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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 21h43
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Katana

Jogou-se na poltrona com cansaço. Sentiu um fluido grosso e quente escorrer pela roupa. Merda... Seriam as regras? Foi até o toalete, arrancou a meia arrastão e viu uma mancha rubra sobre a pele, mas ela não confirmou a suspeita, pois o liquido saia de um ferimento aberto, na altura do umbigo. Melhor assim. Odiava do fundo da alma qualquer demonstração, por mais natural que fosse, de feminilidade, de fraqueza, delicadeza... Coisa de garotinhas. Limpou o sangue quente da ferida, sem esboçar mínima expressão de dor, passou qualquer coisa para não infeccionar e, com coragem, pegou a agulha e linha e ponteou a pele, como se fossem meias a serem cerzidas, sem um piscar de olhos, sem um franzer de sobrancelhas. Mesmo sem espectadores, não suportava a idéia de ceder a dor. Terminou a tortura, colocou novamente as roupas e foi em direção ao quarto. Chutou um pedaço de carne que sobrou ali e se deitou na cama. Sorriu. A espada continuava jogada ali ao lado, sobre uma poça vermelha brilhante. Riu. Fácil de mais. Homens são tão manipuláveis, só ver um rabo de saia que vêm correndo como crianças atrás de doce. Tirou algumas gotas de suor da testa com as costas da mão e observou o ambiente. Fedia a sangue e medo. Notou um braço caído por cima do tapete e riu alto, imagine a cara dele quando voltar e encontrar essa zorra! Sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos e mordeu o lábio. Só cinco. Mas já era um bom numero. E o estado deles também contava. Estavam estripados. Heh, a lamina estava bem afiada mesmo. Cortara com destreza. Ao se curvar, sentiu uma pontada no estomago, o corte latejava. Mas, novamente, não demonstraria sequer um vestígio de dor. Só incomodava no momento a humilhação da ferida. Como conseguiram acertar? Sempre fora tão ágil. Nunca levara um corte sequer. Talvez o olhar daquele mais jovem. Uma expressão de terror, um medo infantil que chegou a dar pena na tão insensível assassina. Pena... Sentimento nojento, fraco. Não, não sentia pena. Não poderia sentir pena. Sua vida dependia disso. Joga-se para trás, deitando-se, batendo com força a cabeça no colchão. Pensando bem, que tinha demais em sentir pena? Ela, apesar de tudo, era humana. Mas logo o pensamento lhe é varrido da cabeça pelo ódio que corrompe sua alma. Ela não é humana, nunca seria. Desistindo de pensar, se levanta lentamente, recolhe a lamina melada de sangue, da uma leve sacudida, tirando o excesso de sangue alheio e a guarda na bainha, como quem deposita um filho no berço. Olha em volta de novo, a paisagem, digna de um filme de terror lhe agrada. Ri baixo observando a beleza das manchas de sangue nas paredes, dos fragmentos de carne morta e embebecida em sangue. Os pescoços mutilados com cacos de ossos escapando pela abertura feita a lamina. As pernas quebradas para trás, deixando escapar a rotula por entre um corte profundo, os fluidos se deixando vazar pelo rasgo cruel no abdome. Tripas jogadas como serpentina pelo chão. É... Estava bom daquele jeito. Bem... Surpreendente. Levantou-se e foi desviando com cuidado do cérebro esmagado como manteiga no chão. Os dedos retorcidos do braço sobre o tapete lhe parecem cômicos, quebrara-os com a facilidade de quem quebra palitos de dente. Nem se lembra de quem fora o membro decepado. Saindo, finalmente pela porta, tira do bolso do traje, um lenço bordado. Beija-o com sadismo, deixando uma marca vermelha, como um coração e o joga delicadamente no chão, com o cuidado de errar as poças de fluidos e sangue. Quer o lenço intacto. É sua assinatura. Assinatura de uma artista da morte. Sai andando pela rua como se nada tivesse feito, e no caminho, encontra com o dono do palco do massacre, caminhando em direção da cena principal. Virando a esquina, pode ouvir seu grito de desespero. Gargalha.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 21h38
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