados pelos cabelos ralos. Mas, preocupados com o que? Não tinha filhos para esperar, não tinha esposa para lhe afligir. Preocupava-se com a vida, com o tempo esvaindo-se pelas mãos. A mediocridade dos dias passados lhe fustigava como o sol das duas, fazia encolher os olhos em uma dor desgostosa, assustadora. Incomodava como o zumbir de um inseto. A televisão pintava as paredes da sala morta, branca. O único ponto de vida ali era um cacto tímido. E ele tinha mais conteúdo que o abandonado, arrancando os cabelos com as unhas aflitas. Nem lagrimas tinha mais. Era feito de café e tinta, dos jornais absorvidos pelos olhos e que maculava as mãos, colorindo-as de preto, num ato de ironia inanimada. O liquido negro reclamava em seu estomago vazio. A pele macilenta parecia se quebrar com um sopro. E o vento machucava. Até mais que a solidão. O olhar não tinha brilho. Lembrava um túnel escuro, profundo. Nem se imagina o que poderia sair dali em forma de palavras. 35 anos de morte. Como pode? Olhava ao redor, mas já decorara a sala, desde o teto até o chão. Brancos... Quando, num súbito olhar, absorve algo que não encaixava no quebra-cabeça morto. Pousada na parede, estava uma borboleta preta e amarela, como uma obra de arte. Vida... No meio do mar, terra. Olhou a criatura com a minúcia de um medico. Levantou da cadeira de forma demente e se aproximou devagar, com os braços estendidos em um glorioso desejo inédito. Desejo de toca-la. A esperança comendo-lhe os olhos. Os passos pesados e tortos pareciam eternos até a vida pendurada ali como um quadro. Quando ia toca-la, o ser, assustado, foge de seus dedos com temor, num vôo bruxuleante como uma luz a ponto de se queimar. Os braços esticados como galhos secos ficam flutuando no ar, sem cor, sem vida. Crueldade... a vida foge dele. Ódio... novamente lhe escapa a esperança. Mesmo que... ela nunca existiu. Como um louco, pulou, saltou e atacou a pobre cor. Ela não tem o direito de iludi-lo! De frustrar a solidão branca! As patas do o animal alcançam e esmagam o corpo amarelo e preto, trucidam a alegria, despedaçam a criatura como uma folha seca. As mãos derretem no preto do cadáver delicado, mancham a palma fria. Tinta... banhada a café, derrubado na mesa pelo súbito ataque. Olha ao redor, e se vê sozinho. De novo... Vira-se para a cadeira, se aproxima dela lentamente e se senta com a calma de um aposentado rico. Seu robe de lá xadrez e suas pantufas macias imaginários contornam o corpo quente, ainda respirando aceleradamente. Pega o papel levemente amassado e volta a ler, sem absorver palavra alguma. Passa os olhos pelo jornal, como se passasse por sua vida. E da mesma forma, não absorve nada. Ela não existira. Era apenar um respirar vazio. Sorriu. Riu de leve, subindo os ombros, dando um murro na mesa e esbofeteando a xícara de café, que voa longe e se espatifa na parede, manchando-a com seu sangue preto e aguado. Abaixa a cabeça nas mãos, afundando o rosto nelas, sujando-o de morte. E soluça.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h32
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 21h43
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Katana Jogou-se na poltrona com cansaço. Sentiu um fluido grosso e quente escorrer pela roupa. Merda... Seriam as regras? Foi até o toalete, arrancou a meia arrastão e viu uma mancha rubra sobre a pele, mas ela não confirmou a suspeita, pois o liquido saia de um ferimento aberto, na altura do umbigo. Melhor assim. Odiava do fundo da alma qualquer demonstração, por mais natural que fosse, de feminilidade, de fraqueza, delicadeza... Coisa de garotinhas. Limpou o sangue quente da ferida, sem esboçar mínima expressão de dor, passou qualquer coisa para não infeccionar e, com coragem, pegou a agulha e linha e ponteou a pele, como se fossem meias a serem cerzidas, sem um piscar de olhos, sem um franzer de sobrancelhas. Mesmo sem espectadores, não suportava a idéia de ceder a dor. Terminou a tortura, colocou novamente as roupas e foi em direção ao quarto. Chutou um pedaço de carne que sobrou ali e se deitou na cama. Sorriu. A espada continuava jogada ali ao lado, sobre uma poça vermelha brilhante. Riu. Fácil de mais. Homens são tão manipuláveis, só ver um rabo de saia que vêm correndo como crianças atrás de doce. Tirou algumas gotas de suor da testa com as costas da mão e observou o ambiente. Fedia a sangue e medo. Notou um braço caído por cima do tapete e riu alto, imagine a cara dele quando voltar e encontrar essa zorra! Sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos e mordeu o lábio. Só cinco. Mas já era um bom numero. E o estado deles também contava. Estavam estripados. Heh, a lamina estava bem afiada mesmo. Cortara com destreza. Ao se curvar, sentiu uma pontada no estomago, o corte latejava. Mas, novamente, não demonstraria sequer um vestígio de dor. Só incomodava no momento a humilhação da ferida. Como conseguiram acertar? Sempre fora tão ágil. Nunca levara um corte sequer. Talvez o olhar daquele mais jovem. Uma expressão de terror, um medo infantil que chegou a dar pena na tão insensível assassina. Pena... Sentimento nojento, fraco. Não, não sentia pena. Não poderia sentir pena. Sua vida dependia disso. Joga-se para trás, deitando-se, batendo com força a cabeça no colchão. Pensando bem, que tinha demais em sentir pena? Ela, apesar de tudo, era humana. Mas logo o pensamento lhe é varrido da cabeça pelo ódio que corrompe sua alma. Ela não é humana, nunca seria. Desistindo de pensar, se levanta lentamente, recolhe a lamina melada de sangue, da uma leve sacudida, tirando o excesso de sangue alheio e a guarda na bainha, como quem deposita um filho no berço. Olha em volta de novo, a paisagem, digna de um filme de terror lhe agrada. Ri baixo observando a beleza das manchas de sangue nas paredes, dos fragmentos de carne morta e embebecida em sangue. Os pescoços mutilados com cacos de ossos escapando pela abertura feita a lamina. As pernas quebradas para trás, deixando escapar a rotula por entre um corte profundo, os fluidos se deixando vazar pelo rasgo cruel no abdome. Tripas jogadas como serpentina pelo chão. É... Estava bom daquele jeito. Bem... Surpreendente. Levantou-se e foi desviando com cuidado do cérebro esmagado como manteiga no chão. Os dedos retorcidos do braço sobre o tapete lhe parecem cômicos, quebrara-os com a facilidade de quem quebra palitos de dente. Nem se lembra de quem fora o membro decepado. Saindo, finalmente pela porta, tira do bolso do traje, um lenço bordado. Beija-o com sadismo, deixando uma marca vermelha, como um coração e o joga delicadamente no chão, com o cuidado de errar as poças de fluidos e sangue. Quer o lenço intacto. É sua assinatura. Assinatura de uma artista da morte. Sai andando pela rua como se nada tivesse feito, e no caminho, encontra com o dono do palco do massacre, caminhando em direção da cena principal. Virando a esquina, pode ouvir seu grito de desespero. Gargalha.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 21h38
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 18h55
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Meias Esperando o ônibus hoje de tarde, me deparei com o tédio, e ele conversou comigo. Disse que ouvir musica era bom. Liguei o player e escutei qualquer coisa sem dar o mínimo de atenção à melodia ou batida, sentia apenas o grave penetrando os tímpanos. Irritante. O tédio não tem noção mesmo... Desliguei o som ignorado e percebi que ao meu lado, havia se sentado um senhor de camisa azul, calça branca e chapéu. Perfeito. Praticamente Carlos Drummond de Andrade. Se não fossem as meias. Esportivas, daquelas que se usam com tênis. Olhei... Olhei... Aquele rosto macilento de quem escreve versos ordinários em uma taberna, a camisa azul escura e a calça branca; boêmio. Perfeito. Se não fossem as meias. O ônibus chegou ao ponto, soltando uma fumaça densa e palpável. Adentrei a caixa, sentindo o cheiro de gente estafada, com pressa para ver a novela e deixando o poeta para trás. Sentei-me ao lado de algum fantasma entediado qualquer e liguei o player de novo, ignorando o tédio, que agora dizia que musica não era bom. O tédio é um péssimo conselheiro. Vi uma senhora gorda apertar as meias para parar a maquina... Digo, a campainha, puxando uma garotinha remelenta e barulhenta pelas mãos. Desceram. E eu me dei conta de que nunca mais as veria de novo. Pena? Não... Amanha já teria me esquecido da existência dos seres se não tivesse escrito aqui no papel branco, afirmando a existência delas. Homenagear completos estranhos é bem... Inútil. Voltei a me concentrar na musica, piano, poluído pelas buzinas e barulho das meias, digo, freios. Vozes escalando umas as outras, conversas fúteis que não tinham razão de ser, existiam apenas pela vergonha e pelo medo da solidão e do silencio. Silencio, adoro-o do fundo da alma. Ele é tão profundo, limpo, calmo. Porém a perfeição assusta os normais. Pouca gente no mundo deixa de andar para sentir o vento, o cheiro dele, a lua atingindo com força o peito. Preferem o barulho, desviando a mente de pensamentos importantes, de conclusões. Existir é o maior barato! Super fácil! Pena que eu vivo. Viver é dolorido, demorado. Quando dei por mim, no meio daquele devaneio louco de filosofia barata, metade dos fantasmas já havia descido em seus pontos, fingindo esquecer que um dia conheceram aqueles rostos, jogando-os no limbo, como eu também faria, se não estivesse escrevendo essas meias, digo, esse texto. Cruzes... As meias bailavam em meu cérebro, sapateando nele, como uma dançarina de cancan. Será que o poeta tinha idéia de que aquelas meias teriam estragado o dia de alguém? Que aquelas meias, malditas meias, teriam dado uma bela dor de cabeça em uma garota a qual ele nem conhecia? Merda, ele não tinha esse direito! A imagem estava marcada em minha córnea como um pernilongo esmagado na parede. Canelas finas, semicobertas pela calça branca de linho vagabundo, e as meias... Era como se elas estivessem ali apenas para atrapalhar a vista, como um edifício em cidade pequena. E mesmo que você tentasse, o olhar sempre chegaria nelas, elas eram um imã maligno. Desci da caixa um ponto antes do meu destino, tamanha a raiva daqueles saquinhos de pano medonhos, tinha que andar um pouco afim de esquece-las. Andei uns bons passos a mais do que deveria, isso acabou por me irritar mais, a mochila pesada maculando meus ombros e o calor fustigando minha cabeça. Pelo menos isso me distanciou das meias, momentaneamente. Desliguei o cérebro até chegar em casa, quando dei por mim, estava jogada na cama com as pernas pulsando de dor. Tudo doía. E a culpa desse martírio era daquelas meias malditas! Já nem lembrava mais do boêmio simpático, só as medonhas me vinham à cabeça, bailando sozinhas, balé desta vez. Acho que nunca mais me esquecerei daquelas coisas. Ou pelo menos me lembrarei delas toda vez que ler esse pedaço de papel. E me lembrarei também das duas damas desconhecidas, descendo, perdidas nas ruas, deixando um rastro de toc-tocs dos tamancos de madeira, a mãe gorda e a filha remelenta. Juro que nunca mais homenageio desconhecidos.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 18h53
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h46
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Senhorinha As arvores abraçavam a ruela úmida e confortável, fazendo ligeiras e pequenas sombras, deixando estampadas bolinhas de sol no chão macio, feito de folhas caídas no asfalto negro e brilhante. O vento era inexistente, como se o ar cochilasse entre os passos lentos e compridos de 14 anos. Ela observava as flores nas jardineiras das casinhas coloridas, de onde um aroma doce saia, percorrendo o ar preguiçoso e penetrando nas narinas, dando vontade de se deliciar com torta de maça e canela. Ouvia uma musica imaginaria, os olhos fechados e um sorriso escondido enfeitava o rosto com o prazer da simplicidade. Encolhia os ombros rindo quando alguns vestígios da chuva, que nem parecia ter existido, caem em seu rosto, ao passar por baixo de um abacateiro verde e sólido, o qual as raízes abriam fundas rachaduras na calçada velha e amavelmente molhada e quente. Tudo tão... Macio. A musica imaginaria bailava em seus ouvidos, até que sua delicada cabeça se vira devagar e seus olhos grandes, que atrairiam abelhas de tão azuis, fixam uma cena tão irritante quanto um grito de um violino desafinado. A musica murcha em seu ouvido, como um balão esquecido no canto da festa infantil. Suas finas e doces sobrancelhas se franzem em uma raiva infantil e ela bufa com fofura. O casebre de dona Amelinha polui a ruela amável onde a pequena emburrada andava e se deliciava. Seu pequeno reino de criança era arruinado por aquela desagradável casa cinzenta e feia, suja e desbotada, como um gibi ignorado na chuva. Sem flores, sem cheiro de torta... Casa de bruxa... É... É o que aquela velha feiosa é, uma bruxa! Olha aquela paisagem, como de um filme de terror e a raiva infantil vai amargando em sua garganta... Odeia do fundo da alma aquele canto esquecido por deus... Aquela velha enrugada e esquisita, que fica o dia todo na cadeira de balanço, resmungando baixinho, como se amaldiçoasse a felicidade de quem passasse perto. Crianças a acordam de seu devaneio de ódio, passam correndo ao seu lado e tacando pedras em direção a senhorinha, que se encolhe lentamente, como se estivesse embaixo d’água. Ela resmunga baixinho e continua em seu movimento autista, para frente e para trás, como se fosse seu motivo para viver... Balançar... A pequena lança um soslaio e solta uma risadinha seca e curta, seguida de um “bem feito”, maduro de mais para sua idade. Continua seu caminho de historia de João e Maria, sentindo o vento manso em seu rosto, que bagunça as madeixas negras e pesadas de seu rosto e espanta a imagem do casebre como se soprasse a poeira de alguma superfície. Quem se importa com aquele fantasma? Ela que continue ali, balançando de forma demente. E assim foi durante anos... Ela passando pela ruela, sempre amigável, sempre acolhedora, e se deparando com o câncer que era o casebre sem cor. Se irritando sempre com a presença maligna da senhorinha balançando-se como um galho prestes a despencar de tão seco. Ela estava sempre ali... Não interessa o quanto pudesse chover. Ela estava ali... Como uma gravura pitoresca que perturba. Nem o frio a espantava da varanda suja, de madeira mofada. A cadeira estava sempre habitada pelo corpo mole, coberto sempre de lã azul clara... Já nem se via vida ali, ela era como um objeto, como um bibelô lascado e feio. E os anos se passaram. E o balanço cada vez ficava mais lento... Mas nem se notava, apenas se apontava e xingava. Com a idade o ódio infantil da emburradinha foi se tornando asco. Ela apenas olhava e desejava que aquela casinha e sua maldita moradora fossem para o espaço. E desejava cada vez mais fortemente... E a pobre Amelinha continuava firme e forte... Talvez não tão forte. Mas firme. A pequena, já não tão pequena, odiava e Amelinha balançava. Era um ciclo vicioso eterno. Talvez... Não tão eterno... Ao que um dia, passando pelo caminho macio de sempre, aos 17 anos, a emburradinha se depara com uma cena assustadora. A cadeira de balanço sem sua companheira, empoleirada nela. Balançando sozinha ao vento, como se dançasse uma valsa sádica e solitária, rangendo de leve. A pequena tomba a cabeça para o lado, se perguntando aonde esta a odiosa senhora. Mas, vendo seu ódio sem alvo, segue seu caminho, incrivelmente mais curiosa do que feliz em não ver o corpo disforme e azul claro movendo-se em eterna câmera lenta. E no dia seguinte a cena absurda se repete. A casa cinzenta consegue a façanha de ficar mais morta ainda sem o fantasma na varanda ordinária e sem flores. A curiosidade começa a se mesclar a falta. Onde estaria seu objeto de nojo preferido? Ao chegar em casa e indagar a mãe, depois de mais uma tarde sem a presença da senhorinha em sua varanda, balançando eternamente, ela descobre que Amelinha faleceu há semanas... Um vazio a atinge no peito... Um arrepio sobe por sua espinha... Como a odiosa velha bruxa pode morrer? Ela era imortal... Ela era o motivo pelo qual a vida não era perfeita. Sua existência era necessária! Ao se ver finalmente livre do câncer, sentiu algo que a fez sentir vontade de vomitar. Pena... Espere ai... Pena? Mas ela atormentou a beleza da ruela por anos! Ela deveria pular de alegria, esperando ansiosa para que alguém se mude para aquela casa feia e a deixe colorida como todas as outras! Mas não... Seu coração doía. Ela se virou de costas e saiu correndo em direção a casa que tanto a frustrava. Pela primeira vez ignorou toda a paisagem linda e amável envolta, nada importava, ela só via a massa cinza à esquerda. Entrou como um furacão pelo portão enferrujado como se fizesse isso todos os dias, deixando-o aberto. Espalhando lama pela soleira da porta, abriu com força o retângulo de madeira cheio de ranhuras e se deparou com o que, pela primeira vez, lhe mostrou a verdadeira face da velha bruxa. Fotos... Amelinha estava lá, estampada no porta retratos, sorrindo, alguns anos mais nova. E no outro, estava lá, tocando piano com uma expressão doce e sonhadora. E no outro, acompanhada de um jovem senhor, meio grisalho, os dois sorridentes apenas pelo fato de estarem juntos um ao outro. Uma luz logo se espalhou pela mente da garota. Voltou a correr, como se sua vida dependesse disso. Chegou ao cemitério, vazio a não ser por ela e por dois corvos, como esculturas em cima de uma lapide. Procurou esbaforida por entre as pedras e anjos tristes e finalmente encontrou o que caçava. Lá estava... A delicada e em preto e branco foto de Amelinha, ao lado da gravura do jovem senhor, também sem cores. A data na lapide revelava que o companheiro da tão solitária senhorinha tinha deixado esse mundo a exatos... 17 anos... Instantaneamente, um doloroso entendimento passa por sua cabeça. Ela finalmente entende o motivo pelo qual se via aquela maldita áurea cinza na ruela colorida, pontilhada de flores. Solidão... A imagem da bruxa agora vinha diferente em sua mente. Em vez de amargura, enxergava tristeza no balançar eterno que era a vida sozinha de Amelinha. Ela, a final de contas, era apenas triste... E sua tristeza era como uma pedra no sapato da pequena... Ela a lembrava de que a vida não era linda instintivamente... E agora, alem da pena, sentia nojo... Mas não da pobre Amelinha enterrada ali, de si mesma. Como pode odiar tamanha vitima da maldade da vida? Seus joelhos se soltam como dobradiças velhas, levando o corpo, soluçante, ao chão. E a pequena chora...
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h45
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h46
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Maçãs Você acha que vai me atingir com seu ódio? Ele me conforta... Sabia? Você acha que preciso do seu perdão? Ele vale menos que lixo pra mim... Sabia? Você acha que tenho pena de você? Pois é... Tenho mesmo... Sabia? Você acha que me arrependo do que disse a você? Pois é... Não me arrependo, faria tudo de novo e bem pior... Sabia? Você acha que virará homem me tratando mal como te tratei? Pois é... Você continua sendo um franguinho de merda que não põe medo nem em uma mosca... Sabia? Você acha que eu vou me incomodar com suas mensagens subliminares em comentários? Pois é... Não me incomodo, me divirto em saber que você me odeia... Sabia? Você pensa que eu te pedirei perdão por estragar sua vida? Pois é... Não pedirei... Sabia? Você acha que eu te usei para fins pessoais? Pois é... Usei mesmo... Sabia? Você acha que tenho nojo de você por ter essa aparência ridícula? Pois é... Tenho asco da sua face repulsiva... Você me da pena... Sabia? Pois é... Eu nunca te amei... Sabia?
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h44
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 01h57
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Papetes Lá fora o céu despenca em lagrimas que se refletem em meu rosto... Ainda não me dei conta de que tudo que um dia foi, hoje não é mais... Que o que era móvel, hoje é intocado. Que o que era risada, hoje é silencio. As rosas pendem para o lado como se sentisse a áurea cinza ao redor. Todos dizem “ele era um homem bom...” era não... É... Palavras que saem e vagam até chegar aos ouvidos e baterem no cérebro, marcando como um ferro em brasa a mensagem: ele não esta mais entre nós. “Seja forte” dizem os espectadores... Ser forte não significa erguer a cabeça e engolir as lagrimas, como se isso fosse algo nobre... Ser forte significa assumir que aquela pessoa que se foi nunca será substituída... Ser forte é se deitar sobre seu leito e chorar rios, soluçar como se essa dor não fosse passar jamais... Ser forte é bater no peito e dizer “sinto sua falta...” sejamos fortes então. Tenhamos honra. Vamos nos abraçar e chorar, pois aquela pessoa que um dia esteve, hoje esta, mas não ao nosso alcance. Esta apenas ao alcance dos olhos marejados, que se negam a aceitar aquela imagem de pálpebras fechadas, serenas, como se dissesse “não se preocupem, ainda estou ao lado de vocês”. Suas papetes estão ao pé do sofá... Como dói ter que tira-las de lá... Em memoria Luiz Hungria.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 01h50
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 15h23
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Rodoviária Virou-se de costas e andou prédio adentro, mãos nos bolsos... As mãos se soltam, como um nó se desfazendo. Entro no carro e olho para trás, conto os passos que você dá até desaparecer... Fito a calçada vazia... Não só a calçada, mas meu peito também se encontrava naquele estado, como se uma mão de ferro segurasse meu coração e aos poucos ele parasse... A cidade parece... Morta... As luzes de natal se refletem em meus olhos úmidos... Encosto no vidro do carro, a sensação gelada não alivia a dor... Ela é interna de mais... Dói. E apenas isso... Dói... Enquanto sinto o vidro gelado, um flashback passa em minha mente, como um filme mudo... As risadas, os beijos... A companhia... E a dor... Dói... Escorrego um pouco no estofado... As palavras ditas no banco da frente entram em meu cérebro, mas não são absorvidas... O olhar vago parece até, de certa forma, demente, como se algo faltasse ali para que se tornasse completo... E realmente faltava... Faltavam seus dedos entrelaçados nos meus... Quando me dou conta dos passos dados por minhas pernas, me encontro da plataforma nove, pessoas me olhando, fumaça de cigarro na atmosfera, quase que palpável de tão densa... Suas cartas se encontram de certa forma esmagadas pela tristeza das minhas mãos frias... Sento no chão e as leio, com a paciência de uma mãe olhando seu filho... Uma lagrima borra sua assinatura... Outros passos dados sem meu consentimento e estou dentro daquela caixa... A janela se embaça... E a dor, dói... Mordo os lábios com as sobrancelhas franzidas e os olhos fechados, como se um rim fosse arrancado do meu ser...Um soluço rouco escapa chamando atenção de curiosos e de senhoras piedosas, mas os espectadores nada fazem, apenas olham e se voltam para frente. Nem em meus sonhos sua imagem deixa de me perturbar, seu sorriso assombra minha sanidade, sua doçura, seu riso... As unhas se cravam na pele para tentar desviar a dor do peito... Seu gosto continua em minha boca, as marcas de suas mãos em minha pele, como se uma brasa as tivesse marcado eternamente... E, apenas a esperança da próxima vez que possa pousar meus olhos nos seus se movimenta dentro de mim, quase cria vida... Eu realmente odeio rodoviárias...
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 15h17
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h01
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Gato preto Eu vim pra trazer má sorte Eu vim para humilhar Não sou ovelha negra Sou gato preto Os olhos brilham na noite e incomodam, como os faróis dos carros que passam, ignorando as vidas interrompidas ali ao lado. A lua, de tão brilhante, atravessa as nuvens de chuva que derretem em gotas pesadas sobre a capa e o chapéu pretos, os quais ocultam minha conduta putrefata. No bolso...? No bolso uma surpresa que deixarei para o final da historia. Nas mãos, a desordem de dedos estralando-se e de unhas compridas. A insanidade se revela no andar reto com o olhar baixo. As lapides ao lado trazem uma certa vergonha misturada a orgulho. Tantas pessoas insubstituíveis ali, sob a terra, por... Oras, calma! Não vamos estragar a surpresa! Meu andar se apressa. A chuva e o frio me incomodam... Vamos logo com isso... Que noite cretina... Entro em um beco habitado por mães solteiras e mofo. As paredes se descascam e caem, como se o descaso fosse uma paulada atingindo em cheio os tijolos. Meus sapatos ecoam e quase criam vida, tamanho o silencio quebrado por eles. Que ambiente nojento... Quero logo minha lareira e um copo de whisky... Entro pela porta semi-aberta. Um senhor forte e careca me repreende, mas logo cai no chão... Olho para a figura retorcida e sigo meu caminho. A próxima sala, meu objetivo, mais parecia uma sauna tamanha a fumaça causada pelos charutos. Os quatro indivíduos olham para a porta onde estou parado e depositam o leque de cartas na mesa. “O que raios você esta fazendo aq...” foi o que encontrou tempo de sair da boca do infeliz antes que de eu estourar seus miolos. Os outros três desgraçados se assustaram e colocaram as respectivas mãos nos bolsos, mas já era tarde... Caíram à mesa como estudantes dormindo na sala de aula. O sangue sujava as cartas que nunca mais seriam jogadas... Era para eu sentir pena? Ah desculpe, mas não aprendi essa lição no colégio. Piedade? Não... Mas eu aprendi ironia... Serve? Dane-se... Ponho no bolso novamente a surpresinha, ainda com duas balas. Saio logo daquela cena bizarra. Ao passar pelo cemitério, me lembro da culpa... Mas... Como evitar? Esse brinquedinho é tão divertido de usar... Acabo por mandar mais quatro almas podres para dar trabalho ao coveiro... E agora, finalmente, meu whisky! Eu vim pra trazer má sorte Sou gato preto
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 20h07
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h38
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Suco de pêra Começo meus os dias como um ser que depende dos outros para tudo... Passa-se um tempo, e esse ser se torna outro, que quer mudar o mundo, que tem a sensação de onipotência, que acha que vai dominar tudo e todos com sua inteligência e que é mais do que os outros...Anos depois essa personalidade forte se transforma em arrogância. E de líder, passo a empregado... E de empregado que expõe sua opinião, passo a desempregado... A opinião é forte de mais... Tem muita massa de manobra pra por no lugar de gente que fala mais do que deve... Então aprendo que o mundo é... Injusto... Que não posso muda-lo... Que eu e minha opinião forte... Temos que abaixar a cabeça para quem tem mais influencia, para quem tem mais... Carisma... Mas não! A vida não pode ser assim tão sem sentido, tão triste! Eu posso fazer algo pra melhorar essa merda de lugar! E a arrogância brota no peito como a erva daninha que teima em aparecer mesmo quando o sol esta esturricando... Volto a falar, a me expressar... E me sinto bem... Sou inteligente... Sou mais que os outros... Sou culto! Humildade é coisa de fracos! Eu me amo e vou gritar para todo mundo ouvir! ...E termino meus dias sozinho... Ouvindo burburinhos dizendo que sou o velho mais ranzinza e que fui a criatura mais nojenta que já conheceram... De hoje em diante vou mentir mais...
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h37
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 01h51
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Castelo de areia. A tristeza em mim é um estado constante... Sinto um buraco no peito que às vezes queima e uma barreira se forma em volta de mim... Eu a chamo de solidão... O frio não me machuca mais... Oras... Ele faz parte de mim, como um câncer que me consome por dentro. Sobra apenas essa carcaça frágil que escorre em lagrimas imaginarias, definhando-se como um castelo de areia no qual o mar teima em bater quando o sol tenta novamente aquece-lo... Os olhos absorvem os vivos, ou os que pensam que estão vivos... Os que apenas esperam sua vez de serem enterrados, os que existem... Eu, pobre de mim, conheço minha condição de morta, tenho noção de que dentro desse corpo existe apenas o vácuo, onde os lamentos vagam cegamente até atingirem os olhos e escorrerem em fora de água com sabor de mar... Tenho medo de ficar sozinha...
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 01h49
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 18h40
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Cinta ligaO que é sensual? Uma ninfeta loira com curvas arrebatadoras de cinta liga vermelho biscate ou a garota de óculos e pernas compridas deitada ouvindo musica deixando uma leve nesga de pele macia e viva por entre o camisetão também chamado de pijama? A mídia maquiou o sensual. A sensualidade de hoje é constrangedora, é vergonhosa, é fútil e nojenta. Uma dona de casa dentro de um lingerie de plástico, parecendo um legume embalado a vácuo se sente sedutora? Ao meu ver, se sente completamente constrangida naquele quarto de motel olhando para a cama redonda e a barriga do seu marido, mais redonda ainda saltando por baixo do lençol vermelho ordinário que já presenciou tantos teatros como esses. Ela na verdade gostaria de estar na sala vendo novela de calcinha e soutien, mas não. Esta naquele quarto falso. Falso... É essa palavra que me vem à mente quando penso no que hoje se chama de sensual... Sensual mesmo é chegar em casa e ver sua namorada de camisetão e meias, deitada de bruços lendo um livro. Não é delicioso? É ouvir seu parceiro tomando banho e logo depois o ver sair do banheiro só de toalha. Isso é sensual, isso é natural, é gostoso, não constrangedor. Agora me deu vontade de ter ao meu lado alguém pra chamar de meu namorado, sem camisa estirado de bruços na cama se queixando do tempo. Eu apenas passaria de leve as unhas em suas costas e depois o abraçaria, sentiria o calor do seu corpo enquanto acaricio seus cabelos... Beijos na nuca enquanto as peles se encontram nessa reação absurdamente fantástica, arrepiando os pelos... E nisso surge o silencio... O silencio que diz muito mais do que qualquer palavra... E um sorriso brota no rosto. Como seria bom ter alguém assim ao meu lado... Isso sim é sexy.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 18h38
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h49
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Palitos de fósforo O que dizer? Dizer que sonhos são como palitos de fósforo. Você dorme e ele acende, a chama é linda, o momento é deliciosamente quente e você quer que ele dure para sempre. Mas não dura. Você acorda, o fósforo apaga e o que resta é apenas a madeira enegrecida, frágil, que se quebra com um simples sopro. Assim são os sonhos e a realidade. No sonho tudo é possível! Desde voar até aquela camisa de seda que o “tempo” não permitiu a compra. O sonho é nosso reino particular. Nele só aparece que nós queremos. O pesadelo é quando a realidade é tão cruel, as preocupações são tantas, que invadem o reino, como uma guerra infiel que nos tira a esperança. Mas logo ela passa, logo o reino se apaga. A realidade é dolorida... No sonho tudo é lindo, leve, mágico, cósmico... Mas quando a chama acaba, vem um frio que dói nos ossos... Uma frustração, uma dor que arde... A realidade arde... A realidade é frágil. Algo errado que acontece, algo ruim que sucede a quebra...Quem dera pudéssemos viver no nosso reino pela eternidade! Lá não tem dor, pestes, pragas, lá tudo é anil e rosa... Nada arde... Mas quem tenta brincar de ser rei todo o tempo acaba se queimando... Não ignore a realidade. Ela é cruel, não pode ser substituída pelo reino anil e rosa. A chama tem que se apagar... É necessário. E se tentares continuar nessa teimosia infantil a chama queima a pele, e a realidade arde em dobro.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h48
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h48
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Manual de instruções Rasgue as juras de amor que te fiz... Elas já não valem nada. Queime as rosas que plantei; elas já não têm alma. Chore pelo final, mas chore pouco... Ele não merece tanto. Olhe para a lamina e pense no pior, fique com vontade, mas tenha medo. Fite o por do sol e não entenda o que ele te diz. Sorria, mas sorria com o olhar vazio. Sofra por falta de atenção. De chance, mas não a si mesmo. Esqueça-me, mas sonhe comigo... Essa é a receita para uma vida sem sentido. E não se esqueça de jurar amor eterno com os dedos cruzados nas costas.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h45
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h45
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Sinta pena... A tristeza é tanta que não consigo chorar... Apenas mantenho fixo o olhar no que não posso ter... Rasguei meu coração em um milhão de pedaços e na hora de tentar colar sobraram retalhos pelo chão. Não sei porque ficar... Só sei que se não tivesse medo já teria ido embora... Tenho vontade de ser de vidro, assim todos enxergariam o que ocorre dentro de mim. Meu peito é um campo de batalha onde a luta não tem fim. Meu corpo se meche sem meu consentimento... Não sinto a água quente tocando meu corpo, apenas o vazio das gotas que caem com receio em minha pele e logo escorrem. Pedaços de sentimentos mortos pelo chão, o som dos cascos dos cavalos na rua lá fora. Parem tudo... Parem os ponteiros dos relógios, e observem a lagrima escorrer no rosto de quem já foi forte... Ela cai eternamente e enquanto escorre, congela... Lagrima sem brilho de tão triste. Já não há vontade de ter vontade...
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h42
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h42
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Patchouli
Quando sinto aquele cheiro, de perfume ordinário misturado com o vento seco me lembro do que já fiz por você, do que já planejei com você, de que já amei você. O aroma que sobe em espirais como o vapor da água quente daquela ducha tomada a quatro mãos me atinge no peito com a força de um golpe de tirar o ar; aroma do perfume que usei por anos e que por medo de senti-lo novamente guardei com carinho atrás do velho dicionário empoeirado. O medo daquele aroma que me lembra os “bons-maus” momentos. Sim, me lembra os dois... Desde as tardes românticas regadas a Cabernet até pratos arremessados na parede com a potencia das lagrimas. Mas o cheiro agora vem com uma nota a mais, a solidão. Aquele perfume que me parecia tão... Companheiro... Agora esta só... Solidão alimentada com noites sem dormir vira ódio...E a cena que me tira a vontade de sonhar se desgasta como uma parede de Veneza. Fique com ela! A possua! Tome-a nos braços como fazia comigo! E eu? Continuarei olhando o horizonte sem nuvens até que o sol vá iluminar outros cenários desconhecidos. Hoje, minha alma é de perfume... Nos lembramos da fragrância e sentimos aquela saudade amarga porque o aroma de verdade foi levado pelo vento.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h34
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 12h12
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diamante picado - 1º texto
Olho para o lado e o vejo dormindo, mas quem sonha sou eu... Como queria ver outros olhos naqueles fechados, olhos castanhos, grandes, que me fitam zombeteiros e não enxergam a malicia dos meus, o desejo oculto, proibido. As idéias pervertidas assombram minha sanidade, porem o sentimento de culpa espanta esse devaneio como o vento espanta as mariposas de uma lâmpada. Elas saem... Entretanto o calor da lâmpada as trás demasiado rápido de volta, infestando minha boca com a vontade de dizer coisas doces... Mas não àquele dormindo ao meu lado, ao outro. A chuva cai lá foram titubeando nas janelas como diamante picado. Esta me arranha, me arranca os súbitos sonhos de verão, lava a alma, porem esta quer continuar suja, podre de luxuria. A respiração ofegante sai de meu peito com o susto. Tão longe estou que não me dou conta das gotas de diamante caindo na minha pele quente, me arrepiando os pelos. O rosto daquele me lambe os ombros, me diz sutilezas ao pé d’ouvido. Aquele que não pode passar por meus sonhos, aquele proibido... O qual quero sentir o gosto da boca fina e quente e as mãos dele em meus braços, em meu pescoço. Arrepios me corrompem, a utopia é real de mais... E os diamantes continuam a cair, encharcando a seda fina, colando-a no meu corpo quente... Continuam a cair...
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 12h04
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introdução
Primeiramente gostaria de me apresentar. Bruna, 16 anos, artista. Não que eu tenha capacidade o bastante para receber tal alcunha, mas gosto de referir a mim mesma assim.
Agora começarei a jornada de explicar o porquê do blog. Aqui colocarei os textos os quais escrevo com meu pseudônimo, a Leila. Leila é uma dama burguesa, tem 19 anos e adora ler romances, mesmo odiando os finais. Só se salvam aqueles trágicos, onde o mocinho morre por amor no final. Na frente da população, se comporta como uma lady, porem entre quatro paredes revela sua verdadeira personalidade, se torna um animal selvagem com os instintos a flor da pele, egocêntrica, rancorosa, vingativa, cruel, obsessiva e... Apaixonada. Sua vida gira em torno de sua paixão por Olavo, um cafajeste abastado que a usa quando precisa de caricias. Ela por amor se oferece completamente a ele, acreditando que Olavo a ama. Sua mãe, cansada de vê-la sofrendo, a arranja um casamento com um conde de idade avançada. Esse primeiro texto tem base no 1º dia em que Leila se deita ao lado do conde Manuel de Macedo, de 50 anos.
Escrito por Bruna Andrade / Leila às 11h59
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