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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 23h46
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Leitura a dois

Leitura a dois

Acho que o dia em que realmente me apaixonei por ela foi aquele em que tomei o maior fora da minha vida. Eu achava fascinante, quase erótico. Ela entrava no apartamento exatamente as 18:12. A cada passo, uma peça de roupa caia no chão. E a cada queda, um suspiro saia do meu peito. Não interessa o fato de que já vi esse ritual mais de cem vezes, cada vez é nova, é surreal. Ela, ao deixar cair o soutien, estalava os dedos e se alongava caminhando até a sacada, num ato de sadismo. Sentia o vento, sorriso fresco nos lábios. Mais que o próprio vento que levava seus cabelos para as costas. Voltava para dentro do apartamento, pegava um livro e lia. Nua. Completamente nua. Sua pele brilha, reflete a luz. Quase comestível. Posso sentir o vento percorrendo seus seios, como um gole de água gelada. As pernas longas se cruzam no alto, confortável pra ela, um soco no estomago em mim. Aquilo me arrancava arrepios de onde eu nem imaginava que poderiam sair. Me apodrecia os sonhos sempre. E me acelerava o peito toda vez que a via saindo de carro, na garagem do outro lado da rua.

Eu já havia perfurado sua intimidade tantas vezes que achava normal. Sentia-me seu amante. Aquele espetáculo era apenas e somente para mim. Sentia nos meus ossos que ela sabia que eu a observava. Fazia de propósito. Crueldade, Jesus... Meus dedos longe daquelas costas. Contentar-me com a folha de papel áspero onde meus versos vagabundos habitam. Versos pra ela, obvio. Que ela nunca leria. E eu nunca assistiria.

Naquele dia, nos esbarramos na saída dos prédios, pela primeira vez. Ela saindo a pé e eu voltando da padaria. Medíocre. Mas mesmo com um saquinho de pão ridículo nas mãos, me senti forte. Sou seu marido, seu amante. Me aproximei e perguntei:

-Afinal... Porque você faz questão de ler nua toda noite?

Um sorrisinho de pedreiro contaminava meus lábios. Esperava uma risada tímida, porem feminina, um convite para entrar e uma leitura a dois em voz alta. Minha imaginação maquinou aquele momento por horas, sabia exatamente cada linha daquele espetáculo. Mas para minha surpresa e vergonha, ela diz, como se respondesse uma questão de matemática:

-Porque é confortável...

Virou as costas. E foi embora, virando a esquina. Improviso infeliz... Se eu pudesse me enterrar ali, me enterraria. O vexame pinicava na roupa. Sentia cada osso do meu corpo gelar, o suor percorria a testa, vermelha. Tudo que consegui fazer foi atravessar a rua, entrar pelo portão do meu edifício, subir pelo elevador, entrar em casa e me jogar no sofá. Que nojo, que nojo de mim. Mas no fundo daquela vergonha, algo tentava se desenterrar. Subia pela pele, arrepiando os pelos. Eu não sabia o que era, mas era quente.

Desejo.

Naquele dia... Naquele dia, ela não me saiu mais do pensamento. E eu não saí mais da sacada.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 23h45
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