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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 18h55
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Meias

 

Esperando o ônibus hoje de tarde, me deparei com o tédio, e ele conversou comigo. Disse que ouvir musica era bom. Liguei o player e escutei qualquer coisa sem dar o mínimo de atenção à melodia ou batida, sentia apenas o grave penetrando os tímpanos. Irritante. O tédio não tem noção mesmo... Desliguei o som ignorado e percebi que ao meu lado, havia se sentado um senhor de camisa azul, calça branca e chapéu. Perfeito. Praticamente Carlos Drummond de Andrade. Se não fossem as meias. Esportivas, daquelas que se usam com tênis. Olhei... Olhei... Aquele rosto macilento de quem escreve versos ordinários em uma taberna, a camisa azul escura e a calça branca; boêmio. Perfeito. Se não fossem as meias. O ônibus chegou ao ponto, soltando uma fumaça densa e palpável. Adentrei a caixa, sentindo o cheiro de gente estafada, com pressa para ver a novela e deixando o poeta para trás. Sentei-me ao lado de algum fantasma entediado qualquer e liguei o player de novo, ignorando o tédio, que agora dizia que musica não era bom. O tédio é um péssimo conselheiro. Vi uma senhora gorda apertar as meias para parar a maquina... Digo, a campainha, puxando uma garotinha remelenta e barulhenta pelas mãos. Desceram. E eu me dei conta de que nunca mais as veria de novo. Pena? Não... Amanha já teria me esquecido da existência dos seres se não tivesse escrito aqui no papel branco, afirmando a existência delas. Homenagear completos estranhos é bem... Inútil. Voltei a me concentrar na musica, piano, poluído pelas buzinas e barulho das meias, digo, freios. Vozes escalando umas as outras, conversas fúteis que não tinham razão de ser, existiam apenas pela vergonha e pelo medo da solidão e do silencio. Silencio, adoro-o do fundo da alma. Ele é tão profundo, limpo, calmo. Porém a perfeição assusta os normais. Pouca gente no mundo deixa de andar para sentir o vento, o cheiro dele, a lua atingindo com força o peito. Preferem o barulho, desviando a mente de pensamentos importantes, de conclusões. Existir é o maior barato! Super fácil! Pena que eu vivo. Viver é dolorido, demorado. Quando dei por mim, no meio daquele devaneio louco de filosofia barata, metade dos fantasmas já havia descido em seus pontos, fingindo esquecer que um dia conheceram aqueles rostos, jogando-os no limbo, como eu também faria, se não estivesse escrevendo essas meias, digo, esse texto. Cruzes... As meias bailavam em meu cérebro, sapateando nele, como uma dançarina de cancan. Será que o poeta tinha idéia de que aquelas meias teriam estragado o dia de alguém? Que aquelas meias, malditas meias, teriam dado uma bela dor de cabeça em uma garota a qual ele nem conhecia? Merda, ele não tinha esse direito! A imagem estava marcada em minha córnea como um pernilongo esmagado na parede. Canelas finas, semicobertas pela calça branca de linho vagabundo, e as meias... Era como se elas estivessem ali apenas para atrapalhar a vista, como um edifício em cidade pequena. E mesmo que você tentasse, o olhar sempre chegaria nelas, elas eram um imã maligno. Desci da caixa um ponto antes do meu destino, tamanha a raiva daqueles saquinhos de pano medonhos, tinha que andar um pouco afim de esquece-las. Andei uns bons passos a mais do que deveria, isso acabou por me irritar mais, a mochila pesada maculando meus ombros e o calor fustigando minha cabeça. Pelo menos isso me distanciou das meias, momentaneamente. Desliguei o cérebro até chegar em casa, quando dei por mim, estava jogada na cama com as pernas pulsando de dor. Tudo doía. E a culpa desse martírio era daquelas meias malditas! Já nem lembrava mais do boêmio simpático, só as medonhas me vinham à cabeça, bailando sozinhas, balé desta vez. Acho que nunca mais me esquecerei daquelas coisas. Ou pelo menos me lembrarei delas toda vez que ler esse pedaço de papel. E me lembrarei também das duas damas desconhecidas, descendo, perdidas nas ruas, deixando um rastro de toc-tocs dos tamancos de madeira, a mãe gorda e a filha remelenta. Juro que nunca mais homenageio desconhecidos.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 18h53
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