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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h16
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“O pequeno é R$7”

Os pingos gordos despencavam do céu afundando a roupa e deixando seus rastros. A mochila marcava os ombros, o andar torto na tentativa de abrir aquela velharia de camelô desgastava e irritava. Ao finalmente conseguir abrir o guarda-chuva, o fanfarrãozinho soltou três pontas, cobrindo coisa alguma e dobrando-se sobre si mesmo. As gotas de chuva driblavam a armação torta e estúpida, encharcando as laterais do corpo. Uma mecha de cabelo molhada grudou no rosto, no auge da irritação e da pressa. O guarda-chuva zombava da cara da garota, as mãos escorregando em tentar manter o show de malabarismo. Na rua ninguém a notava. Apenas ela mesma, que se sentia uma palhaça naquela fuga tosca. Fuga de que, afinal? Era de açúcar e mel por acaso, tinha medo da água do céu? Tinha medo das coisas pequenas? De existir? Se sentir?

Naquele momento sentiu-se ridícula. Sentiu-se só mais uma em meio à multidão, fugindo da vida, fugindo da própria pele. Tirou os fones de ouvido. Lançou a armação patética na calçada, que não possuía mais nenhuma utilidade, talvez a de para raio, sabe-se lá. Andou no mesmo ritmo em que se permitia andar antes. Manso. Os pingos gordos agradeciam pela liberdade encharcando os restos ainda secos da roupa. A água fria escorria pelas têmporas e paravam no sorriso, seguindo a curva. Agora era notada. Por todos aqueles que se agachavam ainda na fuga tosca, correndo em baixo de suas capas protetoras e cúpulas pretas, iglus de nylon. Foi notada até por Deus. “Maluca...” Maluca mesmo... Doidinha na roupa molhada. Só não tendo todas as ideias certas na cabeça pra se permitir tocar, se permitir existir dessa forma tão crua nesses dias foscos. Se permitir arrepiar nas gotas frias da água do céu. Gargalhou. Gostosamente. Foi lembrar só depois que tinha aula, todos os colegas de sala tentaram entender porque pombas alguém sairia sem guarda-chuva de casa num dia de tempestade. Continuariam sem entender até que permitissem que a água os tocasse. Que o mundo os tocasse. Sem medo. Com medo também. Só sendo. 

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h15
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