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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h37
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Cimento

É comico o fato de vivermos anos e anos perdidos. Como existimos por segundos intermináveis até que, de repente um ultimo suspiro, que deveria dar sentido a tudo, desce como um machado em um delicado caule de flor, completando a certeza de que não há certeza alguma. Num momento qualquer do dia, acabamos por nos descuidar e chocar nossos olhos com os de um desconhecido qualquer. A sensação de roubar da pessoa seus pensamentos mais intimos e, pior, ter os seus roubados é nauseante. A rapidez com que se desviam os olhos é suficiente para que não tenhamos noção da dor. Mas o mais aterrorizante é quando nossos olhos se chocam com os do maior desconhecido de todos. Quando, num momento de descuido, fitamos uma vitrine qualquer, uma janela perdida e nos deparamos com nossos proprios olhos. O mais cruel deste encontro é que não há desviar, não há fuga. Rouba-se até o ultimo fio, a mais escondida particula de pensamentos sordidos que escondemos no fundo d'alma. Escondemos porque não queremos encontrar. E no chocar de olhos, temos lançadas a face todas as pequenas mentiras que contamos a nos mesmos. Chega a ser divertido... Mentimos porque a verdade é demasiada feia pra nos fazer sorrir. Aquele sorriso vazio, costurado e que logo derrete, escorre no rosto como as gotas de chuva na janela do carro. Sorriso de boca. Facil de dar. Existimos por tantos e tantos segundos sem nos darmos conta do quão sem sentido tais momentos são. Dias dos quais nem nos lembramos de ter vivido. Tente de lembrar do aniversário de casamento dos seus pais, da ultima vitória do time de Volei Brasileiro... Tente se lembrar da ultima vez em que tais pensamentos o perturbaram... Dá a ideia de que a vida fora um programa de televisão que saiu do ar. Mas por esperança, a tevê permanece ligada. Fica só aquele zunido cinza, ardido... Fazendo lembrar que aquilo um dia teve cor. Se é que teve. Temos uma capacidade incomparavel de tornar o passado novelistico, macio. Gostamos tanto de repetir incessantemente que naquele tempo era diferente. É mais confortavel, da margem a utopia de que poderemos ser aquilo novamente. Ouvimos uma melodia esperançosa, lemos frases positivas, assistimos a filmes romanticos e doces. Esmurramos a mesa prometendo que as coisas irão mudar! Conseguimos nos iludir com as deliciosas cores esfumaçadas que turvam a visão por instantes, enquanto dura a onda, a viagem. No outro dia, apos uma noite de sono e sensatez, a fumaça colorida se dissipou, largando a ressaca, o concreto cinza em nossos olhos. A sensatez, como o homem da areia, taca cimento em nossas palpebras, mantendo-as abertas e alertas, a espreita de qualquer vestigio de sonho, de esperança.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 14h34
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Escrito por Bruna Andrade / Leila às 13h52
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Bic azul sem tampa

Escrevo para não matar. Escrevo para não morrer. A cada dia que me arrancam coisas, que me defloram o pouco que me resta, coloco no papel os traços incompletos que ainda me fazem ficar de pé. As descrições, as formas, os gostos, os cheiros daquilo que um dia senti. Penso. Faz tanto tempo que não sei ao certo se senti tudo aquilo. O talento em falar daquilo que não conheço me surpreende. Descrever o invisivel. É como por no papel cada detalhe do Taj Mahal sem nunca ter visto sequer uma imagem do mesmo. Ainda sim, a descrição arranca lágrimas. Mesmo assim. Consigo fazer com que todos aqueles que me arrancam coisas sintam as lágrimas emocionadas, sintam a beleza das palavras quase corporeamente. Observo seus rostos se contorcerem num sorriso, o arrepio da sensação escrita percorrendo seus corpos. Ironia tamanha o fato de quem escreve não sentir nem a brisa vinda da janela. Escrevo com as mãos leves. Para não me convencer. Para não furar o papel com o peso. Escrevo para não matar. Para não pegar de volta aquilo que me tomaram. E so agora percebo que o pouco que me resta dos saques, acabo doando àqueles que me arrancaram tudo. Parei no tempo para digerir, mas engasguei com a dor. Será que o odio chega a tanto? Será? Escrevo para não matar. Escrevo para morrer só mais um pouco. Um pouco mais a cada dia. Pelo ralo escorro. Pela tinta da caneta. Pelos ouvidos daqueles que me roubam sou tragada. E se aproxima cada vez mais... O dia em que o resto não preencherá mais o traço da caneta quente em minhas mãos. O dia em que o resto não for suficiente. O dia em que a caneta falhará. O luto será só deles. Apenas deles.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 13h48
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