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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h42
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 Café e tinta

 

Não sabia o que era amor. Inocente. Não fazia idéia... Infelicidade era rotina. Tão rotina quanto a dose de café a tarde, ao ler o jornal. Passava os dedos preocupados pelos cabelos ralos. Mas, preocupados com o que? Não tinha filhos para esperar, não tinha esposa para lhe afligir. Preocupava-se com a vida, com o tempo esvaindo-se pelas mãos. A mediocridade dos dias passados lhe fustigava como o sol das duas, fazia encolher os olhos em uma dor desgostosa, assustadora. Incomodava como o zumbir de um inseto.

A televisão pintava as paredes da sala morta, branca. O único ponto de vida ali era um cacto tímido. E ele tinha mais conteúdo que o abandonado, arrancando os cabelos com as unhas aflitas. Nem lagrimas tinha mais. Era feito de café e tinta, dos jornais absorvidos pelos olhos e que maculava as mãos, colorindo-as de preto, num ato de ironia inanimada. O liquido negro reclamava em seu estomago vazio. A pele macilenta parecia se quebrar com um sopro. E o vento machucava. Até mais que a solidão. O olhar não tinha brilho. Lembrava um túnel escuro, profundo. Nem se imagina o que poderia sair dali em forma de palavras. 35 anos de morte. Como pode? Olhava ao redor, mas já decorara a sala, desde o teto até o chão. Brancos... Quando, num súbito olhar, absorve algo que não encaixava no quebra-cabeça morto. Pousada na parede, estava uma borboleta preta e amarela, como uma obra de arte. Vida... No meio do mar, terra. Olhou a criatura com a minúcia de um medico. Levantou da cadeira de forma demente e se aproximou devagar, com os braços estendidos em um glorioso desejo inédito. Desejo de toca-la. A esperança comendo-lhe os olhos. Os passos pesados e tortos pareciam eternos até a vida pendurada ali como um quadro.  Quando ia toca-la, o ser, assustado, foge de seus dedos com temor, num vôo bruxuleante como uma luz a ponto de se queimar. Os braços esticados como galhos secos ficam flutuando no ar, sem cor, sem vida. Crueldade... a vida foge dele. Ódio... novamente lhe escapa a esperança. Mesmo que... ela nunca existiu. Como um louco, pulou, saltou e atacou a pobre cor. Ela não tem o direito de iludi-lo! De frustrar a solidão branca! As patas do o animal alcançam e esmagam o corpo amarelo e preto, trucidam a alegria, despedaçam a criatura como uma folha seca. As mãos derretem no preto do cadáver delicado, mancham a palma fria. Tinta... banhada a café, derrubado na mesa pelo súbito ataque. Olha ao redor, e se vê sozinho. De novo... Vira-se para a cadeira, se aproxima dela lentamente e se senta com a calma de um aposentado rico. Seu robe de lá xadrez e suas pantufas macias imaginários contornam o corpo quente, ainda respirando aceleradamente. Pega o papel levemente amassado e volta a ler, sem absorver palavra alguma. Passa os olhos pelo jornal, como se passasse por sua vida. E da mesma forma, não absorve nada. Ela não existira. Era apenar um respirar vazio. Sorriu. Riu de leve, subindo os ombros, dando um murro na mesa e esbofeteando a xícara de café, que voa longe e se espatifa na parede, manchando-a com seu sangue preto e aguado. Abaixa a cabeça nas mãos, afundando o rosto nelas, sujando-o de morte. E soluça.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h32
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