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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 16h02
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C5, 17h00min e luvas de oncinha

 

Escorada no parapeito da sacada, aguardava o momento certo. Não sabia em certo para que, mas aguardava. O vento fazia a roupa dançar sobre o corpo, rodopiando entre as formas já tão reconhecidas, mas tão novas. A chuva tamborilava nos braços, arrepiando os pelos. Desejou mentalmente que ela aumentasse. Aumentou. Sorriu. Talvez já estivesse na hora. Dirigiu-se ao quarto miúdo, divertindo-se com a chuva engrossando a seu pedido. Abriu o armário e buscou seus trajes já separados previamente para a ocasião. Fazia muito tempo que não usava preto, ainda mais no traje todo. Vestiu-se lentamente, ainda não se dando conta do propósito. Retornara da sessão a pouco, ainda confusa com o que ouvira lá. Absorvia o conteúdo aos poucos, como quem toma chá muito quente, com medo de se queimar. E queimava, mesmo aos poucos. Conseguia emudecer as conclusões por algum tempo, mas logo as mesmas berravam como crianças em um playground. Baixou os ombros, soltando o ar pelo nariz, desistindo. As lagrimas disseram um olá tímido pelo canto dos olhos, mas ainda não estavam prontas e retornaram para terminar de se aprontar. A ocasião era muito especial e demandava preparo. Passou a mão pelos cabelos longos, tirando-os do rosto. Respirou fundo e tomou coragem para se dirigir ao caixão. Aproximou-se, apertou as bordas antes de observar o que jazia no seu interior maciço. Com um soslaio, deu o primeiro relance ao rosto ali deitado, sereno. Os lábios tremeram, mas ainda não estavam prontas às lagrimas, criaturinhas detalhistas. As palavras da terapeuta ecoaram em sua cabeça. Por todo o caminho de volta da sessão, preparou-se para o velório, mas a imagem solida trouxe um quê de realidade que ainda era virtual em sua mente. Tapou a boca com uma das mãos. Teimosas! Ok, ainda não estavam prontas, deu-lhes mais alguns minutos para a entrada triunfal. Pousou a mão na testa da criança ali deitada, ainda sem observa-la por completo, olhando através do corpo. Demorou a enxergar o que ali estava morto. As madeixas roxas, curtas e despenteadas. Olheiras profundas, unhas descascadas com restos de esmalte preto, infantilmente passado. Uma coleira. Jesus, quem usa uma coleira roxa com espinhos? Pare... Não se deve ofender os mortos, perdoe-a por toda essa vergonha e falta de senso. Ela não tinha idade para saber o que a cabia. Apenas uma criança... Tão maltratada... Sofrida, dolorida, escoriada. Medrosa, bizarra, rejeitada, vitima de si mesma. Não viveu, afinal. Arrastou-se até onde deu conta. Quando não deu mais, aceitou a mão amiga de algumas pessoas. Mas agora já era hora de partir. Seu tempo na terra realmente havia se esgotado.

- Tem certeza de que já é minha hora?
O susto foi tamanho que o coração quase parou. Sua alma cambaleou dentro do corpo rígido. O cadáver da menina dos cabelos roxos abrira os olhos e lhe falava. Finalmente prestou atenção à solidez ali deitada.

- Por que você acordou? Quem te chamou?

- Ouvi você rindo um dia desses... Sério mesmo? Regatinhas e short jeans? Óculos escuros? Batom? Luvas de oncinha? Você não tem vergonha? Não quer honrar todo o trabalho que tive?

- Seu trabalho já foi feito... Feche os olhos, já está na hora. Eu cuido do resto.

- Você realmente conseguiu me contrariar e irritar... Transformou-se em tudo aquilo que eu mais desprezava. Em cada detalhe... Ficou feliz, boba alegre. Colorida...

- Me transformei naquilo que você sempre sonhou ser, mas tinha orgulho e vergonha de assumir...

- Beleza não cabe na inteligência, no conteúdo. Você sabe disso.

- Estou disposta a provar o contrário pra gente. Confia em mim... Sou mais velha e mais vivida que você. Ontem você me guiava, me deixa ter minha vez. Eu cuido do resto. 

Será? Daria conta de cuidar do resto de sua vida sozinha? Sem a companhia da pequena gótica? Se precisasse voltar por algum motivo, voltaria para onde? Entendeu o tamanho do fenômeno que ali acontecia, secou no medo. Suspendam a entrada das lágrimas, ainda não. É como sempre dizem... Ao atravessar uma ponte, por mais segura que seja o temor existirá sempre. E sempre se olhará para trás para ver se há possibilidades de voltar. E para baixo, pra ver se é possível sobreviver à queda... A ponte já havia sido cruzada. Aos trancos e barrancos, mas já havia. Só não era percebido ainda. Olhou para a menina das madeixas roxas novamente, mas seu espasmo de vida e saudade de existir já havia acabado. Voltou a morrer. Alcançou a tampa do caixão e, com força de três, depositou-a sobre a caixa sólida. Pela janela de vidro, ainda enxergava seu conteúdo lá dentro. Via claramente a almofada vermelha no fundo do caixão. Vazio. Seu real conteúdo estava refletido no vidro. Seu passado. Abraçou a si mesma, agarrando com as unhas no ultimo adeus. Soluçou. Podem vir meninas, venham quentes, é o momento. Chorou abraçada ao nada e ao tudo. Tudo que havia construído em 22 anos de arrastar. Conseguira finalmente se por de pé e dava seus primeiros passos, como um bebê. Viver não é muito fácil, estava indo aos poucos, sem sede ao pote. Soltou a garotinha gótica e a observou ir embora, escorregando como areia pelos dedos. Ainda estava chateada, a mocinha, era orgulhosa. Mas sabia que era o melhor a fazer. Abrira mão do passado para dar vazão a um futuro diferente daquele previsto, daquele e potencia. Diferente do futuro daquela garota das madeixas roxas. Alguns sentiriam falta dela. Mas nem ela mesma sentia falta de si. Dali para frente, o caminho de volta seria para aquele corpo presente, para aquelas formas e aquela estrutura, tão batalhada. Nunca acreditou que seria possível. Mas fez. Velou e enterrou a si mesma, abrindo novas portas para novos caminhos. E numa coisa, até a garota das madeixas roxas tinha que concordar. Ela não ficava bem de preto. De jeito nenhum. Nem de coleira. Cruzes.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 16h02
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