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Cronicando




Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h25
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Fortuna

Capitulo 1: Deja vù

A fila não parava de crescer. Enquanto a senhora gorda a minha frente suspirava entre um soluço choroso e outro, eu ansiava por uma xicara de café amargo batizado com conhaque. Em alguns momentos eu anseio em ser mulher. Me parece mais fácil a elas demonstrar empatia ao choro alheio. A mim, restam os tapinhas nas costas e o cuidado em revirar os olhos apenas quando não estão olhando. Eu compreendo. De verdade. Descobrir a inevitável separação e a profecia bígama cumprida por vias tão sórdidas é degradante. Se bem que, levando em conta a grossura dos braços da madame, não é de todo complexo adivinhar que o marido talvez não estivesse tão... Satisfeito. Bem, pessoas traem, é a vida... Só entre a fila que aumentava sob a garoa fina, jaziam mais algumas dúzias de senhoras trocadas por calcinhas menores e gemidos mais jovens. Elas bem podiam fazer um grupo de apoio entre si. Todas tão semelhantes. Acima do peso, frigidas, cheirando a naftalina e alho frito. Quase como estrelas do mar, dividindo-se em braços amputados, criando-se da mesma massa amorfa medíocre. E, cruzes, a senhora já foi, me devaneei tanto que mal percebi a troca da cliente.

            É cômica a quantidade desleal de mulheres na busca pelos meus serviços. Soa estranho, mas é visível, posso contar nos dedos os homens que já entraram na minha tenda a procura de um vislumbre do futuro. Não sei se possuo alguma teoria acerca desta impressão... Ruminando o assunto, sobra algo que me remete a insegurança, ou sobre certa necessidade feminina de saber onde está pisando antes de pisar. Como se, desta forma, houvesse a chance de um plano de fuga antes da coisa desandar. Homens me parecem menos preocupados com os riscos que correm a cada passo. Burrice? Talvez... Falta de atenção, incapacidade de pensar no futuro... E... Mais um devaneio... Me perdi em mim mesmo e a mocinha das mãos ossudas que entrou e se sentou a minha frente está transformando meu panfleto de vidente em um canudo de papel trucidado por suas mãos suadas e tensas. Ainda bem que não preciso prestar atenção no discurso cuspido sobre a mesa com a bola de vidro medíocre que comprei por centavos na feira de sábado. Achei que trazia um ar místico... Me processe. Digamos que o que as pessoas vêm procurar na minha tenda é arremessado em meu rosto mesmo que eu tente evitar.  O futuro a mim não é surpresa nenhuma. Talvez por isso o ache tão super estimado... O que diabos as pessoas veem de tão extraordinário em saber exatamente o que as aguarda em cada esquina?



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h16
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Capitulo 1\2: Órfão pé frio

 

            Gregor previu a morte de seus pais com seis anos de idade. Não pôde evitar, mesmo aos prantos, que entrassem no imenso barco de metal; ninguém acredita em crianças. Ainda mais as estranhas de nascença. Seus cabelos castanhos oleosos caiam sobre os olhos fundos, escuros; sempre magro e ossudo, sempre quieto e com olhar assustado.  Perguntou aos avós se também enxergam aquelas cenas bizarras através das pessoas, porque seu reflexo no espelho não tinha aquelas linhas turvas, como as outras pessoas. Os pobres não suportaram suas idiossincrasias e, órfão, ninguém o quis por perto. Era como o mau agouro, morando sob seu teto. Mortes anunciadas, desastres descritos com precisão, o pobre trazia pavor e ojeriza a qualquer um com quem trocasse duas palavras. Tomando idade e consciência, Gregor por muito tempo sentiu-se culpado. Como o anjo da morte, que entrega a desgraça a quem passa por perto, se isolou no orfanato, negando contato com todos, acreditando que pouparia as pessoas de suas trágicas visões. Como películas de filme, as premonições projetavam-se sobre os donos, seus corpos como tela, e ele nada podia fazer para evitar. Seu dom o privou de todos os prazeres da terra até os dezesseis, quando tomou ciência da capacidade financeira charlatã que a habilidade possuía. Na tevê preta e branca, via todo o tempo cartomantes e videntes de araque defecando previsões baratas aos quatro cantos, ganhando dinheiro pura e simplesmente por aparentar possuir poderes místicos. Ele não pediu os seus, mas já que nasceu amaldiçoado, que ganhasse algo com isso.

Um circo pulguento o aceitou por uma módica quantia de aluguel e, logo, o vidente mirim fez sua magia, atraiu a gregos e troianos que, abismados com sua veracidade, formavam filas a fim de conquistar um vislumbre de suas vidas patéticas. Sua tenda roxa desbotada com estrelas amarelas bordadas atribuía ao local a tão desejada aura de ilegalidade e mistério necessária. Barcelona ganhara seu mais novo príncipe dos guetos encardidos, o mais jovem imperador dos larápios imundos, extorquindo dinheiro de imbecis curiosos. O tédio e o desprezo pelo humano logo contaminaram a pouca vontade de fazer o bem com o dom a ele atribuído, e assim, vinte anos se passaram em sua vida cíclica e banal. Seu colchão se enchia de notas amassadas e catarrentas, mesmo faltando proposito para usa-las. Seus talentos espalhavam-se aos sete ventos, e Gregor odiava sua vida cada dia mais intensamente, contudo, nunca mais do que seu ganha-pão e seus clientes chorões. Tinha a sensação de que o vinil de sua vida arranhara-se, e pulava sempre e eternamente no mesmo trecho, matando-o aos poucos afogado no marasmo. Até a noite que o disco rodaria para o refrão.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h15
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Capitulo 2: A maleta cheira a...

 

            Confesso que só não adormeci porque os seios da moça sacudiam quando soluçava; o movimento era quase hipnótico. É querida, você irá morrer cedo. Todos iremos, levando em conta nossas expectativas, compreenda... E sim, seu príncipe encantado está sacudindo saias alheias as suas. Um pouco mais do mesmo para me mostrar o quão fatigante é meu expediente. Até que uma brisa fria invadiu minha tenda, fazendo meus pelos da nuca eriçar. Com ele, entrou um senhor de cartola, fraque negro, maleta de couro numa mão e bengala na outra. Sentou-se, imponente. Me assombrou a presença masculina tão rara em meus aposentos, entretanto tão mais me assustaram os olhos do visitante. De um verde tóxico, cercados por rugas profundas e frias. Apertei minhas mãos inconscientemente, fazendo fundos sulcos com as unhas nas palmas.

            - Boa noite meu caro. Quente, não acha?

            Não consegui responder de imediato, meus lábios caíram abertos pelo assombro da imagem empoleirada em minha frente. Sua boca era vermelha, como se acabasse de morder suculentos morangos maduros. As sobrancelhas negras faziam sombra aos olhos, que brilhavam mesmo assim em seu verde pétreo. Seria atraente, se não fosse aterrorizante.

            - Perdão senhor, me devaneei... Com quem falo?

            - Me chamam de Corelli, sou advogado de causas perdidas. Soube de suas habilidades por um cliente que me devia favores e me interessei muito. Sabe, sou fascinado por pessoas poderosas.

            Sua mala exalava um odor forte, característico... Eu não sabia dizer o que era, só que arrepiava os pelos dos meus braços. Queria que ele saísse logo dali.

            - Compreendo... O que posso fazer pelo senhor, S. Corelli?

            - Vim oferecer-lhe uma proposta. Irrecusável, em minha opinião, mas há quem não concorde hahaha!

            - Continue...

            - Quero imensamente que você me conte o meu futuro. O que enxerga nas linhas do tempo que planam sobre mim, o que me aguarda no desconhecido.

            - Sem problemas, esse é o meu trabalho... O senhor ir...

            - Não não não, espere! Você não escutou a melhor parte! Se o que eu ouvir me apetecer, se eu me satisfizer com o que ouvir na sua previsão, você ganhará um presente inestimável. Algo que pouquíssimos possuem, que muitos pagariam fortunas para ter. O que me diz, jovem?

            - Depende... O que seria este agrado?

            - É uma surpresa. Confie em mim, meu caro!

            Eu senti que não havia saída, por algum motivo. Só me livraria daquele sujeito dando a ele o que quer. E queria me livrar dele logo.

            - Aceito sua oferta... Posso começar?

            - Só um segundo.

            Corelli se alongou, estalou os dedos e fez que sim com a cabeça, mostrando seus dentes brancos e quadrados. O odor havia empesteado a tenda, deixando meus sentidos um pouco adormecidos, mas após uma leve sacudida de cabeça, voltei ao meu estado. Não me exigia muito esforço ver o futuro dos que me buscavam, mas por algum motivo, tudo em Corelli era turvo e nebuloso. Com um pouco mais de concentração, atravessei a névoa que segurava a visão e me aproximei aos poucos, mentalmente. Porém, assim que obtive nitidez, senti um fio de aço gélido atravessando minha mente como uma flecha, espalhando um frio insuportável por meus membros. Era como se algo ligasse meus sentidos àquele corpo por magnetismo.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h14
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            Eu vi corpos. Muitos. Os gritos eram ensurdecedores, davam nós no estomago. Tudo naquilo era maldade, medo, descrença. Era como se Guernica fosse um parque de diversões infantil. Via mulheres agarrando seus filhos junto ao corpo entre soluços desesperados. Soldados mutilados se arrastando, crianças famintas... Entre tudo isso, andava Corelli, apoiando sua bengala em crânios, vez ou outra. Sorrindo, admirando o ambiente como quem analisa um imóvel para comprar. O frio era torturante, atravessava os ossos e largava ali a dor. Era como se a felicidade tivesse sido exterminada da humanidade. Um retrato de toda a desgraça.

            Contive uma ânsia de vômito quando senti meu corpo voltar a pesar sobre a poltrona. Tremia como um vagão de trem descarrilhado, os nós de meus dedos jaziam brancos como gelo.

            - Gregor, está pálido feito um pergaminho. O que viu? Diga-me.

            Não me lembro de ter dito meu nome, mas não consigo me preocupar com isso agora. Precisava tomar uma decisão a qual não conseguia mensurar o peso.

            - Eu vi...

            - Sim...?

            Deus me ajude...

            - Vi uma cabana... Uma cabana na floresta... Rodeada por crianças risonhas e borboletas... O cheiro de bolo assado vem da cozinha, onde uma moça belíssima sorri pela janela... Você é a fonte de tudo naquele lugar, você é o centro. O centro de... Da alegria que dali exala... Seu futuro é... Brilhante. Ensolarado, S. Corelli...

            O silencio sentou-se conosco na mesa redonda, olhando de um rosto para o outro como numa partida de tênis. As gotas de suor apostavam corrida no meu rosto.

            - Não era bem o que eu esperava. Acho que você me confundiu com alguém hahaha! Gostei, gostei muito, Gregor, fico jubiloso com sua visão! Sou mesmo um homem abençoado!

            - Fico contente, S. Corelli...

            - Lhe contarei um segredinho, jovem Gregor. Eu também tenho alguns poderes, sabia? Algumas habilidades inatas, assim como você.

            - E quais são elas...?

            - Ah, isto é muito pessoal, não é meu caro? Fique tranquilo, criança, logo você tomara ciência de seu pagamento. Ele será diretamente proporcional à fidedignidade de seu relato. Será um mimo vigoroso!

            Engoli concreto junto à saliva.

            - Entendo... Bem...

            - Ah, claro, você possui trabalho a fazer. Partirei a fim de deixa-lo continuar sua ocupação, a fila está longa lá fora. Fico muito grato pelo tempo que dividimos, meu caro. Até a próxima, Gregor.

            E deixou a tenda da mesma forma que entrou, puxando junto sua aura obscura.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h14
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Capitulo 3: Vidro maldito

 

Gregor acordou no dia seguinte sobressaltado pelos sonhos macabros. Tivera uma noite tensa, povoada pelos olhos de Corelli que o perseguiam. Aliviado, pretendia dar-se um dia de folga, mediante o serviço tão medonho da noite anterior, afinal, ser seu próprio chefe possui algumas vantagens. Pensando no cardápio apetitoso que optaria por almoço e lambendo os beiços, dirigiu-se ao banheiro para se refrescar. Seu grito bestial fez com que as rolinhas no beiral da janela alçassem voo, ofendidas.

            Seu reflexo era tão coberto por linhas e cenas turvas que mal conseguia enxergar os próprios olhos. Cenas variadas desconhecidas dançavam mudas sobre seu nariz, mostrando um Gregor barbudo, mais magro do que era possível e embriagado até os ossos. Depois, transformava-se em um mendigo imundo, falando sozinho com os próprios pensamentos, espantando moscas que só ele via. Trôpego, era estraçalhado por um bonde veloz e ignorante. O jovem apoiou as mãos gélidas na pia, olhando mais de perto as cenas estarrecedoras. Gregor nunca havia sido apresentado ao próprio futuro, e as saudações não foram muito acalentadoras. Desde muito cedo, notou que era ciente do futuro de todos, menos do próprio, e isso o consolava inconscientemente; o proporcionava o advento da insipiência e da ilusão de controle ao acaso. Contudo, seu presente chegara enfiando o pé na porta, fazendo o equilíbrio sumir de suas pernas. Apavorado, saiu em disparada até a rua, caçando transeuntes, apenas para largar ao vento mais um urro desolado. Corelli era fiel nas palavras e a piada ia mais fundo do que o esperado, afinal, qual seria a graça em manter as coisas equilibradas? Se ganha-se em um lado, o outro deveria perder, e aparentemente o futuro de seus clientes foi equivalente na troca em ter o seu. Tremendo, retornou a sua sala, arrancando os cabelos com as mãos em surto. Perdera todo o seu referencial de vida em menos de trinta minutos, e mal sabia a profundidade do poço fundo onde se encontrava.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h13
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Capitulo 4,5: Calem-se!

Pensei que quebrando todos os espelhos eu estaria livre... Estraçalhei cada pedaço de vidro ao meu redor, entretanto, as vozes me contam... Sussurram. Eu não aguento mais. Eu gargalho da minha própria desgraça, e ela se transfigura bem na frente do meu nariz. Quando meu futuro me mostra a corda, eu sacudo a cabeça em prantos, refutando a morte que eu mesmo me traria. Ela logo se desfigura em um eu idoso, decrepito e trancado em casa a sete chaves. Nada diferente do que é minha vida hoje, com jornais velhos e amarelos pregados às janelas, me impedindo de enxergar qualquer reflexo possível. Até nas lentes dos óculos de passantes um vislumbre escapava para rir da minha cara. Por um tempo funcionou e pude até ensaiar algumas movimentações diferentes da rotina diária de pão e leite, entregues na porta pelo garoto sardento da padaria e da posição fetal no quarto escuro. Contudo... As visões metamorfosearam-se em murmúrios, e meu inferno recomeçou na minha própria voz.

“Você vai comprar a arma amanhã”, eu me contava, e logo depois, anulava esse pensamento batendo mais um prego na porta. “Você vai morrer sozinho”, eu me balbuciava, mas essa ideia já não me atormentava tanto depois de tantas vezes repetida, como numa oração. Era um rosário diário que variava entre a morte, a solidão e a loucura, e a ultima já alcançava meus calcanhares. Eu tentava manter minha sanidade escrevendo versos soltos, vomitando minha angustia em poemas tortos, mas as noites eram longas demais, e dormir em meio ao som ininterrupto não era fácil sem alguns goles ardentes de qualquer coisa. Logo, meu eu moribundo e bêbado voltava a me mostrar suas certezas, e me forçava a interromper o torpor; é um jogo de gato e rato rumo à insanidade.

Minhas economias já estão no fim e eu não sei mais o que fazer para suportar. Corelli tem razão, afinal. Pessoas pagariam para um vislumbre do próprio futuro, afinal, me pagavam muito bem para esse deleite. Mas mal sabem os infelizes o tormento de saber a todo o momento o que lhes aguarda e ter a capacidade de mudar tais fatos a partir de sua ciência. É atordoante a certeza sem certeza alguma e tudo que ela lhe proporciona é o congelamento. Não sei quanto tempo irei durar.

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h11
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Capitulo 4: Abandono

            A espiral de desolação foi rápida e destrutiva. O jovem vidente ainda se esforçou para manter suas funções, mas após erros e mais erros, sua reputação se desmontou feito castelo de cartas e seus clientes, antes fartos, foram tornando-se escassos. Gregor tentara inventar premonições, porem, mais se notava seus tiques e solilóquios esquizofrênicos que suas previsões fraudulentas.  Transformou-se uma atração de circo bizarra e motivo de risos e chacotas, onde crianças apontavam e gargalhavam, quando não atiravam pedras. A caça as bruxas tornou-se aos poucos insuportável, e o jovem exausto se rendeu ao que suas visões tanto lhe mostraram: Isolou-se totalmente em sua casa, desertando de sua tão famosa tenda purpura. A bola de vidro logo fora arremessada na parede, pois era mais um reflexo possível para seu tormento. As saídas às ruas eram cada vez mais complexas e enlouquecedoras, as vozes populares e ameaçadoras se associavam maquiavelicamente aos reflexos perdidos em vitrines e retrovisores, transformando a realidade em trem dos horrores. Gregor resignou-se vagarosamente do contato social, organizando alternativas de fuga para poupar-se do calvário e, logo, definiu sua zona suportável de existência trancando-se em casa. Cada superfície apta a servir como maldito espelho era eliminada colericamente. Sua cama era seu refugio e um ninho de jornal formou-se lentamente ao redor. Gregor se entregou ao destino e apenas separava forças para não perder a batalha e manter-se respirando, ainda restava orgulho enterrado no fundo do desalento úmido de seu peito. Apenas não sabia quanto tempo essas reservas durariam, e tinha pavor até em cogitar tais dados, pois logo eram lançadas predições plausíveis e terríveis. A beira da morte – não tão a beira da morte. Bem me quer – mal me quer. Bem me quer – Mal me quer.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h10
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Capitulo 5: Pólvora

 

            Já não saio de cada tem cinco anos. Cinco anos que me pareceram uma vida inteira, meu holocausto particular. Devo estar irreconhecível, não me vejo nem nas costas duma colher; meus olhos se treinaram sozinhos para evitar qualquer coisa peluda que se movimente. As vozes já são tão costumeiras que em alguns momentos até me engano e aparento ter paz. Prender a respiração ajuda. Bem, para sempre deverá ser um alivio tremendo.

            O sol queimou meus olhos como ácido, cruzes. Minhas mãos se feriram ao arrancar os pregos da porta, não manejava nada além de pão havia anos, estava com a cútis fina feito papel de arroz. Tive sorte no caminho, topei com poucas pessoas. Ou as cretinas atravessaram a rua em pânico com a minha visão pavorosa. Aproveitei para me observar refletido em uma vitrine de calçolas imensas, que minhas antigas clientes gordas deveriam usar. Um desconhecido cadavérico e barbudo me olhou de volta, sorria seus poucos dentes amarelos e acenava com uma das mãos, a outra, encostava o cano da pistola na têmpora. Calma, para tudo há seu tempo...

            Comprei a arma rapidamente. Acredito que com algum desconto, possivelmente o vendedor queria me ver de costas o mais rápido que desse. Me permiti o primeiro sorriso em alguns anos, me sentia como uma criança voltando da escola no ultimo dia de aulas, em direção as suas tão desejadas férias. Você venceu Corelli. Maldito. Você conseguiu, seu presente foi de muita utilidade e de extrema potencia. Agora já chega, irei te decepcionar e por fim no seu showzinho barato.

            Me sentei na sala quente fedendo a madeira velha e mofo. Os jornais nas janelas proporcionavam um belo e envelhecido por do sol, que coloria as paredes de amarelo. Tive o cuidado de retirar as garrafas vazias de leite do caminho, queria uma queda limpa, eu ainda tinha algum carinho sobrando em mim. Talvez me encontrariam depois de algumas semanas devido ao cheiro nefasto, tem coisas que pouca gente suporta, quando fedem menos ainda. Gargalhei, insano, ansioso, sentindo o gosto metálico do cano frio na minha boca. Que beijo... Puxo o gatilho e caio deit

 



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h09
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Capitulo ?: Ciranda

            Gregor abriu os olhos aos berros com a dor lancinante que atravessou seu crânio. Gritou mais algumas vezes mesclando o ódio ao terror que invadia seu corpo, tateando o imenso rombo largado pela bala em sua nuca. Suas mãos retornaram banhadas no sangue fedido e morno. Esvaziou o tambor no próprio peito aos prantos, urrando como o animal ferido que era, derretendo em lágrimas e sangue. Ouvia ao fundo do zunido surdo deixado pelo estampido, gargalhadas banhadas num prazer sádico, quase contagiante.

O diabo não brinca em serviço.



Escrito por Bruna Andrade / Leila às 00h06
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