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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h46
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Senhorinha

 

            As arvores abraçavam a ruela úmida e confortável, fazendo ligeiras e pequenas sombras, deixando estampadas bolinhas de sol no chão macio, feito de folhas caídas no asfalto negro e brilhante. O vento era inexistente, como se o ar cochilasse entre os passos lentos e compridos de 14 anos. Ela observava as flores nas jardineiras das casinhas coloridas, de onde um aroma doce saia, percorrendo o ar preguiçoso e penetrando nas narinas, dando vontade de se deliciar com torta de maça e canela. Ouvia uma musica imaginaria, os olhos fechados e um sorriso escondido enfeitava o rosto com o prazer da simplicidade. Encolhia os ombros rindo quando alguns vestígios da chuva, que nem parecia ter existido, caem em seu rosto, ao passar por baixo de um abacateiro verde e sólido, o qual as raízes abriam fundas rachaduras na calçada velha e amavelmente molhada e quente. Tudo tão... Macio. A musica imaginaria bailava em seus ouvidos, até que sua delicada cabeça se vira devagar e seus olhos grandes, que atrairiam abelhas de tão azuis, fixam uma cena tão irritante quanto um grito de um violino desafinado. A musica murcha em seu ouvido, como um balão esquecido no canto da festa infantil. Suas finas e doces sobrancelhas se franzem em uma raiva infantil e ela bufa com fofura. O casebre de dona Amelinha polui a ruela amável onde a pequena emburrada andava e se deliciava. Seu pequeno reino de criança era arruinado por aquela desagradável casa cinzenta e feia, suja e desbotada, como um gibi ignorado na chuva. Sem flores, sem cheiro de torta... Casa de bruxa... É... É o que aquela velha feiosa é, uma bruxa! Olha aquela paisagem, como de um filme de terror e a raiva infantil vai amargando em sua garganta... Odeia do fundo da alma aquele canto esquecido por deus... Aquela velha enrugada e esquisita, que fica o dia todo na cadeira de balanço, resmungando baixinho, como se amaldiçoasse a felicidade de quem passasse perto. Crianças a acordam de seu devaneio de ódio, passam correndo ao seu lado e tacando pedras em direção a senhorinha, que se encolhe lentamente, como se estivesse embaixo d’água. Ela resmunga baixinho e continua em seu movimento autista, para frente e para trás, como se fosse seu motivo para viver... Balançar... A pequena lança um soslaio e solta uma risadinha seca e curta, seguida de um “bem feito”, maduro de mais para sua idade. Continua seu caminho de historia de João e Maria, sentindo o vento manso em seu rosto, que bagunça as madeixas negras e pesadas de seu rosto e espanta a imagem do casebre como se soprasse a poeira de alguma superfície. Quem se importa com aquele fantasma? Ela que continue ali, balançando de forma demente. E assim foi durante anos... Ela passando pela ruela, sempre amigável, sempre acolhedora, e se deparando com o câncer que era o casebre sem cor. Se irritando sempre com a presença maligna da senhorinha balançando-se como um galho prestes a despencar de tão seco. Ela estava sempre ali... Não interessa o quanto pudesse chover. Ela estava ali... Como uma gravura pitoresca que perturba. Nem o frio a espantava da varanda suja, de madeira mofada. A cadeira estava sempre habitada pelo corpo mole, coberto sempre de lã azul clara... Já nem se via vida ali, ela era como um objeto, como um bibelô lascado e feio. E os anos se passaram. E o balanço cada vez ficava mais lento... Mas nem se notava, apenas se apontava e xingava. Com a idade o ódio infantil da emburradinha foi se tornando asco. Ela apenas olhava e desejava que aquela casinha e sua maldita moradora fossem para o espaço. E desejava cada vez mais fortemente... E a pobre Amelinha continuava firme e forte... Talvez não tão forte. Mas firme. A pequena, já não tão pequena, odiava e Amelinha balançava. Era um ciclo vicioso eterno. Talvez... Não tão eterno... Ao que um dia, passando pelo caminho macio de sempre, aos 17 anos, a emburradinha se depara com uma cena assustadora. A cadeira de balanço sem sua companheira, empoleirada nela. Balançando sozinha ao vento, como se dançasse uma valsa sádica e solitária, rangendo de leve. A pequena tomba a cabeça para o lado, se perguntando aonde esta a odiosa senhora. Mas, vendo seu ódio sem alvo, segue seu caminho, incrivelmente mais curiosa do que feliz em não ver o corpo disforme e azul claro movendo-se em eterna câmera lenta. E no dia seguinte a cena absurda se repete. A casa cinzenta consegue a façanha de ficar mais morta ainda sem o fantasma na varanda ordinária e sem flores. A curiosidade começa a se mesclar a falta. Onde estaria seu objeto de nojo preferido? Ao chegar em casa e indagar a mãe, depois de mais uma tarde sem a presença da senhorinha em sua varanda, balançando eternamente, ela descobre que Amelinha faleceu há semanas...

Um vazio a atinge no peito... Um arrepio sobe por sua espinha... Como a odiosa velha bruxa pode morrer? Ela era imortal... Ela era o motivo pelo qual a vida não era perfeita. Sua existência era necessária! Ao se ver finalmente livre do câncer, sentiu algo que a fez sentir vontade de vomitar. Pena... Espere ai... Pena? Mas ela atormentou a beleza da ruela por anos! Ela deveria pular de alegria, esperando ansiosa para que alguém se mude para aquela casa feia e a deixe colorida como todas as outras! Mas não... Seu coração doía. Ela se virou de costas e saiu correndo em direção a casa que tanto a frustrava. Pela primeira vez ignorou toda a paisagem linda e amável envolta, nada importava, ela só via a massa cinza à esquerda. Entrou como um furacão pelo portão enferrujado como se fizesse isso todos os dias, deixando-o aberto. Espalhando lama pela soleira da porta, abriu com força o retângulo de madeira cheio de ranhuras e se deparou com o que, pela primeira vez, lhe mostrou a verdadeira face da velha bruxa. Fotos... Amelinha estava lá, estampada no porta retratos, sorrindo, alguns anos mais nova. E no outro, estava lá, tocando piano com uma expressão doce e sonhadora. E no outro, acompanhada de um jovem senhor, meio grisalho, os dois sorridentes apenas pelo fato de estarem juntos um ao outro. Uma luz logo se espalhou pela mente da garota. Voltou a correr, como se sua vida dependesse disso. Chegou ao cemitério, vazio a não ser por ela e por dois corvos, como esculturas em cima de uma lapide. Procurou esbaforida por entre as pedras e anjos tristes e finalmente encontrou o que caçava. Lá estava... A delicada e em preto e branco foto de Amelinha, ao lado da gravura do jovem senhor, também sem cores. A data na lapide revelava que o companheiro da tão solitária senhorinha tinha deixado esse mundo a exatos... 17 anos... Instantaneamente, um doloroso entendimento passa por sua cabeça. Ela finalmente entende o motivo pelo qual se via aquela maldita áurea cinza na ruela colorida, pontilhada de flores. Solidão... A imagem da bruxa agora vinha diferente em sua mente. Em vez de amargura, enxergava tristeza no balançar eterno que era a vida sozinha de Amelinha. Ela, a final de contas, era apenas triste... E sua tristeza era como uma pedra no sapato da pequena... Ela a lembrava de que a vida não era linda instintivamente... E agora, alem da pena, sentia nojo... Mas não da pobre Amelinha enterrada ali, de si mesma. Como pode odiar tamanha vitima da maldade da vida? Seus joelhos se soltam como dobradiças velhas, levando o corpo, soluçante, ao chão. E a pequena chora...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h45
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