Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, Mulher, de 20 a 25 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Música, Leitura



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 meus desenhos
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis


 
 
Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



 

Réquiem dos Restos

Eu quero agua, sua morfética.

Era mais fácil acenar com a cabeça positivamente fitando o nada a tentar fazer aquela criança cabeça oca entender o que eu queria realmente. O jaleco branco não ajudava em nada a fortalecer qualquer imagem de inteligência ou saber naquela estudante magrela, apenas me irritava mais. Seu olhar de pânico, gritando “não sei o que estou fazendo aqui” me divertia, mas ao mesmo tempo, incomodava, fazia arder a bile amarga na boca. Boca seca, claro... Dois meses sem por nada para dentro, agua, comida... O ar, quem colocava era aquela maquina barulhenta. Nem da minha respiração posso tomar conta, pombas... Nem das luzes. Enfermeiras cretinas... Pelo menos pra isso a aspirante a psicóloga servia, pedia para desamarrarem meus braços, pedia para apagarem a luz. Pedia coisas que quem deveria pedir sou eu. Estar numa cama de UTI não ajuda muito a manter um padrão solido de qualidade nas coisas ao seu redor. Ninguém faz nada direito, cruzes... Minha língua tem gosto de cimento, meus cabelos caem. Do furo no meu pescoço, nem quero comentar. Cada tossir é uma ameaça a vida, essa porcaria arranha, arranca sangue de onde não deveria sair. Arrancou minha voz. Logo a minha... Lagrima não, por favor, faz aquela criatura aparecer aqui e tentar me arrancar qualquer coisa sobre como estou me sentindo. Como você acha que eu estou me sentindo, imbecil? Estou ótimo! Saltitando feito um pônei num campo florido! Raios. Eu até faria bom uso de conversar sobre o que me aflige, afinal, estou contido num maldito leito que fede álcool 70 e não posso controlar minhas ações, minhas compras. Não sei se estão pagando meus consórcios em dia, não sei se o seguro cobriu os danos do meu carro. Meu carro, caramba... Deve estar uma munha, deformado e... Merda. Lá vem... “Oi, meu nome é Carina, sou da psicologia, bla bla bla, você está num quarto na UTI, hoje é quarta feira, já é agosto” PORRA, eu já sei de tudo isso sua filha da mãe, você me repete a mesma coisa à dois meses. Me fala o resultado do mengão! Ai quem sabe eu tento falar com você? Mas de que adianta, é tão burra que não entende leitura labial, fica com seu olhar blasé feito um as de paus na minha frente. Ela não tolera o silencio. Ninguém tolera. Eu não tolero. Até ser fadado a ele; aprecio agora. Até porque, entre ouvir de todos que devo ficar quietinho pra sarar e o silencio frio e cortante feito uma lamina, fico com a guinzo. Chances existem de ela me falar novamente que minha família não veio me visitar. Como eu disse, é o silencio... No fundo, prefiro pensar que desistiram de mim a pensar que não dão conta de lidar com o resto do meu corpo deitado nesse leito. Dói menos o descaso do que a dor do outro. Silencio me lembra, não sei bem... Algo de um companheirismo. Mais ou menos como quando me sentava na sacada do prédio de madrugada, tinha como plano de fundo apenas um alarme de carro disparado. Ficava contando os minutos pra cada troca de sinal. Como eu tinha tempo... Fazia-me papear com o ar. Com Deus. Comigo. E Deus me contava que eu nunca ia morrer. E eu acreditava. Até sair voando pelo para-brisa do carro. Piadista esse ai, irônico. Colocou-me de frente com a morte só pra me mostrar o gosto do asfalto. “Tá vendo?”. Tô... Mortal. Igualzinho o resto do mundo. Lagrima não, caramba, vai apavorar a magrelinha... Se bem que ela podia sair logo daqui pra que eu possa retomar o papo que estava levando aqui. Estava falando sobre cores, gostos. O gosto do primeiro beijo, de língua e halls de morango. Meu primeiro gole de cerveja, cara, que coisa nojenta. Hoje daria meu mindinho do pé, que ficou lá no asfalto, pra tomar uma gelada. Depois que você o perde, o pé passa a ter um significado todo diferente. Sei lá, ainda não pensei no meu pé, só pensei na perda. Perder coisas é estranho. Estava lá e não está mais. Fica só o resto. O que raios eu vou fazer com todos os pés esquerdos dos meus pares de sapatos? Viu? Fica só o resto. O resto de mim nessa cama. O resto dos meus sapatos em casa. O resto do meu carro no pátio de um desmanche. O resto dos meus dias sem pé. Será que eu vou beijar uma garota de novo sem pé? Eu bem que podia beijar a magrelinha, pelo menos mudaria essa cara de paisagem pra mim. Olha com pena... Queria arrancar esse olhar do seu rosto com as unhas, sua cretina. Como me arrancaram a camisa no pronto socorro, como arrancaram meu pé na cirurgia, como arrancaram minha voz com esse tubo estupido na minha traqueia. Foi embora. Desistiu, é? Eu sei, é necessário força pra dar conta do silencio garotinha, você ainda precisa de muito leite com pera pra suportar. Agora que ela já foi, posso retomar meu papo com minha nova parceira por esses dois meses. Bonita, tem um léxico dos mais requintados, só é teimosa, feito uma mula de carga. Tentei convence-la a ficar por aqui mais uns dias. Anos quem sabe, eu faria bom uso de uns anos. Mas ela precisa ir e veio só pra me buscar. Nada mais doce e amargo do que saber que acaba. Num sopro, como a vela de um bolo. Capaz que sai no jornal. “Jovem de 26 anos morre em consequência de acidente na BR040”. Mimimi, todo mundo morre. E pronto. Morre. Igual o Tonico. Vira lata sem vergonha, só comia comida de gente, fedia feito a moléstia. Quando se é uma criança antissocial e tímida, um cachorro resolve todos os seus problemas. Meu melhor amigo. Mais inteligente que metade da turma de quinta série. Ele curtia rasgar os sacos de lixo dos vizinhos, eles enlouqueciam com o furdunço que aquele cachorro burro fazia. Eu gargalhava até engasgar, bagunçava aquela palha de aço que deveria ser pelo, um pelo ruivo que, não importa quantos banhos tomasse, continuava encardido. O Tonico era totalmente independente, saia na hora que bem entendia pelo vão do portão e voltava assim que conseguisse a façanha de rasgar todos os sacos pretos, que tivesse feito sua boquinha e que tivesse traçado alguma cadelinha por ai. Voltava. Até que um dia não voltou. Aquele veado, nunca me senti tão traído na vida. O amaldiçoei até sua quinta geração, chorei até secar. Mas nada comparado ao dia seguinte, quando meu pai o encontrou envenenado em um terreno qualquer. Nesse dia xinguei Deus. Não é justo... Ele nos dá e nos tira as coisas, como peças num tabuleiro de xadrez. Insolente, uma criança com uma lupa nas mãos, queimando formigas. Termina o serviço com algumas. Deixa outras com as antenas chamuscadas. Por prazer, tédio, sei lá o que. As que sobram tem que se virar com os pedaços que ficam faltando. Continuam suas vidas mancando, se arrastando, fazendo o que dá com o que resta. Somos só o resto do que perdemos. E nos significamos por aquilo que ganhamos. Por aquilo que compramos com nosso tempo. Cristo... Para onde tudo isso vai, afinal? Nas mãos de quem?

Desculpe o silencio... Me faltou voz agora, literalmente e figuradamente. Sabe, pensando melhor agora, perdoo Deus. Acho que, no fundo, ele é mais solitário que a gente, olhando tudo lá de cima. Quis meu amigo emprestado, mas, desengonçado que só, não soube devolver. Uma criança mimada, apenas. Larga esse lenço, deixa o sal secar nas bochechas, é o mais perto de agua que eu vou chegar por um bom tempo. Não é tosse dessa vez, calma, deixa eu soluçar... Caramba, que mão gelada essa sua. Eu já falei demais, começa você agora um assunto. Se me arrependo? Me arrependo de não ter me dado conta mais cedo. Se Deus não tivesse me enganado, se eu conhecesse você antes, mas só de vista, talvez tudo fosse diferente. Teria menos fome. Menos sede. Porque só o que eu sinto agora é fome. É sede. E dói. Não poder dói. Querer dói. As escaras doem. Por sinal, onde está aquela sem vergonha daquela enfermeira gorda que vira meu corpo pro lad

Morreu sem terminar a frase. Morreu sem terminar muita coisa.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 22h10
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]