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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h02
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Doce

Brilhava como um doce. Um doce daqueles de grudar nos dentes...

Seu casaco ondulava docemente no vento. As pernas compridas e finas deixavam um ar desengonçado, e o sorriso congelado no rosto era contagiante, erguendo as bochechas rosadas e fazendo fechar os pequenos olhos orientais. Cabelo preto, cortado linearmente, formando uma tigela infantilizada, preta, brilhante e lisa. Perfeitamente inofensivo.

O parque estava ensolarado, o céu azul sólido. Crianças corriam e gritavam de forma estridente, senhores passeavam com os cachorros. E havia casais... Muitos. Jovens, velhos, casados, noivos, apenas namorando. Sempre sorridentes e sempre colados. Como os casais chamavam a atenção do pequeno japonês. Adorava-os. Observava, com seu sorriso congelado no rosto. As mãos nos bolsos, o vento cortando a pele. E era assim que começava seu dia. Com a escolha de um casal premiado.

Ela com olhos azuis, cabelos pretos bem compridos. Ele cheio de espinhas, ruivo, exótico. Eram aqueles dois. E ponto. Começou a caminhada até um prédio antigo, caindo aos pedaços. Entrou pelo portal de vidro lascado e subiu as escadas longas até o mirante abandonado. Foi em direção a um dos cantos, onde se encontrava uma maleta de corino vagabundo. Abriu-a, assoviando. Os olhos aparentando sempre estar fechados.  Tirou dela algumas peças brilhantes e montou-as com destreza, enganando no quesito ‘desengonçado’. Appassionata III dedilhando nos seus tímpanos. A musica o fazia balançar os ombros infantilmente. Observou a obra montada, orgulhoso. Apontou o rifle até o parque, onde estivera andando há alguns instantes atrás. Encontrou a massa laranja grudada ao rosto cheio de espinhas. Observou pela ultima vez o sorriso da dama, pois seria o ultimo do dia. E com a delicadeza de uma bailarina, estourou os miolos ruivos, espalhando-os pela grama verde e fresca. O sangue brilhava como um doce. Um doce daqueles de grudar nos dentes... O grito bestial da dama encheu seus ouvidos, arrepiou os pelos do braço. E appassionata entrou na parte rápida, fazendo sua cabeça balançar de forma retardada. Ainda assoviando, desmontou a arma, o sorriso intacto, os olhos quase fechados. Não queria perder o espetáculo. Apressou o processo. Depois de ouvir o estalar das travas da maleta, desceu as escadas num trote rápido. Parou na calçada e observou, de longe, o escândalo da dama, o pranto enlouquecido, a expressão de dor profunda. Lindo... Sua garganta se encheu com algo quente, a sensação de que uma gargalhada fosse sair, vomitada dali. O teatro acontecendo e enchendo sua alma com a mais límpida alegria. Alegria que se repetiria no enterro. Ah... Obra de arte criada pelo homem... Todos de preto, guarda-chuvas abertos sem razão de ser, afinal o sol, irônico, projetava sombras frescas pela grama. A dama em prantos, algum qualquer a abraçando pelos ombros. E o pequeno japonês a alguns passos dali, observando o espetáculo com seu sorriso congelado. A beleza chegava a assusta-lo. Como era maravilhoso observar os soluços brotando do peito. Podia sentir a dor amargando a garganta. A tristeza era a mais bela pintura a ser observada. E ele queria mais.

O mesmo parque, a mesma grama, fresca e gelada. Perfeito tapete para receber fragmentos de carne. O casaco ondulando com a brisa, as pernas deslocando-se sem simetria. O sorriso imóvel. O casal premiado logo seria escolhido. Como a alegria deles chamava atenção do pequeno homem. Estavam ali, sentados sobre uma toalha. Ela, alta, cachos loiros na altura dos ombros. Ele, forte, moreno, olhos grandes. E os dentes brancos a mostra. Eram aqueles dois. E ponto. A escada parecia infinita. A ansiedade de ouvir os gritos agudos lhe comia os dedos. Se bem que... Porque não gritos graves dessa vez? Montou seu brinquedo, os dedos brancos tremendo com excitação. Pela mira, observava a moça. A pele rosada, com certeza macia, comeria a bala, a afagaria com calor. O pescoço era longo, levemente pálido. Era ali. Apertou o olho contra o metal gelado e alguns instantes depois, belos cachos loiros se tingiam de vermelho. Arrepiou longamente ao ver as mãos grandes sacudindo o corpo inerte da pequena. Desceu quase correndo os degraus, chegou a calçada e, novamente, observou seu espetáculo, a cena mais esperada. Quando ela morria era diferente. A amargura se mesclava a ódio. Homem não chora, homem ruge. Interessante. Mas não tanto. O enterro foi maravilhosamente melancólico. A mãe da dama de desmanchava em lagrimas geladas. E ao depositar o caixão fechado, o cavalheiro esmurrava-o, prometendo vingança, como se isso diminuísse o sofrimento de algum dos presentes. O efeito era o contrario, aumentava o prazer doente do oriental, aguardando no canto esquerdo o fim da peça. Mal conseguia dormir, aguardando o amanhecer e o sol, isca perfeita para casais. Sorrisos, escadas, sangue e lagrimas. Praticamente um café da manhã. Sua alma precisava, era seu alimento. Estava com fome.

Aquele dia amanheceu chuvoso. Droga... Casais não gostam de sair na chuva. Mesmo assim, fez seu caminho até o fatídico parque. Ao se aproximar, seu sorriso costurado se aumentou levemente. Um casal... Apenas um... Andando sob a garoa. Lindo. A melancolia da água junto aos prantos de um cavalheiro. Nem esperou para observar melhor a cena, galopou pelas escadas, escorregando às vezes. Chegou na platéia da sua peça. Montou com rapidez o rifle, a ansiedade fazendo a mão estremecer. Meteu o olho pela mira e observou a dama. Japonesa... Cabelos negros, levemente úmidos com a nevoa fina que caia. Um sorriso pequeno lhe preenchia o rosto redondo e rosado. Delicada como uma flor de cerejeira. Esperou. Seu dedo não respondia ao desejo de ver a bela face destroçada na grama. Um grito agudo dessa vez. A mira se deslocou para a esquerda, parou no meio de olhos amendoados, a pele levemente bronzeada, sobrancelhas grossas.  O dedo não tremeu, desceu no gatilho como um coice. Explodiu o cavalheiro em cacos de osso. O sorriso aumentou um pouco mais. As mãos suavam de leve. Quando algo fez toda a cor do seu rosto fugir. As bochechas caíram em lábios semiabertos. Não se ouviu gritos. Não se viu lagrimas. Pela mira, seu olho dava diretamente nos olhos da dama. Ela o fitava, através da lente. Expressão nenhuma no rosto, apenas a forma redonda delicada e rosada. Como poderia ter o visto ali em cima?  Seu corpo caiu para trás, os olhos finalmente abertos e mesmo assim, pequenos. A respiração acelerada. Sua mente se esvaziou. Seu corpo se desmontou. O cérebro voltou a funcionar num tranco de adrenalina, um desespero prazeroso. Quando apertou o olho na mira, para observar o que acontecia, deparou-se apenas com os restos do crânio partido. Seu coração parou. Movimentou o rifle desordenadamente, procurando a dama. Não a encontrou. O sangue esfriando aos poucos, as mãos gélidas. Um estalo o fez tirar o rosto devagar do visor. Seu corpo não respondia. Apenas a cabeça virou-se para trás. A dama estava ali. De pé, a sua frente. A roupa respingada em sangue. Seus olhos orientais fechados em um sorriso. Congelado... Appassionata III voltou a batucar seus tímpanos. A dama se aproximou devagar. A expressão intacta no rosto, aterrorizante, linda. O medo fedendo por entre a camisa pólo, o suor escorrendo pelo rosto. E um prazer doentio corrompendo-lhe o coração. A dama tombou de leve o rosto, estendeu-lhe a mão. Ele, num espasmo de masoquismo, estendeu a sua. Sentiu seu punho se estraçalhar em centenas de cacos. A dor lascinante lhe fazendo ter ânsias de prazer. O corpo foi levantado devagar pelo punho partido. O sorriso dela, inofensivo. Uma mão, pequena e úmida pousou sobre o seu peito. Sentiu os pés saírem do chão, flutuou delicadamente. A ultima coisa que viu foram olhos fechados, apertados em bochechas sorridentes. Caiu eternamente. 15... 11... Quantos andares tinha o prédio mesmo? Os ombros balançando de forma demente, seguindo o ritmo da musica; Beethoven deveria estar dando risadas. O japonês ria. Ria de forma obscena, doente, feliz. Enfiou-se no asfalto, rachou a calçada. Sentiu cada osso do seu corpo se deslocar, numa dor deliciosamente mortal. Ficou engavetado no IML por um mês. Foi enterrado em cova comum. Ninguém chorou. Ninguém gritou. Os únicos olhos que assistiam o coveiro mal humorado jogar terra sobre um punhado de carne eram orientais, femininos, fechados em um sorriso intocável, num rosto redondo, rosado. Jogou uma flor de cerejeira sob a terra fétida. Assoviou uma canção qualquer. Casais a atraiam também. Mas ela preferia a homens sozinhos. De preferência japoneses. Esperava-os no parque. Sempre apressados; sempre com cabelos da década passada. Quando avistava um exemplar, seguia e o chamava pra ver o parque do alto. Só não avisava que seria em queda livre. O saco de ossos tingiria a calçada com sangue. Sangue que brilhava. Brilhava como um doce de grudar nos dentes...



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 17h02
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